“Homem-Aranha: Regresso a Casa”

Este é o segundo “reboot” do super-herói criado por Steve Ditko e Stan Lee desde a sua chegada ao cinema, em 2002, pela mão de Sam Raimi, e é também o filme do género mais potável destes últimos tempos. A história apanha Peter Parker (Tom Holland, bem metido na personagem, sendo mais velho do que ela) acabado de participar numa aventura dos Vingadores (“Capitão América: Guerra Civil”) e a fazer tirocínio para passar a pertencer ao grupo (é a forma de o meter no Universo Marvel), sob a supervisão do Homem de Ferro (Robert Downey, Jr.). A piada aqui é que Parker se comporta, enquanto Homem-Aranha, como o adolescente entusiasmado, algo indisciplinado e ansioso por dar nas vistas aos seus pares e ao mundo, que é na realidade, ao mesmo tempo que experimenta todos os problemas, dúvidas e percalços típicos dos miúdos em idade liceal.

Isto torna “Homem-Aranha: Regresso a Casa”, realizado por Jon Watts e quase todo passado em Queens, o bairro natal de Spidey, num cruzamento de “high school teen movie” com filme de super-heróis, muito chegado ao espírito do “comic” e mais descontraído e com mais sentido de humor do que as sisudas e auto-importantes fitas do género. O vilão, interpretado por Michael Keaton, é também mais original e está melhor caracterizado do que o costume, saído das classes trabalhadoras e bandeado para o lado do crime devido a um ressentimento social em parte até compreensível, permitindo ainda ao argumento dar uma cambalhota de surpresa como não se via há muito tempo. As sequências espectaculares estão bem doseadas e não ameaçam rebentar-nos com os olhos e os ouvidos, e Marisa Tomei faz uma tia May ainda bastante apetecível. É, nas calmas, a melhor aventura do Homem-Aranha desde a sua aparição nas telas, há 15 anos.

“Adeus Índia”

A sensação que nos provoca este filme da indiana Gurinder Chadha, autora do simpático “Joga como Beckham” (2002), é de estarmos a ver uma daquelas opulentas séries históricas da BBC transpostas para o cinema com a esperança de que ninguém note que, por trás do projeto, há um conceito e uma visão essencialmente televisivos. A fita passa-se em 1947 e segue o último Vice-Rei da Índia, lorde Mountbatten (Hugh Bonneville, de “Downton Abbey”), na sua tarefa de supervisionar a transição do país para a independência. A sua residência é usada pela realizadora como um microcosmos ilustrativo da variedade e das divisões e tensões étnicas, religiosas, culturais e políticas da Índia, que viriam a resultar na criação do Paquistão, ao preço de mais de um milhão de mortos e de uma das maiores migrações populacionais da história da humanidade. “Adeus Índia” quer juntar o didatismo ao entretenimento, a recriação histórica e a elaboração romanesca, mas a tarefa é complexa demais e o tempo disponível é escasso. Cheio de bons e renomados atores (Michael Gambon, Simon Callow, o falecido Om Puri), o filme resulta simplificado, estereotipado e demonstrativo, um sub-“Gandhi”. No papel de “lady” Edwina Mountbatten, a americana Gillian Anderson é tudo menos credível.

“Duas Mulheres, um Encontro”

O francês Martin Provost gosta de histórias de mulheres, reais ou de ficção, contadas em filmes como “Séraphine” (2008), sobre a pintora Séraphine de Senlis, que viveu e trabalhou entre o século XIX e o XX, “Où Va la Nuit”´(2011), que tem como heroína uma mulher que assassina o marido que a maltrata, foge da polícia e faz amizade com uma viúva solitária, ou “Violette” (2013), biografia da escritora feminista Violette Leduc, apadrinhada por Simone de Beauvoir. Em “Duas Mulheres, um Encontro”, Provost regressa às personagens ficcionais, mas o par feminino do título português (a fita chama-se originalmente “Sage Femme”, ou seja, “Parteira”) podia ter saído de uma dessas histórias que acontecem a toda a hora no quotidiano. Catherine Frot e Catherine Deneuve interpretam os papéis principais deste filme sobre duas mulheres diferentes como o açúcar e a pimenta, uma delas altruísta e de vida emocional e pessoal seca, a outra egoísta e de vida aventurosa e promíscua, ligadas pelo amor a um mesmo homem desaparecido, pai de uma e amante de outra, por um curto e agitado passado familiar, feito de recordações comuns, de recriminações e de arrependimentos, e por uma mesma solidão inconfessada. “Duas Mulheres, um Encontro” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.