Teatro

Ruy de Carvalho pela primeira vez no Teatro Experimental de Cascais com um clássico de Dostoiévski

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A concretização de um "sonho muito antigo" é como o encenador Carlos Avilez define a estreia de "Os irmãos Karamázov" pelo Teatro Experimental de Cascais, com o ator Ruy de Carvalho.

Ruy de Carvalho representa o papel de patriarca da família Karamázov, Fiódor

Miguel A.Lopes/LUSA

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  • Agência Lusa
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A concretização de um “sonho muito antigo” é como o encenador Carlos Avilez define a estreia de “Os irmãos Karamázov”, pelo Teatro Experimental de Cascais, na segunda-feira, com o ator Ruy de Carvalho, pela primeira vez, no seu palco.

Com esta peça baseada na obra homónima de Fiódor Dostoiévski, terminada pelo autor russo um ano antes de morrer, o Teatro Experimental de Cascais (TEC) reúne, no seu palco – o palco do Teatro Municipal Mirita Casimiro, no Monte Estoril, Cascais -, quase 75 pessoas, 38 dos quais, alunos da Escola Profissional de Teatro da vila, que aí farão o seu exame final de curso, acrescentou à agência Lusa o encenador da peça e diretor da companhia.

Há muito que Carlos Avilez desejava fazer esta peça, uma vez que a obra do autor russo o marcara bastante, mas acabou por ir adiando, por ser “extremamente complicada, de difícil representação e montagem”, explicou.

Mas a escola [Profissional de Teatro de Cascais, que dirige] faz 25 anos e era altura de provar a qualidade dos alunos”, indicou.

Resolveu então convidar Ruy de Carvalho para o papel de patriarca da família Karamázov – Fiódor -, por ser dos pouquíssimos “nomes maiores” do teatro português que nunca pisara o palco do TEC.

Desde Eunice Muñoz, Carmen Dolores, todos… [passaram pelo TEC], faltava o Ruy. E eu que já tinha trabalhado com o Ruy de Carvalho há muitos anos [1977], em ‘O encoberto’ [de Natália Correia], no Maria Matos, e depois enquanto dirigi o Nacional [D. Maria II, entre 1993 e 2000], achei que era muito simpático e muito agradável para a companhia ter a presença de Ruy de Carvalho. E, num espetáculo com muitos jovens, isso era muito especial”, frisou.

É também especial por ser um papel completamente diferente dos que o consagrado ator de teatro costuma fazer, acrescentou. Fiódor é “um bêbado, um depravado, um mulherengo, um tipo horrível… E o Ruy, que fez papéis de tudo e é um grande ator, tem uma interpretação ‘notável’. É um Ruy muito devasso e é brilhante a fazê-lo”, sublinhou Carlos Avilez.

A personagem que Ruy de Carvalho “veste” pela primeira vez está, aliás, a dar-lhe “muito prazer” interpretar, por ter feito “alguns, não muitos” papéis de mau e estar, pela primeira vez, a trabalhar com alunos de teatro, como o próprio ator disse à agência Lusa.

Nesta peça, Ruy de Carvalho volta a contracenar com o neto Henrique, que foi aluno da escola e interpreta Dmítri, o primogénito e o mais violento dos quatro filhos do patriarca Fiódor, e o único que ousa ameaçá-lo em vida.

José Condessa será Ivan, Miguel Amorim fará Liosha ou Aliosha, e Renato Pino interpretará Smerdiakov, o filho bastardo de Fiódor, no romance do autor de “Crime e Castigo”.

Por ser também um papel difícil para o neto, Ruy de Carvalho admite estar “todo babado”, sem deixar de poupar elogios ao profissionalismo deste, aos restantes atores do elenco, aos finalistas e aos 21 alunos do primeiro e segundo anos da escola, que também integram o elenco.

Todos sabem fazer bem as personagens que interpretam, ainda que se tenha de ter em conta que se trata de uma prova escolar”, sublinha Ruy de Carvalho à Lusa, acrescentando tratar-se de uma peça de que “gosta muito, e que retrata situações que continuam a acontecer”.

“Ainda hoje acontece muito isto. Há pais assim, filhos assim”, acrescenta, notando que embora a ação da obra de Dostoiévski decorra na Rússia – um país “muito belo”, de que gosta muito e com “um povo que tem muito a ver connosco, mesmo quando era governado por uma república comunista” -, podia passar-se em qualquer outro país do mundo.

Ruy de Carvalho é ainda o único ator fixo no papel de Fiódor. A peça terá quatro elencos – um por dia, durante quatro dias seguidos.

É a única forma de pôr todos os alunos a representar esta versão dramatúrgica de Graça P. Correa, a partir da adaptação de Jacques Copeau e Jean Croué, traduzida por Júlio de Magalhães, e da tradução de Maria Franco do romance original, disse Carlos Avilez, sublinhando tratar-se de um trabalho que mobilizou uma vasta equipa.

O espetáculo inclui ainda o episódio do “Grande Inquisidor”, que a adaptação de Copeau e Croué não inclui, acrescentou o encenador.

É uma peça com uma grande carga política, mas muito atual, tem muito sobre o tratamento dos seres humanos, da existência de Deus. É uma peça que não ficou [se limitou] na época”, frisou.

Questionado sobre a dificuldade de pôr em cena esta peça numa altura de crise, Carlos Avilez disse que apesar de os 52 anos do TEC nunca terem sido fáceis, o “corte horrível” que sofreram na última atribuição de subsídios lhes dificultou demasiado a vida e que, sem o apoio da Câmara de Cascais, não seria possível continuar.

Mas a companhia está “revigorada, com muita gente nova e em força, como se tivesse começado há um mês”, afirmou. “Estamos a trabalhar com a mesma intensidade, a mesma vontade e a mesma força de trabalho”, concluiu.

Luiz Riso, Sérgio Silva e Teresa Côrte-Real, no papel do monge Zóssima, um tenente e madame Varvara, respetivamente, completam o elenco de atores do teatro que interpretam “Os irmãos Karamázov”.

Após a estreia, a peça – com cenografia e figurino de Fernando Alvarez, coreografia de Natasha Tchitcherova e voz de Ana Ester Neves – será representada, de terça-feira a sábado, às 21:30, e, aos domingos, às 16:00, até 03 de agosto.

“Os irmãos Karamazóv” é considerada uma das maiores obras da literatura mundial escrita por Fiódor Dostoiévski (1821/1881), e centra-se na família que lhe dá o título, perpassando temas como religião, desconstruindo mitos e enfrentado o conflito de gerações.

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