Um espetáculo que mostra o “constante complexo de inferioridade” das personagens de Karl Valentim, mas também “a alegria dos atores em cena”, é como o encenador Ricardo-Neves Neves define “Karl Valentin Kabarett”, que se estreia no Festival de Almada.

“Karl Valentin Kabarett” é a nova produção do Teatro do Elétrico — com o Teatro da Trindade e o Festival de Almada – que a companhia apresenta no dia 10 de julho, no palco grande da Escola D. António da Costa, no âmbito da 34.ª edição do Festival de Almada, e que estará depois em cena, de 13 a 23 de julho, no Teatro da Trindade, Lisboa, e na Praça do Mar, em Quarteira, cidade natal do encenador, a 29 de julho.

“Quero trabalhar com os atores a alegria de estar em cena (…) o brilho que conseguimos ver-lhes nos olhos, mais do que a alegria dos textos”, disse o encenador Ricardo Neves-Neves à agência Lusa, no final de um ensaio de imprensa da peça.

Sem, contudo, deixar de mostrar o lado melancólico de cada uma das personagens, Ricardo Neves-Neves sublinha que as figuras de Karl Valentin vivem sempre “numa constante inferioridade em relação ao mundo” e que quase sempre vivem em situações “que não são alegres apesar de se rirem”.

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Dos textos de que partiu para construir o espetáculo — os que estão traduzidos por Almeida Faria, Jorge Silva Melo, Luíza Neto Jorge e Maria Adélia Silva Melo, publicados na Cotovia — Ricardo Neves-Neves acabou depois por fazer uma seleção, sem se basear em critérios de data ou de dramaturgia.

Optou pelos textos de que gostava mais, até porque já tinha trabalhado alguns com alunos da ACT-Escola de Atores, referiu.

E, ao fim de uma semana de trabalho “muito partilhado” e de “experimentação” com os atores, acabou por se fixar nos textos com que todos sentiam “maior afinidade”, frisou.

Para complementar os textos do autor alemão nascido em Munique, em 1882, que chegou a trabalhar como marceneiro antes de iniciar uma carreira de cantor popular nas cervejarias de Munique, Ricardo Neves-Neves acabou por incluir no espetáculo canções de repertório popular alemão de finais do século XIX/início do XX.

Uma tarefa que, segundo o encenador, deu “algumas dores de cabeça e muito trabalho”, mas que agora é “motivo de orgulho para todos”.

Entre as canções incluídas no espetáculo, que falam de coisas banais e serão legendadas em português, conta-se uma sobre um cacto que está pendurado numa janela, e que vai picando os mais atrevidos que passam pelo local, referiu o encenador.

“Kleine Lulu” (“Pequena Lulu”), uma rapariga com que todos sonham, e um homem extremamente individualista que assegura que consegue fazer tudo sozinho exceto beijar, são alguns dos protagonistas dos textos de Valentin Ludwig Fey, que só viria a assinar como Karl Valentim depois do seu primeiro grande êxito, “O aquário”, de 1907.

Fazer um espetáculo do autor alemão (que antes de “O aquário” organizou, sem sucesso, uma digressão com uma grande orquestra de 20 instrumentos que acionava sozinho graças a um mecanismo que inventara) sem música era, pois, impensável para o encenador.

Até porque a música é a primeira a despertar os sentidos e cantar em alemão “causa algumas cócegas” ao espetáculo, observou Neves-Neves.

Mesmo que as músicas por que optou sejam do início do século passado, acabam por ter o mesmo desfasamento temporal das utilizadas pelo autor alemão nos seus espetáculos, o que não foi intencional, acrescentou.

A ironia dos textos de Karl Valentim está patente num dos quadros interpretado por Fernando Gomes, quando este lê uma carta, datada de fevereiro de 1932, na qual informa a filha de que esta terá de pagar ao pai a “conta da sua existência até à maioridade”, num total de “22 contos e 162.700 réis”, sob pena de este recorrer às instâncias judiciais, ainda que o pai lhe faça um abatimento de 10 por cento.

Ou o que é interpretado por Elsa Galvão, quando lê uma carta que escreveu ao seu amado a questioná-lo e a reclamar sobre os motivos pelos quais ele não lhe escreve.

Trajados de calças pretas e camisa branca, com ‘papillon’ ou gravata, qual cenário de cabaret da primeira metade do século XX, os atores vão intervalando texto, com dança e canções, num espetáculo em que o encenador assume pretender que “o prazer e a alegria aconteçam, mesmo quando se fala de coisas tristes”.

Interpretam “Karl Valentin Kabarett” Elsa Galvão, Fernando Gomes, Joana Campelo, José Leite, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tadeu Faustino, Tânia Alves e Vítor Oliveira, além de Tiago Amado Gomes, no canto lírico.

A orquestra é composta por Francisco Andrade (saxofone tenor), Ivo Rodrigues (trompete), José Almeida (baixo), José Massarão (saxofone alto), Marcos Lázaro (violino), Rui Pereira (bateria), Simon Wadsworth (piano), Tomás Pimentel (trompete), Xavier Ribeiro (trombone), dirigidos por Rita Nunes (também no saxofone alto e barítono).

Com sonoplastia de Sérgio Delgado e apoio vocal de João Henriques, a peça tem cenografia de Tiago Careto, figurino de Rafaela Mapril e, no Trindade, em Lisboa, pode ser vista de quinta-feira a sábado, às 21:30, e, aos domingos, às 16:30.

Depois de não ter encontrado substituta à altura da parceira com quem partilhara o palco durante quase 30 anos, e que conhecera em 1908, o autor, que chegou a ter Bertolt Brecht a tocar na sua orquestra, a frequentar os seus espetáculos e a reconhecer a sua influência (o contrário do que fez Samuel Beckett, em 1937, que comentou “rimos tristemente”, após ter assistido a um espetáculo do autor), Karl Valentin retirou-se para a sua casa de Planegg, também no município de Munique. Foi em 1942.

Viria a morrer de pneumonia, em 1948. Na década de 1970, o teatro de Karl Valentin foi redescoberto e reconhecido por especialistas como um dos maiores autores cómicos de sempre.