Paula de Odivelas nasceu no início do século XVIII. Patrícia Müller descobriu-a há muitos anos através de uma notícia num jornal e resolveu tornar a sua história num romance publicado em 2014 nas Edições Asa (Madre Paula). Paula não era só uma freira no Mosteiro de Odivelas, foi amante de D. João V ao longo de treze anos. A série que se estreia esta quarta feira na RTP 1 (22h30) é uma ficção inspirada naquilo que Patrícia Müller investigou sobre esta mulher pobre, colocada à força num mosteiro pelo pai, um ouvires falido.

Em “Madre Paula” a protagonista, interpretada por Joana Ribeiro, percebe desde cedo que a única forma que tem para ganhar poder no Mosteiro é envolver-se com nobres, prática que não era estranha naquelas paredes em Odivelas. Sai-lhe a sorte grande, D. João V (Paulo Pires), e a partir daí desenvolve-se uma história fascinante do século XVIII português. A série oscila entre o que se passa no Mosteiro de Odivelas e o mundo da corte portuguesa, com especial ênfase em planos para depor o rei. Estivemos à conversa com Patrícia Müller, a argumentista que escreveu algumas das telenovelas que os portugueses mais gostaram neste século (“Rosa Fogo”, “Mar de Paixão” ou “Fascínios”) e que agora transformou um dos seus romances numa série de 13 episódios para a RTP 1, realizada por Rita Nunes e Tiago Alvarez Marques.

[o trailer de “Madre Paula”:]

Como chegou à história da Paula de Odivelas?
Uma notícia de jornal. Madre Paula, amante do rei, freira em Odivelas. Isto pareceu-me bem. Depois fui à procura dela. Já tinha esta história há muitos anos, talvez quinze. Quando chegou a altura de fazer o meu segundo livro, falei com a editora e sugeri. Um romance histórico não é sobre a vida de uma pessoa, isto é um romance passado no século XVIII.

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A história de Portugal era um tema que lhe interessava?
Eu era a pior aluna em história, quer dizer, não era a pior aluna porque não era má aluna. Mas não me interessava nada por história, achava que era uma chatice. Mas também a história que eu aprendi é uma história muito de factos. Não percebes quem são as pessoas. Se queres perceber história, e acho que nisso os cronistas da altura eram muito bons, o Rui de Pina e Fernão Lopes: aquilo era uma espécie de “Caras” da altura. E era assim que a história era contada. Eram cronistas, faziam crónicas. E isso é o que basicamente interessa, não é? Se queres perceber quem eram aquelas pessoas, tens de perceber quem eram aquelas pessoas. E darem-te factos e factos e mais factos e anos, não sabes quem eram aquelas pessoas. Só percebi agora a importância de D. João V em Portugal quando comecei a pesquisar para a “Madre Paula”. E eu não me interessava por história. Isto foi um esforço duplo. Quando descobri esta história achei incrível um rei e uma freira juntos. Achei o conceito maravilhoso. E depois é que tive de fazer um supremo sacrifício de perceber o que era. Estive a ler imensos livros, em bibliotecas, na Biblioteca Nacional, Torre do Tombo e depois fui falar com a Máxima Vaz, que é uma historiadora. Ela foi incrível e ajudou-me muito. Estive mais de um ano a investigar para isto. Escrevi o livro em menos tempo. Ao todo foi ano e meio, dois anos de trabalho.

Mas escrevia enquanto fazia investigação?
Escrevo sempre enquanto estou a fazer uma outra coisa qualquer. Nunca estou a fazer só uma coisa. A minha cabeça não me permite, eu sou o contrário da maioria das pessoas, fazer só uma coisa aborrece-me. Sabe o que às vezes estou a fazer? Estou a ver séries ao mesmo tempo que estou a escrever. Ao mesmo tempo, noutro ecrã.

Faz sentido, é como estar a ouvir música.
É um bocado. Agora estou a ver o “The Handmaid’s Tale”. Estava a ver enquanto estava a escrever outro projeto. Posso passar o dia nisto. Desligo o computador, desligo o documento, tive outra ideia, tiro e abro outro documento. Às vezes tenho cinco coisas abertas ao mesmo tempo.

E trabalha em casa?
Muitas horas. Quem acha que trabalhar em casa é fácil, é porque não trabalha em casa.

Os diálogos de “Madre Paula” são corridos e diretos. Era essa a intenção?
Os diálogos têm de ser muito bons, têm de ser oportunos. Na “Madre Paula” fizemos isso. Não são diálogos muito rebuscados, mas também não são muito simples. Houve um bom balanço. Elegantes. E plausíveis para a época. Por vezes nas novelas é “olá”, “tudo bem”, corta. Acho que foi bom para o que a situação exigia, a nível de época, e uma certa simplicidade para o público. E isto foi escrito durante muito tempo e com muito cuidado.

Quando decidiu transformar o livro em série?
2015.

No ano a seguir à publicação, portanto. Mas quando escreveu o livro já estava a pensar numa série de televisão? Como surgiu?
Surgiu a falar com a Filipa Reis que é a produtora e ir à RTP. O Virgílio Castelo conhecia o livro, eu tinha-lhe dado o livro. E ele achou aquilo boa ideia. Fomos à consulta, ganhámos a consulta, e depois fomos ao ICA e conseguimos quase 400 mil euros de ICA. Não conseguimos o financiamento todo, mas conseguimos uma parte. Por vezes não é a quantidade de dinheiro que gastas em décors, é tornares credível o que queres. E uma coisa importante, que depende da realização, que é a intensidade que consegues dar às coisas. Não adianta eu escrever Shakespeare, se um realizador, um ator, um director de fotografia, não perceber como vai dar a volta àquilo. Como vai tornar aquilo mais intenso. No “The Handmaid’s Tale” tens aqueles planos enormes na cara dela, está sempre a olhar para o céu. Uma coisa meio à espera de Deus. E são longuíssimos. Há episódios com quinze cenas. Também há cenas curtas, como os flashbacks delas, mas há cenas no presente, a casa, a conversa, a escuridão, tem de ser uma coisa artística bem pensada. O elenco é bestial e a simplicidade com que fazem aquilo, eles não precisam de ir muito longe, precisam é de fazer o mundo. E os diálogos, repara, não são propriamente eruditos, aquilo são quase tudo silêncios. A ideia base é muito boa: a ideia de ter um mundo em que as mulheres são quase todas estéreis, existem três ou quatro que são as parideiras, é genial. É genial e acho que não está longe da realidade. Hoje em dia a infertilidade feminina é uma coisa muito presente. A “Madre Paula” acho que tem essa pertinência. Acho que tem totalmente essa pertinência, é uma história portuguesa, contada por portugueses para portugueses e é uma história que tem tanto de bonito como de aterrador.

O ensino básico de História não fala muito das pessoas, do quotidiano.
Talvez, não tinha pensado nisso. Não se fala em comportamentos, de facto. É uma coisa de ele estava para ali e pronto. O Mosteiro de Odivelas era uma confusão. Espero que a igreja não reaja mal a isto.

Além do Mosteiro de Odivelas há também o universo da corte.
Temos dois polos, o polo do mosteiro e o polo da corte, onde pusemos um plot político, também para dar um contexto social de época. Porque o livro é mais na perspetiva dela, na primeira pessoa, e na perspetiva dela não tens o lado social. O plot político vai existir em todos os episódios, vai variando, não é sempre o mesmo. Não quisemos manter um sempre igual.

O que é que a fez entrar tão a fundo no universo da Paula de Odivelas?
Ela ser uma mulher presa, uma prisioneira no fundo, uma freira contra vontade, que vai parar a um sítio onde nem sequer é bem-recebida. Ela faz parte do núcleo das freiras pobres e há freiras ricas. E depois o que leva um rei que pode ter todas as mulheres que quiser e gostar de uma freira num mosteiro, aliás várias. E quando comecei a investigar descobri uma personalidade na Paula que desconhecia, ela tinha muito mau feitio. Era muito nariz no ar. E provavelmente foi o que o rei gostou nela, mesmo que não estivesse à espera. Claro que há aqui liberdades poéticas, o rei D. João V era muito gordo, a Paula acho que era medonha — para nós hoje, para a época acho que era lindíssima, com o seu bucinho. A historiadora disse que ele não ia gostar de uma mulher feia. Acredito nela. Ela deveria ser castiça, popular, um feitio condizente com o seu extrato social. E achei isso engraçado, o que é que leva um rei a aturar uma mulher durante treze anos com mau feitio. É isso.

Achas que ela poderia exercer algum poder sobre ele?
D. João V não era um homem pobrezinho, era um rei do mundo. Como é que uma mulher pobre, inculta, exerce poder?

No primeiro episódio há um ato de bondade do rei.
Ele não era má pessoa, não era mau. Não foi um rei injusto.

E foi isso que quis mostrar? É uma cena incaracterística, não é hábito surgirem associadas aos reis.
Claro. Acho que ele era um político à séria. Vemos isso na primeira cena, é um rei que joga em várias frentes políticas. Mais para a frente, em relação ao irmão, vamos saber o que ele fez. Ele sabe que está no meio de uma festa, com toda a corte, a nobreza, vai ter um gesto bom. Além disso é um homem bom. Ele é um homem que vai deixar à Paula uma pensão até ela morrer. A ela, ao pai e irmã. Mesmo depois de já não estar com ela. Naquela altura ele não precisa mesmo de fazer isso. E faz.

Fiquei com a impressão que a Paula é muito dona de si. A Paula que estudou era assim?
Sim, tinha mau feitio, era isso. Há uma coisa que se conta, ele ofereceu-lhe um relógio, ele estava sempre a chegar atrasado. E quando ele chegou, ela atirou o relógio, ele partiu, e diz: “relógio que tanto mente parte-se assim”. Ela era muito furiosa, uma grande louca. Não era fácil. E provavelmente é por isso que ele gostou dela. E vai contrariar os estereótipos da altura. Não era do tipo submissa.

Quando ela vai à festa, é com a intenção de conhecer o rei?
Não, ela vai para sair do mosteiro. Isto era verdade, as monjas saíam de Odivelas e iam para as festas com os nobres. Eu não posso dizer que a Paula fez isso, até porque não há registos de como ela conheceu o rei. Não se sabe o momento. Suponho que tenha sido no mosteiro, mas depois também não tinha grande narração.

Ele ia lá visitar outras.
Sim, a Madalena Máxima. Tem um filho dele, quando conhece a Paula. Tudo isso é verdade.

Existem diferenças entre as mulheres ricas e pobres que estão no mosteiro. Essa distinção é marcada muito cedo, logo na primeira cena em que a Paula está a andar pelo mosteiro.
A ideia era mesmo mostrar que há um microuniverso naquele mosteiro. Havia freiras que não usavam o hábito, havia freiras que passavam o tempo todo em festas. Isso está nas crónicas. Aquilo era uma quinta. E havia nobres que tinham lá casa. E havia freiras que eram filhas segundas nobres, que não casavam, os pais não queriam dar dotes e iam para lá. Era uma espécie de hotel porreiro para aquelas mulheres.

Mas a Paula é muito rápida a dar a volta à situação dela.
Tinha que apresentar o conflito no primeiro episódio. Tinha de ser um salto lógico, provavelmente não foi assim na realidade. Paula entra no mosteiro, Paula é maltratada, Paula tem um homem que a quer, Paula aproveita-se. Portanto, aí tivemos de fazer um salto lógico… pronto, teve de ser, para que se percebessem os conflitos principais logo no primeiro episódio. Ela torna-se amante do Vimioso porque quer esfregar isso na cara das outras. E quer de facto ter regalias, e vai tê-las, vai ser a mulher mais importante de Portugal. Ela tem o que quer. Ela é a Cristina Ferreira da altura, mas a dormir com homens. A Cristina Ferreira não precisou de dormir com homens. Ela era muito ambiciosa, mas à escala da altura, a ambição dela era um bocadinho triste, se pensarmos. A mulher vivia dentro de um mosteiro. É um contrassenso. Estes valores, hoje em dia, são muito esquisitos. Pensar que uma mulher presa tem uma grande ambição e torna-se na mulher mais importante do país. Só porque está num mosteiro em Odivelas. E nunca sai. Ela na série só sai duas vezes. E, no entanto, manda naquilo tudo.