Juan Carlos I, pai do rei Felipe VI, é o grande ausente das comemorações dos 40 anos em democracia de Espanha, que se celebraram na passada quarta-feira no Congresso. Este afastamento foi muito sentido tendo em conta que o Juan Carlos fez história ao ser rei durante as primeiras eleições democráticas espanholas, em 1977, marco da transição política.

A abdicação do trono, a escolha de ficar em segundo plano e o protocolo deixaram o pai do rei de Espanha de fora, segundo o El Mundo. No seu discurso, Felipe VI rebobinou quatro décadas de história e lembrou os esforços realizados para superar a “realidade inegável” da etapa anterior marcada “pela intolerância, discórdia e falta de entendimento entre os espanhóis”. Na comemoração das primeiras eleições democráticas após Franco, a referência a Juan Carlos não tardou.

A ele e a toda a geração que abriu o caminho da nossa democracia, ofereço, aqui e agora, o testemunho mais profundo de gratidão, homenagem e admiração”, disse em homenagem.

Porém, pessoas próximas de Juan Carlos confirmaram ao El Mundo que este se sentiu “magoado” pela exclusão. O jornalista Raúl del Pozo revelou ao jornal espanhol que enviou a seguinte pergunta ao antigo monarca: “Sua Majestade não acha que não o convidar para a comemoração da democracia é como não convidar o Napoleão para comemorar a batalha de Austerlitz?”. A resposta foi curta e concisa: “Sim, claramente”. Um amigo próximo de Juan Carlos foi menos meigo e afirmou que a ausência do monarca no Congresso foi “um ato de cobardia e medo”.

Constitucionalistas contactados por o El Confidencial referiram que esta atitude é “coerente” com a linha de comportamento de Felipe VI. “Não há mais que um rei, diz a constituição, e há que recordar que o monarca emérito não tem funções públicas, políticas ou estatais”, afirma Antonio Torres del Moral.

Várias foram as ocasiões em que o Rei apelou ao respeito das regras e leis como um pilar de convivência e projeto político e social. Alertou os atuais representantes políticos que nada na democracia “deve levar à ruptura da convivência e à falta de direitos democráticos, muito menos optar por um caminho que divide espanhóis e quebra o espírito fraterno que nos une”, afirma.

O monarca admitiu que a transição política teve “erros e equívocos, luzes e sombras, como em todos os assuntos humanos” que afirma ter de “mudar, corrigir e reformar”. Incentivou ainda os espanhóis a orgulhar-se de se construírem “juntos nestas quatro décadas”, com “consciência de que tudo o que temos hoje não foi dado, mas é o resultado do sacrifício e esforço de milhões de espanhóis”.