Houve uma época em que era moda as empresas contratarem especialistas em damage control — ou gestão de crises –, para ensinarem aos gestores como atuar em momentos de grande aflição. Ora quando António Costa deixar o Governo tem aqui uma bela carreira paralela. Perante a maior tragédia em Portugal dos últimos 30 anos, o primeiro-ministro conseguiu passar incólume a danos políticos no primeiro debate parlamentar a seguir ao grande incêndio de Pedrógão Grande.

António Costa blindou-se nas perguntas que fez à GNR, ao IPMA ou à Proteção Civil e ao SIRESP e nos inquéritos que lançou para não ter de ser ele a dar respostas. Mas na verdade ainda não as tem em termos definitivos. O primeiro-ministro tem ganho tempo. E tem sabido ganhar tempo: pede respostas, divulga-as — tem com certeza muito mais informação do que aquela que faz saber que tem –, mas passa uma imagem de transparência e de escrutínio. Chegou ao debate mensal no Parlamento com a vantagem de ter posto em prática uma estratégia eficaz do ponto de vista da comunicação, o que numa situação destas não é um aspeto político secundário: pediu respostas aos organismos de que dependem do Governo, sem que as eventuais falhas assumidas nas respostas comprometam o Governo. Nem sequer as contradições entre organismos que dependem do mesmo Ministério da Administração Interna levaram qualquer partido a pôr em causa a continuidade de Constança Urbano de Sousa.

Passos e Cristas querem respostas já, Costa prefere esperar

A gestão política de Costa foi ao ponto de conseguir que ninguém lhe pedisse a cabeça da ministra. Dificilmente a esquerda o faria. Mas a direita também não o fez (só o eurodeputado Paulo Rangel pediu a demissão umas horas depois do debate). Teve nisso ajuda dos outros líderes partidários. Perante a profundidade da tragédia, todos enfrentaram o primeiro-ministro com o cuidado de ninguém ser acusado de estar a fazer um aproveitamento político da catástrofe.

Pedro Passos Coelho já tinha cometido o erro fatal de falar nos suicídios que nunca aconteceram e ninguém quis fazer o mesmo papel. Aliás, nem sequer Passos foi criticado por nenhum dos outros partidos por ter feito aquele aproveitamento político sem sentido. Só Costa passou por lá, de forma muito subtil e só para os mais atentos, quando disse numa resposta a Assunção Cristas: “Eu pergunto primeiro, depois tiro as minhas conclusões. São métodos. O método que eu sigo, é o que considero que todos os responsáveis políticos devem seguir”.

Se Passos nem pediu responsabilidades ao Governo mas ao “Estado” — estava demasiado enfraquecido com a história dos suicídios, e tinha de aparecer moderado –, Cristas foi a mais agressiva do hemiciclo. Sem sucesso. Tentou forçar respostas que Costa soube dizer que não lhe podia dar. E em vez de pedir consequências políticas para a ministra cujos organismos falharam — resta saber em que extensão — pediu responsabilidades políticas para o primeiro-ministro. Com a insistência, deu a Costa a possibilidade de aparecer a falar com sensatez: “Sei que ninguém quer respostas precipitadas. Prefiro aguardar para ter a certeza do que digo, do que dizer algo agora que amanhã não posso confirmar”.

À esquerda, o Bloco pediu responsabilidades (mas não políticas), mas ideológicas, o que no caso não faz muito sentido. Centrou-se no SIRESP e no facto de ser uma PPP, o que não faz do sistema melhor ou pior, mais ou menos operacional. Não se focou na gestão política dos responsáveis do Governo. E sugeriu que o SIRESP fosse nacionalizado (aliás, é detido por uma série de entidades que estão insolventes e essa até chegou a ser uma possibilidade equacionada dentro do Governo do PSD/CDS). Costa não disse que não o faria.

Ministra da Administração Interna: “Seria muito mais fácil demitir-me”

Se com o PCP ficou evidente a divergência com os comunistas sobre a reforma da floresta — e o facto de não apoiarem a comissão técnica independente — Costa conseguiu no debate parlamentar aguentar o embate mais forte que o Governo sofreu até agora.

Haverá desenvolvimentos. Mais debates sobre o tema. Agora estão todos ainda à defesa, a ler o jogo, a ver para que lado pendem as conclusões. Vamos ver até quando António Costa consegue manter eficaz a sua estratégia de contenção de danos e passa ao ataque aos danos provocados por quem falhou na resposta à catástrofe. Para já, temos perante nós um paradoxo: ao mesmo tempo que parece ser cada vez mais difícil manter no Governo uma ministra sem arcaboiço para enfrentar situações tão duras como as que um MAI pode encontrar, também quanto mais tempo passa, mais estranho parece que venha a demitir Constança Urbano de Sousa.

Passou semana e meia. Costa não conseguirá manter a estratégia de contenção de danos se não encontrar responsáveis em breve. Se não houver consequências, ninguém vai perceber para que serve um primeiro-ministro. Nem um Governo. Morreriam 64 pessoas se tudo funcionasse como era suposto?