Ambiente

A biodiversidade das grandes cidades: como as espécies se têm adaptado à expensão urbana

Os limites das nossas cidades confundem-se com os habitats naturais de centenas de espécies. Algumas adaptam-se, outras não resistem. Mas algumas cidades destacam-se na sua gestão ambiental.

No Sri Lanka, as populações locais acreditam que os animais que invadem a cidade são representantes dos deuses e alimentam-nos

ISHARA S. KODIKARA/AFP/Getty Images

Autor
  • João Costa

O mundo nunca foi tão urbano como é hoje. Trocámos as florestas por estradas de asfalto e betão, a água é canalizada e em vez das copas das árvores temos edifícios de aço e vidro. A expansão urbana é talvez a mais relevante característica da nossa espécie e, ao mesmo tempo, uma ameaça para todas as outras.

Ainda assim, há vulcões adormecidos na Cidade do México que servem de casa a muitos animais, pessoas são atacadas por leopardos nas favelas de Mumbai e os recantos de Londres são o sítio de eleição dos texugos para darem vida às suas crias. Já na Cidade do Cabo, os pinguins passeiam lado a lado nas praias com os turistas. Estes são apenas alguns exemplos (sortudos) de espécies e ecossistemas que se adaptam à constante expansão humana. Outras, não resistem.

Mas a expansão urbana pode ser feita de maneira sustentável e essa sustentabilidade pode (e deve) mesmo ser um importante critério decisivo na hora de construir uma estrada ou um bairro, como é o caso de Singapura.

Os humanos sempre foram atraídos para zonas com maior diversidade de fauna e flora. Algumas grandes cidades atingem extremos espantosos. Por exemplo, São Paulo, no Brasil, extende-se da floresta tropical atlântica até à savana do Cerrado.

Contudo, nomear uma cidade como sendo a mais diversa em termos de vida animal e vegetal é uma tarefa complicada porque nem todas compreendem a mesma área e limites administrativos.

A Cidade do México é uma forte concorrente. Foi fundada ao redor das lagoas formadas onde os desertos encontram os vales vulcânicos, sendo um local de eleição para muitas espécies. Ainda hoje, contém cerca de 2% das espécies existentes em todo o mundo dentro dos seus limites administrativos.

Um jardim botânico no centro da cidade de Singapura

Mas é ultrapassada por Singapura. Esta cidade-estado estende-se da Malásia até ao Bornéu e a Bali e alberga 392 espécies de pássaros. Notável é o impacto que a política de sustentabilidade teve no crescimento da cidade. Por lei, os construtores civis são obrigados a substituir o espaço verde que destruírem para construirem edifícios. O resultado é um equilíbrio entre jardins e arranha-céus. Surpreendentemente, Singapura aumentou o seu número de cidadãos e a área verde ao mesmo tempo. Desde a sua independência que o pequeno estado se quis diferenciar por ser ecológico e verde. Hoje, 40% da cidade é coberta de vegetação, apesar da sua grande densidade.

Para comparação, Londres tem uma cobertura de 19,5% e Los Angeles tem 13%. Já Lisboa tem um coberta de 8%, de acordo com este estudo da Nova SBE.

Os países com maior biodiversidade – Brasil, Colômbia, Indonésia, China, México e Austrália – são países tropicais ou semitropicais e em expansão crescente. A natureza pode parecer uma prioridade menor neste cenário, quando comparada com serviços como saneamento, saúde e educação. Mas Singapura, por exemplo, mostra como a biodiversidade pode ser parte da solução destes problemas. Pode ser um factor importante no planeamento urbano que previne inundações, ameniza temperaturas extremas e filtra a poluição – para além de promover o turismo e a qualidade de vida.

De acordo com Thomas Elmqvist, líder do Projeto de Biodiversidade de Cidades das Nações Unidas, a cidade mais biodiversa, em números brutos, é a Cidade do Cabo.

A Cidade do Cabo vista de um helicóptero, com a montanha de Mesa ao fundo

Localizada na África do Sul, a Cidade do Cabo contém 50% de todas as espécies de mamíferos do país, desde babuínos a avestruzes e zebras. Ao mesmo tempo, podem ser avistadas na costa baleias, focas e lontras. A estabilidade climática da Cidade do Cabo permite que continue a ser casa de mais de 3000 espécies de plantas, 361 espécies de aves e 83 espécies de mamíferos.

É uma realidade que pode durar pouco tempo, uma vez que a sua população humana cresceu mais de 30% desde 2011 e, desde então, 318 espécies de plantas, 22 espécies de aves e 24 espécies de mamíferos estão em risco de extinção, apesar das várias medidas de proteção e preservação deste habitat implementadas pela cidade.

editado por Filomena Martins

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