É quase um desabafo. Pedro Santana Lopes defendeu-se esta sexta-feira das ligações que considera abusivas a Hermínio Loureiro, atualmente suspeito dos crimes de corrupção ativa e passiva, prevaricação, peculato e tráfico de influência, argumentando que o seu ex-secretário de Estado era um homem de confiança de Durão Barroso e não dele.

Num artigo de opinião publicado no Correio da Manhã, o antigo primeiro-ministro, que sucedeu a Durão Barroso depois de o social-democrata aceitar o cargo de presidente da Comissão Europeia, é claro: “Hermínio Loureiro foi sempre próximo de Durão, julgo até que dirigiu uma das suas campanhas. Próximo de mim é que nunca foi”.

Mesmo salvaguardando que sempre manteve uma “relação cordial” com o ex-presidente da ex-presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, o atual provedor da Santa Casa da Misericórdia recorda que “Hermínio Loureiro fez parte de um grupo grande de secretários de Estado que transitou do Governo de Durão Barroso” para o seu Governo, “porque nem houve tempo para decidir sobre mais mudanças do que aquelas que aconteceram e muito menos ao nível de secretários de Estado”.

Na mesma medida, ex-líder do PSD queixa-se de ser vítima de um esquema de associação que o prejudica invariavelmente: sempre que alguém que pertenceu aos dois governos se destaca, é recordado como antigo membro da equipa do seu antecessor; quando existe alguma controvérsia relacionada com esse período, é associada aos seus quatro meses de governação. “Pode alguém pensar que é mera coincidência, mas é daquelas coincidências em que se enganam sempre para o mesmo lado. Há outras coincidências, mais malévolas, que podem levar a pensar tratar-se de uma autêntica ‘lavandaria’ que pretende disfarçar as responsabilidades de quem as tem”, sugere.

Santana Lopes chega mesmo a concretizar o seu raciocínio com dois exemplos bem presentes: o caso das rendas da EDP e o controverso negócio que está na base do SIRESP. “Temas recentes, como os CMEC da EDP ou o SIRESP, foram tratados e negociados, em grande medida, no Governo de Durão Barroso, mas são reportados ao meu Governo que, naqueles quatro meses de plenos poderes, teve que finalizar vários processos que o Executivo anterior tinha em conclusão”, escreve o antigo primeiro-ministro.

De resto, esta não é a primeira vez que Santana Lopes se demarca do desfecho em relação ao negócio que envolveu a adjudicação do SIRESP ao consórcio liderado pela Sociedade Lusa de Negócios (agora Galilei). Em entrevista ao Público e à Rádio Renascença, o social-democrata lembrou que o projeto “era um processo que vinha do governo anterior” e garantiu não ter acompanhado o caso.