David Lee é homem de negócios americano de 50 anos e um dedicado coleccionador de automóveis, com uma paixão muito especial por tudo o que enverga o emblema da Ferrari. Na sua garagem estão estacionados mais de 50 milhões de dólares em carros de sonho, muitos deles carregados de história, uma vez que este filho de emigrantes chineses não só adquire modelos novos, como compra igualmente alguns carros clássicos de outros tempos, para depois os mandar restaurar.

Mas Lee não brinca em serviço, só adquirindo automóveis que espera que se valorizem fortemente. Daí que desejasse tornar-se proprietário do mais recente produto da casa do Cavallino Rampante, o LaFerrari Aperta, a versão descapotável do modelo híbrido de 963 cv, que atinge 350 km/h e os 100 km/h em somente 3,0 segundos, de que apenas se irão fabricar 209 unidades. Sucede que a Ferrari não vende a qualquer um os seus veículos mais exclusivos – por serem construídos em menor quantidade –, exigindo aos seus potenciais clientes um sem-número de requisitos (que não divulga na íntegra). O que, basicamente, lhe permite vender os seus carros mais cobiçados a quem muito bem entende e sem ter de prestar contas. Mas sempre vai dizendo que só vende a quem já possuir muitos exemplares da casa italiana.

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Ora Lee, além de uma invejável colecção de automóveis, dos quais uma parte considerável são Ferrari, para incrementar as suas hipóteses de poder pagar os 2,2 milhões de dólares por um Aperta, tem ainda excelentes relações com o concessionário local da marca em Beverly Hills, propriedade de Giacomo Mattioli, ex-empregado da Ferrari e ex-marido da neta do fundador da marca, o próprio Enzo Ferrari. E, para ter mesmo a certeza de que, desta vez, poderia entrar na short list para ser um dos 209 a poder adquirir um Aperta, até comprou a Mattioli mais quatro modelos da Ferrari – que, segundo o empresário ligado à joalharia, não lhe diziam grande coisa – só para não haver surpresas de última hora. Mas nem mesmo assim se livrou de uma nega, pois a Ferrari terá respondido a este cliente particularmente devoto com um simples e directo: “Lamentamos, mas para si não há LaFerrari Aperta.”

Esta aparente “malapata” de David Lee com o LaFerrari não é de hoje. Já quando o empresário quis adquirir a versão coupé do superdesportivo híbrido, de carroçaria fechada, cuja produção foi limitada a 499 unidades, a Ferrari disse-lhe “não”. Mas Lee pôs-se em campo e comprou um dos lugares na lista de espera para as unidades destinadas ao mercado norte-americano a um cliente que, em vias de divórcio, não queria ver o “seu” LaFerrari envolvido nas partilhas.

David Lee no negócio de família, uma cadeia de lojas na Califórnia dedicada a jóias e marcas de luxo

Em relação a esta aquisição, Lee afirmaria que pagou “muito mais do que os 1,4 milhões de dólares que a marca exigia pelo modelo” – de que os clientes não poderiam desfazer-se nos 18 meses seguintes –, mas que ainda assim “foi um excelente investimento, uma vez que o coupé tem hoje um valor estimado em cerca de 5 milhões”.

Quem é, afinal, este multimilionário?

Em 1960, o pai de David Lee, Hing Wa Lee, decidiu fugir da fome e do regime opressor chinês, precisamente após este ter vitimado o seu pai. Na época um jovem de apenas 13 anos, Hing atravessou, agarrado a duas bolas de voleibol e uma rede, o estreito que separa a baía de Shenzhen e a ilha de Hong-Kong, enfrentando as águas gélidas do mar da China, infestadas de tubarões. Lee sabia que nem todos os 30 elementos do grupo que se preparava para realizar a arriscada fuga iriam sobreviver, mas todos preferiam tentar a liberdade a continuar a viver no medo.

David e o seu pai Hang Wa Lee

Uma vez na ilha, começou como aprendiz na lapidação de pedras preciosas, arte que dominou e que, após cinco anos, levou para os EUA, onde abriria a sua própria loja de manufactura e venda de jóias. O negócio prosperou, mas foi com a ajuda do seu filho David Lee – que entretanto assumiu o negócio, depois de ter terminado os estudos – que a empresa da família atingiu a dimensão que tem hoje: um negócio multimilionário de jóias e relógios topo de gama.

Parte dos lucros da Hing Wa Lee Jewelers é investida em objectos de colecção, sobretudo veículos, com David Lee a fazer questão de conduzir todas as suas obras de arte. Aliás, ele próprio garante que todos os dias conduz um Ferrari.

David pagou 25 mil dólares para pertencer ao Ferrari Club e mais 12 mil para frequentar um curso de condução de dois dias na Ferrari Driving School. Mas são os seus superdesportivos que o colocam no topo dos coleccionadores privados. Na sua garagem existem brinquedos como o 250 Lusso Competizione de 1964, de que só existem quatro unidades, avaliado em mais de 5 milhões de dólares, ou o Ferrari de Fórmula 1 conduzido por Michael Schumacher, avaliado em 3 milhões.

Além dos muitos Ferrari, David Lee possui uma série de automóveis de outros construtores, não menos reputados, com destaque para um Porsche Speedster clássico e um 918 Spyder moderno, dois Rolls-Royce, sendo um mais virado para a família e outro um elegante descapotável, um Pagani Huayra, avaliado em cerca de 1 milhão de dólares e alguns McLaren e Lamborghini. Mas Lee faz questão de deixar bem claro que, às exposições, como à mundialmente famosa que anualmente visita Pebble’s Beach, na Califórnia, apenas leva os seus Ferrari. E os mais valiosos.