Quizz show:

Quem é o recordista de pódios, com oito, sem nunca ter acabado de amarelo?
Poulidor.

Em que ano entra a rádio em ação?
1929.

Em que ano entra a televisão em ação?
1952.

Em que ano entra o photo-finish em ação?
1955.

Quem é o ciclista com mais etapas ganhas?
Eddy Merckx, 34.

Quem é o ciclista com mais dias de amarelo?
Eddy Merckx, 96.

Quem é o único a vestir-se de amarelo por cinco anos seguidos?
Indurain.

O que ganha Pedro Delgado pelo título em 1998?
Um T1 em Paris, um carro, uma obra de arte e 500 mil francos em dinheiro (agora é só meio milhão de euros).

Quem é o último a vestir-se de amarelo sem ter ganho sequer uma etapa?
Oscar Pereiro, 2006.

Quem é o último francês a acabar de amarelo?
Bernard Hinault, 1985.

Porque é que Abdul-Kader Zaaf não é o primeiro africano a ganhar uma etapa?
Bebe de uma garrafa de vinho tinto de um adepto, troca-se todo e começa a pedalar em sentido contrário.

Quem é o primeiro português a ganhar uma etapa?
Joaquim Agostinho, 1969.

E o último?
Rui Costa, 2013.

Quem é o único português vestido de amarelo?
Acácio da Silva, 1989.

Quem o destrona nesse ano?
Greg LeMond.

Xiiiiii, Greg Lemond, isso é música para os nossos ouvidos. G-r-e-g L-e-m-o-n-d faz parte dos anos 80 como ciclista de gabarito internacional. É o primeiro não-europeu a ganhar um Tour. E é também o vencedor mais mítico da história do Tour, em 1989, com aquela diferença mínima de 8 segundos para Laurent Fignon. No ano seguinte, Greg voltaria a arrebatar a amarela, pela terceira vez. Terceira, que contas são essas? A primeira de todas é em 1986. Très bien, e o que se passa entre 1986 e 1989? Boa pergunta. Greg responde. “Tive um acidente de caça e parei durante dois anos.” Whaaaaaaaat?

Isso mesmo, Greg lesiona-se a sério. Em Janeiro, tem um acidente de viação e torce o pulso. Pronto, menos mal. Em Abril, no dia 20, Greg é baleado inadvertidamente pelo cunhado, em Sierra Nevada (Lincoln, Califórnia). Chi-ça. Quantos chumbos? Quarenta. Isso, 40. É dose. Greg corre risco de vida e só a pronta intervenção de um helicóptero da polícia, ali nas redondezas por casualidade, evita o pior. Quando chega ao hospital, é operado e salvo. No dia seguinte, um relatório médico dá conta do estado assim-assim do ciclista. Que piora quatro meses depois, ao ponto de passar novamente pela mesa de operações. Quando volta ao pedal, já em 1988, ainda com 35 chumbos dentro do corpo, cinco deles nos rins e mais três na linha do coração, o azar bate-lhe à porta com excesso de treino a provocar-lhe uma tendinite na tíbia da perna direita. Mais uma operação. Em 1989, regressa aos grandes palcos. E convence. Daí em diante, Greg é uma referência incontornável do ciclismo. Daí a nossa alegria no momento em que nos propõem uma entrevista por Skype com o norte-americano, brought to you by Eurosport.

Pois é, a versão portuguesa da Eurosport tem os seus especialistas da praxe (os inimitáveis Luís Piçarra, Paulo Martins e Olivier Bonamici, reforçados por Gonçalo Moreira) mais os comentários dos internacionais Juan Antonio Flecha e Greg Lemond. Ei-lo, o homem. A conversa por Skype está marcada para as 10h da manhã. E daí não passa nem um segundo. Às 10 o’clock (sharp), oito jornalistas europeus, entre italianos, búlgaros, polacos, holandeses e espanhóis, picam Greg com perguntas sobre o Tour 2017. Há quem peça uma opinião sobre a saída abrupta do português André Cardoso, apanhado nas redes do controlo antidoping. “Eu desconfiaria se ninguém desse positivo. Gostava de acreditar no ciclismo como um desporto limpo, só que sabemos que alguém vai tomar uma substância proibida. É um bom sinal alguém ter sido apanhado, quer isso dizer que a brigada antidoping fez testes e está atenta, seja antes, durante ou depois das etapas.” Detalhe: Greg é uma das vozes mais ativas contra Lance Armstrong, cujo currículo impressionante de sete vitórias no Tour desaparece do pé para a mão na sequência de um longo e obscuro processo de ilegalidades desde 1999.

Os jornalistas italianos atropelam-se nas perguntas sobre Aru. Uma. “Ele é um líder nato e vai suportar a pressão durante três semanas.” E outra vez. “Aru não está numa equipa tão forte como a do ano passado, mas, se calhar, nem precisar de uma equipa assim tão forte para se impor.” E mais uma vez. “Aru está fresco e ninguém deve subestimar a Astana.” E, caramba, só mais esta aqui, ò. “Ouço isso da crise dos ciclistas italianos há anos e anos, desde 1981. Não falaria em crise, é todo um processo de evolução e o ciclismo tornou-se entretanto mais global. Há mais ciclistas de outros países e isso equilibra mais o Tour.”

Por falar nisso, como Greg vê o Tour 2017? Em matéria de favoritos, pergunta o espanhol (claramente à espera de Contador). “Aru, Froome, Quintana, Contador e até Pignot.” Então porquê? “Nos últimos anos, os ciclistas tiveram de liderar com altas temperaturas e alguns trajetos mais difíceis. Este ano, a rota parece mais fácil e isso significa um Tour mais aberto, perfeito para os ciclistas agressivos. Só tenho pena da ausência de um contrarrelógio com 50/60 quilómetros.” Só mais uma pergunta sobre Contador. “É do mais consistente nos últimos 10 anos.” E uma sobre Froome, acerca das cerca de zero vitórias em 2017. “As ações na Sky de há um ano para cá têm sido caóticas. Qualquer um, sente e ressente-se dessa atmosfera negativa. Ao contrário do que as pessoas pensam, os ciclistas são frágeis. São humanos, como qualquer um de nós. Também eu, como ciclista, passei por muitas merdas. Um vez, por exemplo, corri sem ter sido pago. Num Tour, em que a competição está sempre presente durante três semanas, um ciclista tanto passa por muita coisa como se esquece doe todos os problemas à sua volta.”

A entrevista coletiva já vai em 41 minutos, só falta uma pergunta. A do português. Das três enviadas por email, o pivot escolhe a mais histórica de todas. Good call. É sobre Acácio Silva, se ainda se lembra dele. O pivot até diz mal o nome do homem, qualquer coisa como Açaçio. Segue-se a gargalhada de Greg. “Absolutely, Acácio era uma das figuras do Tour. Estava lá sempre com uma grande atitude. Já não o vejo há alguns anos, mas era daquelas personalidades do Tour, sempre sorridente.” End of conversation. Obrigado Greg, bom Tour.