Não tem título, mas não é por falta de criatividade. No novo espaço pop-up da Adega Mayor, no Chiado, as mesas são telas em branco e a comida é a matéria-prima para criar obras de arte. Há pincéis lado a lado com talheres e tubos de comida a fazer lembrar as aguarelas de uma infância feliz. No restaurante Sem Título, aberto até ao dia 30 de julho, celebram-se os 10 anos da produtora do Alentejo, que faz parte do Grupo Nabeiro, mas também o lançamento da nova imagem dos vinhos da marca.

O novo projeto, no espaço onde antes estava o restaurante Storik, conta com a mestria do chef Nuno Bergonse, que continua a preferir ser tratado apenas pelo nome. É ele o responsável por três menus temáticos, compostos por cinco pratos e que variam de duas em duas semanas, criados de raiz a pensar no vinho (e não o contrário). O primeiro tem a pintura como inspiração máxima e está disponível até sábado, sendo que o segundo, com enfoque na música, entra em vigor na próxima terça-feira, 11 de julho — estão prometidas texturas crocantes, que emitem ruídos quando devoradas, entre outras surpresas. O último será dedicado à fotografia.

Apresentado o conceito, passemos à refeição propriamente dita: não é todos os dias que o sommelier traz a comida à mesa, borrifando cremes de pimento assado e couve roxa e queijo no tampo de vidro da mesa — sim, a conversa da tela em branco era literal. O próximo passo, diz Rita Nabeiro, diretora-geral da Adega Mayor, é pegar no pincel de pelo sintético e pincelar o pão ou, se a inspiração o assistir, a mesa.

Os pratos coloridos têm a assinatura do chef Nuno Bergonse. @ Goncalo Villaverde

À medida que os pratos chegam, sempre acompanhados do respetivo vinho, seja ele um Pinot Noir rosé ou um Viosinho a representar um Alentejo fresco, percebe-se como a pintura é influência constante no menu proposto. As doses gourmet estão impregnadas de cor, tonalidades vivas que variam entre o laranja mostarda do polvo com quinoa, molho fricassé e figos caramelizados e o verde garrido do tártaro de salmão com abacate. As pinceladas, essas, são uma constante. “Quisemos quebrar tabus, como aquela ideia de que à mesa não se brinca”, atira Rita Nabeiro ainda de pincel na mão. “A última pintura”, como Nuno Bergonse lhe chama, é talvez o momento alto da refeição. Em causa está a sobremesa que é preparada sobre a mesa pelo próprio, que sai da cozinha no momento certo para criar um enfeite comestível em tons rosa diante dos clientes.

Se cá em baixo os 40 lugares sentados destinam-se apenas ao menu que varia de duas em duas semanas, no piso de cima está um wine bar onde é servida a copo ou à garrafa toda a gama de vinhos da Adega Mayor (à exceção do espumante) — ao todo, há 14 referências para provar na companhia das tradicionais tábuas de queixos e enchidos e ainda de uma taça de azeitonas. O espaço funciona também como garrafeira.

E porquê falar em galeria de arte? Além dos pratos criativos inspirados na pintura, à entrada está um mural de enormes proporções feito a partir das emblemáticas flores de Campo Maior, terra onde nasceu e onde vive a Adega Mayor. Foi tudo pensado ao pormenor, fora as felizes coincidências que funcionam como a cereja no topo do bolo (ou a rolha no topo da garrafa) — faz 10 anos que a adega projetada por Siza Vieira foi apresentada ao público, data celebrada com a abertura do restaurante, também ele num edifício recuperado pelo mesmo arquiteto. E este é apenas um dos motivos por que o Sem Título não deveria ter fim.

Nome: Sem Título
Morada: Rua do Alecrim, 30 B (Chiado), Lisboa
Contacto: 21 604 0375
Horário: De terça a sábado, das 18h30 às 00h
Preço médio: O menu custa 35 euros por pessoa
Reservas: aceita