No final daquela hora passada com os Fleet Foxes, o nosso maior problema era ir buscar disponibilidade emocional para ouvir outra coisa. Havia que digerir o reencontro com a banda que nos tem dado alguma da melhor música folk americana do século XXI. Os seis músicos entraram no Palco Heineken às 21h40 e a primeira coisa que Robin Pecknold nos pediu foi para aplaudirmos a banda que ali tinha tocado imediatamente antes, os Spoon. Seja feita a sua vontade, que os indie rockers até merecem. Estávamos agora todos prontos para voltar a aplaudir os Fleet Foxes.

O concerto começou logo a testar as músicas do novo Crack-Up, e tanto “I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar” como “Cassius” passaram no teste, embora no início o som dos instrumentos e da voz não estivesse tão nítido quanto gostaríamos. Os seis passaram para “Grown Ocean”, sem paragens. Uma ponte entre 2017 e 2011, até uma das canções mais bonitas de Helplessness Blues, que já tínhamos escutado naquele mesmo palco no único concerto que a banda de Seattle deu por cá.

8 de julho de 2011. Nessa noite, quem estava no canto direito do palco era Josh Tillman, meio apagado se pensarmos no furacão Father John Misty que encarna por estes dias. Neste sábado à noite havia outro baterista. Tirando isso, eram os mesmos Fleet Foxes de sempre, com as harmonias vocais alinhadas na perfeição em “Ragged Wood”, em “Your Protector”, em “He Doesn’t Know Why”, esta quase cantada a cappella, com a ajuda das milhares de vozes de um público que não se esqueceu das letras nestes seis anos de “quase ausência”.

Eram os mesmos Fleet Foxes das camadas instrumentais e da polivalência — Kasey Wescott é teclista mas, por vezes, pega na guitarra, Morgan Henderson tanto toca pandeireta como maracas, tanto se vira para o contrabaixo como para os instrumentos de sopro e até para um pequeno piano.

Robin Pecknold (Fleet Foxes). ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

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E, claro, a voz afinada, angelical, de Robin Pecknold. “Blue Ridge Mountains”, “Mykonos”, nenhuma seria metade do que é se não tivesse a voz de Pecknold. “Como vocês estão?”, perguntou, em português com sotaque do brasileiro. Não podíamos estar melhor, não queríamos estar em mais nenhum lugar do mundo que não ali, todos juntos a cantar o hino “White Winter Hymnal” outra vez, a arranhar a nova “Third of May / Ōdaigahara” — que brutalidade, que banho de som e de mudanças de ritmo –, a gritar a plenos pulmões “Helplessness Blues” e, com isso, a provocar um sorriso na cara dos seis.

Passaram-se seis anos, um hiato, uma saída e um disco novo algo diferente dos dois anteriores. O único concerto que os Fleet Foxes tinham dado em Portugal, naquele mesmo palco secundário do Alive, em 2011, tinha sido pura magia. Foi a confirmação de que o que havia em disco, que já era bom, podia ser ainda melhor quando tocado à nossa frente. Depois aconteceu-lhes tudo e mais alguma coisa e parecia que tinham acabado para sempre. Só pensar que poderíamos nunca mais ter vivido o reencontro… Sabemos que foi um grande concerto quando ficamos sem conserto.

O mestre Gahan e seus súbditos

Mas era preciso arranjar a tal disponibilidade emocional se não queríamos perder os cabeças de cartaz do dia. No fundo, já se sabiamos que tratando-se dos Depeche Mode, não seria difícil entrar na deles. Eles controlam tudo, é uma celebração, são mestres desde o começo. Ao mesmo tempo, nada disto é surpresa num concerto dos Depeche Mode. Quem esteve na última passagem da banda por este mesmo festival e voltou agora para saudar o regresso encontrou mais ou menos o mesmo grupo, mais ou menos o mesmo concerto. Nada disto foi mau mas nada fez história.

Mas atenção, ele há verdades inegáveis: Dave Gahan é um monstro, é o homem que todos queremos ser, é a mulher que todos queremos ser, é tudo ao mesmo tempo porque tem tudo o que há para desejar. Dança para convocar demónios, chama-os para bem perto e depois canta “Wrong”, para dizer que é ele que manda, é ele que tem a palavra final sobre tudo. Conclusão: devíamos todos ter um colete igual ao do senhor Gahan, aquilo deve conferir poderes especiais.

Dave Gahan (Depeche Mode). JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Não lhe chega a devoção que lhe entregam ainda antes de subir ao palco. Passa o concerto todo a exigir mais de nós, a querer tudo o que temos e o que nem sabíamos que podíamos dar. Vejam-no a dançar, vejam-no a abrir os braços, vejam-no a desfilar e a pedir para ser adorado. Adoramos-te Dave.

E depois há Martin Gore, que engana porque está sempre no seu lugar de engenheiro responsável por tudo isto. Ele está ali quieto mas não há nada de tranquilo naquela mente. A música dos Depeche Mode é feita de demasiados detalhes para haver desleixe. Despreocupação aqui é pecado mortal e não é permitido. Nem nos temas novos nem nos clássicos. Mas volta e meia damos sempre de caras com aquele velho sentimento de que já vimos e ouvimos isto, já estivemos nesta situação. O conforto é bom, dá segurança e todas essas coisas, mas não dá o empurrão que é preciso para chegarmos a um outro lado, algo que surpreenda.

E os Depeche Mode até eram tipos para o conseguir. Têm o líder que todo o bando de aspirantes a estrela queriam ter. E têm canções que roçam o imaculado — quando toca “Enjoy the Silence” alguém dúvida que naquele momento aquela é a melhor canção de sempre? Quando se ouve “Never Let Me Down Again”, há quem tenha dúvidas em pedir boleia a ver onde acaba? Mas apostam na conquista que está mais certa.

Se daí vem mal ao mundo? Qual quê. Fazem o show que têm a fazer, sabem o valor que têm no topo de um cartaz e são seguidos por uma legião de fãs que cumpre sempre. Eles cantam, eles tocam mas se quiserem nem precisam. Dave Gahan faz de maestro, a multidão, Respeitosa e em admiração, não deixa cair a canção. É todo um coro gigante que assume a sua tarefa de exército fiel. “Walking in My Shoes”. Uma canção nunca vem a despropósito. E o exemplo maior é “Personal Jesus”: apareceu no encore, como era de prever, mas ainda bem que apareceu. Mais ou menos como todo concerto destes ingleses.

Temos de falar sobre Cage The Elephant

Quem pensava que nada bateria os Fleet Foxes no palco secundário deve ter mudado de ideias depois de passar uma hora com os Cage The Elephant. Palco a abarrotar, milhares de braços no ar, todas as letras — a sério, todas –, na ponta da língua. “Too Late to say Goodbye”? Festão. “Cold, Cold, Cold”? Festão. “Trouble”? Não queremos ser repetitivos, mas…

Matthew Shultz (Cage the Elephant). JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Todo o rock que esta banda norte-americana trouxe a Lisboa foi recebido como se fossem singles, e eles bem que mereceram toda a loucura, porque também a deram de volta. Músicos endiabrados, Matthew Shultz, o vocalista, já sem T-shirt e alguns de nós com vontade de fazer o mesmo. Foi rock sem abébias, foi solos de bateria, foi um riff de guitarra ao ritmo de “olé olé”. Há concerto em que não mudaríamos nada. Aconteceu com Fleet Foxes e aconteceu, sem sombra de dúvidas, com os Cage The Elephant. Saímos daquela tenda com menos 10% de audição — mais culpa dos gritos e das palmas do público que dos instrumentos da banda, mas, caramba, valeu a pena.

E ainda…

Recuemos agora aos Spoon, que são tantas bandas numa só. São irmãos de funk porque vivem do baixo, são gente do rock porque malham nas guitarras como interessa, são das coisas alternativas mas têm canções tão meticulosamente trabalhadas que chegam a todos ouvidos. São capazes de fazer amigos a partir do palco, dizem-nos que estão de volta em novembro, para concertos em Lisboa e no Porto, e todos lhes enviam abraços. E são a banda de Britt Daniel, é ele que dá o corpo, é ele que sofre, é ele que passa as mãos pelo cabelo como fazem os nervosos muito nervosos, é ele que sobe a tudo o que é sítio onde é possível subir. É ele que berra como fazem os profissionais dessa tarefa. Têm canções enormes. E isto quer dizer que são completas, têm uma bagageira cheia sentimentos diferentes e andam todos de mão dada. São canções que dão muito trabalho a construir e quando chegam ao palco não perdem nada. São canções como “Don’t Make me a Target”, que é um monumento à boa loucura que andou pelo palco Heineken.

E tivemos também outro rapaz que daria um outro bom amigo: Benjamin Booker. Tem um olhar que parece roubado a Muhammad Ali. Debruçado sobre o microfone, ele acredita realmente que é o maior. Dá um toque de garagem à tradição rock americana. Isso faz com que seja menos fechada na geografia mas também arrisca torná-la mais banal. Booker segue a cartilha, faz rimas com “New Orleans”, injecta o turbo nos blues e tem aquela guitarra vintage que faz maravilhas. Tem uma voz curta mas curta, que nunca o vai deixar ser virtuoso, e faz bom uso da rouquidão que o abençoou. Ou como diz o outro: cada um faz o melhor com aquilo que tem. E no fundo parece ter tão bom coração que nos leva a todos na cantiga — mesmo que as sacanas das cantigas que tem não nos fiquem na memória.

Homens com classe

Duquesa foi um charme. Foi um senhor das coisas românticas, todo vestido de branco para ficar melhor que bem naquele coreto. Sozinho à guitarra, merecia que lhe tivessem dado pelo menos o dobro daqueles curtos (tão curtos) 20 minutos. Foi melancólico mas irónico, deu um toque de verão e cantou coisas para dançar à chuva (sempre sem companhia), voltou a lembrar que “Norte Litoral” é uma canção perfeita e passou até por temas que escreveu para os Glockenwise, a banda que lidera e à qual dá voz. Não há muitos assim, não há mesmo, e merece muito mais atenção para a próxima, combinado?

Duquesa, esse homem charmoso

E no mesmo sítio ouve outro malvado a fazer magia. Filho da Mãe, Rui Carvalho de nome verdadeiro mas aquele pseudónimo fica-lhe perfeito. Porque só um verdadeiro filho da mãe faz isto desta maneira, um virtuoso da guitarra, viola acústica, seis cordas e aqueles dedos a correr o braço todo como se nada fosse, a manipular o som com pedais e outros truques. A música que cria mostra técnica acima da média mas não é agressiva para nenhum ouvido menos habituado a toda esta dose de talento. O som que cria sem nenhum artifício já chega para assombrar. Quando o eleva a algo mais experimental e desafiante, não quem saia vivo, não da mesma maneira. Ah, e os tais 20 minutos do coreto foram tão curtos… mais uma vez.

A pornopopeia de Peaches

“Bitch rub, bitch rub”. Mais um chapéu que na verdade é uma vagina. “Pussy”, “clit” e por aí fora. Isto é Peaches e sintam-se todos à vontade de ir com ela, até porque à primeira canção este verso já está solto. Convenhamos que a ideia principal aqui não é a música. O investimento vai para o show off. Mas foi por isso que viemos todos aqui, para perceber como esta danceteria pode ser pornográfica. Malta, são três da manhã da última noite do festival, isto está a acontecer no tempo e no lugar certo. Peaches chega a parecer um vanila ice com melhor gosto mas muito muito menos educação. E estamos OK com isso.

Peaches tem um fato de mulher nua de muito mau gosto e nós agradecemos. “Lisboa, are you nasty?” Então não somos, amiga Peaches? Então não somos? Ela trepa pela estrutura do palco e é bem possível que daqui a nada uns quantos nastys a sigam por ali acima. “You got to see it to believe it.” Estamos a ver e acreditamos. E sim, aquilo foi o soutien dela que voou. Oh well, nada de mais. Haverá preservativos gigantes, simulações de masturbação e outros divertimentos entre electroclash, primos próximos do hip hop e outros rebuçados do género. Para fechar um festival é doce coisa que chegue.

Contas finais

Ao longo de três dias passaram 165 mil pessoas pelo Passeio Marítimo de Algés. Além de Fleet Foxes e Cage the Elephant, na memória levamos Foo Fighters, The xx, Savages, The Kills, The Weeknd e Ryan Adam. O artista mais caro de todo o festival? De acordo com o Álvaro Covões, diretor do evento, foi o ministro das Finanças, Mário Centeno. O NOS Alive regressa nos dias 12, 13 e 14 de julho.