A cidade de Hamburgo vai receber esta sexta-feira a cimeira do G20, encontro que acontece num momento decisivo para a estabilidade geopolítica mundial. Com a tensão na Coreia do Norte a escalar, com a Rússia de Vladimir Putin apostada em assumir-se como o player determinante neste novo xadrez global, com o Brexit a dividir a União Europeia, será Donald Trump a roubar o palco da reunião entre as 20 maiores economias do mundo.

Logo à partida, o Presidente norte-americano tentará sensibilizar os restantes países para a ameaça crescente que o regime de Pyongyang representa. Na terça-feira, a Coreia do Norte lançou pela primeira vez com sucesso um míssil balístico intercontinental, provocando a condenação imediata da comunidade internacional.

Donald Trump vai dando sinais de impaciência. Em resposta ao teste militar da Coreia do Norte, o Presidente norte-americano avisou Kim Jong-un de que Washington está a considerar respostas “bem severas” para punir Pyongyang. “É uma vergonha que eles estejam a comportar-se nesta maneira. Estão a comportar-se de uma maneira muito, muito perigosa, e alguma coisa tem que ser feita em relação a isso”, afirmou o chefe de Estado norte-americano.

De resto, os Estados Unidos e a Coreia do Sul realizaram na quarta-feira ensaios conjuntos com mísseis balísticos em direção ao Mar do Japão, dando sinais claros de que um eventual cenário de guerra está, pelo menos, a ser considerado. Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês, que tem assento no G20, também já qualificou a ação da Coreia do Norte de “inaceitável”, acrescentando que este novo teste “comprova claramente que a ameaça norte-coreana se está a agravar”.

Mesmo a China, histórico aliado da Coreia do Norte, parece cada vez mais distante de Kim Jong-un e vai pedindo contenção a todas as partes envolvidas. Ainda que ninguém ambicione verdadeiramente um conflito em larga escala — é impossível avaliar as consequências de uma guerra dessa natureza — a verdade é que a situação parece perto de atingir um ponto sem retorno.

E aqui entra outro jogador importante: Vladimir Putin, com quem Donald Trump se vai encontrar pela primeira vez desde que tomou posse como Chefe de Estado norte-americano. O Presidente russo tem sido um forte opositor de qualquer ação musculada contra a Coreia do Norte e está a tentar encontrar uma solução conjunta com a China para travar o conflito. Mas até Putin já veio condenar o mais recente exercício militar de Pyongyang.

O encontro bilateral entre Trump e Putin vai ser um dos momentos a acompanhar nesta cimeira do G20. Ainda que a equipa do Presidente dos Estados Unidos tenha afirmado publicamente que estas conversações servem para fortalecer os laços entre os dois países, o norte-americano aproveitou a visita à Polónia, a poucas horas de rumar a Hamburgo, para condenar o “comportamento desestabilizador” de Moscovo.

A somar a isto tudo, os dois presidentes vão ainda discutir as situações na Síria e na Ucrânia, onde as duas potências têm interesses antagónicos. Neste cenário de aparente instabilidade, não é garantido que Trump não confronte Putin com a alegada interferência da Rússia nas eleições norte-americanas — isto, depois de o Presidente dos Estados Unidos ter assumido publicamente esta quinta-feira a hipótese de Moscovo ter, de facto, interferido no sufrágio.

Para aumentar a pressão, o Presidente russo veio criticar o protecionismo comercial e as sanções económicas ocidentais contra a Rússia, que considera uma forma de protecionismo oculto. São vários fatores imponderáveis numa equação de elevado grau de complexidade.

União Europeia: todos contra Trump

Na véspera do encontro do G20 há outro dado adquirido: o reformado eixo franco-alemão, com Emmanuel Macron e Angela Merkel ao leme, entrou definitivamente em rota de colisão com Donald Trump. A cimeira, que se prolonga até sábado, pode ser determinante para as relações entre a União Europeia e os Estados Unidos — com temas como as alterações climáticas, o comércio livre global e as formas de gestão da crise humanitária global em jogo, a tensão entre os dois blocos ameaça atingir níveis preocupantes.

Como anfitriã da reunião que junta as 19 maiores economias do mundo — a União Europeia ocupa como um todo o 20.º lugar –, Merkel prepara-se para defender a todo custo o que resta do Acordo de Paris. E, para isso, é fundamental garantir que a China e a Índia, dois dos três maiores emissores de gases com efeito de estufa do mundo, não rompam a corda como fizeram os Estados Unidos.

Além disso, há outro dado a ter em conta: com Washington cada vez mais distante e com uma China a emergir na influência mundial, a cimeira do G20 acontece dias depois de a União Europeia ter fechado com o Japão o seu maior acordo comercial, um passo que pode ser entendido como resposta à política protecionista de Donald Trump. O jogo de equilíbrios entre as várias potências mundiais parece estar a mudar.

Dos Estados Unidos vão chegando notícias pouco animadoras: Donald Trump pode estar a preparar para lançar uma verdadeira guerra comercial contra a China e vários países da União Europeia, criando tarifas pesadas sobre as importações de vários produtos.

De resto, Angela Merkel já reconheceu publicamente que o mundo mudou. “O tempo em que podíamos depender completamente dos outros de certa forma acabou. Apercebi-me disto nos últimos dias. Nós, europeus, temos verdadeiramente de tomar o nosso destino em mãos. Temos de ter noção de que temos de lutar pelo nosso futuro sozinhos, pelo nosso destino enquanto europeus”, afirmou recentemente a chanceler alemã. Resta saber para onde caminha.

May procura conforto no pós-Brexit

Fragilizada internamente depois de ter perdido a maioria absoluta numas eleições que a própria forçou, com dificuldades para gerir o complexo processo de saída do Reino Unido da União Europeia, Theresa May enfrenta esta cimeira do G20 com mais dúvidas do que certezas no horizonte.

Ainda assim, a primeira-ministra britânica vai tentar reforçar a posição do Reino Unido num cenário pós-Brexit, reforçando laços comerciais e políticos com outras potências mundiais, como a China, por exemplo. Esse será um dos pontos da agenda política de Theresa May.

Paralelamente, e apesar de fragilizada politicamente, May vai tentar convencer Donald Trump a recuar na decisão de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, ainda que ninguém acredite verdadeiramente numa eventual cedência do Presidente norte-americano nessa matéria.

À margem da discussão política, as autoridades alemãs preparam a cidade de Hamburgo para acolher esta cimeira do G20. As reuniões entre potências europeias costumam atrair manifestações anticapitalismo, invariavelmente marcadas por cenas de violência. Como medida de prevenção, o Governo alemão enviou 20 mil polícias para as ruas de Hamburgo e criou uma zona de interdição de protestos com mais de 38 km2.