Nas primeiras horas do dia 21 de novembro de 1974, três bombas foram colocadas no centro da cidade de Birmingham. Duas foram deixadas em pubs, no Mulberry Bush e na Tavern in the Town; uma foi deixada na rua, em frente a uma sucursal do Barclays. Se o código normal para os ataques do IRA contra instalações não-militares tivesse sido seguido – e que deixava um aviso de pelo menos meia hora às autoridades –, e como os engenhos foram colocados depois das 19h30 e antes das 19h47, teria havido mais do que tempo para retirar as pessoas dos locais. As coisas não foram assim e o dia ficou marcado como um dos mais negros de sempre em Inglaterra: o ataque fez um total de 21 vítimas.

Sempre ficaram dúvidas e pontas soltas na restituição do que tinha acontecido nesse dia. Alegadamente, a história terá sido assim: uma das pessoas que colocou as duas bombas nos bares, em malas, deslocou-se à cabine telefónica mais próxima para deixar o aviso, mas como ela estava avariada teve de procurar uma outra. Apenas às 20h11 terá surgido a primeira chamada, de alguém com sotaque irlandês, para o Birmingham Post. Seguiu-se um telefonema idêntico, com o aviso sobre os engenhos, para o Birmingham Evening Mail. Seis minutos depois rebentou a primeira bomba, no Mulberry Bush. Dez pessoas morreram, dezenas ficaram feridas. Dez minutos depois, a polícia começou a evacuar a Tavern in the Town quando o segundo engenho rebentou, fazendo ainda assim mais nove vítimas, que subiram para 11 nos dias seguintes. Os dois sacos de plástico onde estavam a terceira bomba foram neutralizados a tempo.

Poucas horas depois, seis irlandeses foram presos por alegada ligação aos ataques, sendo condenados no ano seguinte a prisão perpétua mesmo depois de se declararem inocentes e de terem acusado a polícia de violência física e psicológica para arrancar a confissão. 16 anos depois, os recursos surtiram efeito e foram libertados. Em 2001, receberam mesmo compensações pelos danos causados acima de um milhão de euros. Agora, Michael Christopher Hayes, de 69 anos, assumiu que esteve envolvido no ataque.

As minhas desculpas e os meus sentimentos pela terrível perda que tiveram. E peço desculpa não só por mim, mas por todos os ativistas republicanos, que não tinham a mínima intenção de magoar alguém”, confessou numa entrevista à BBC News, perante o desprezo de alguns familiares das vítimas também ouvidos pela estação, que lhe chamam “cobarde”, “pessoa sem escrúpulos” e querem agora levá-lo à justiça.

A viver no sul de Dublin, Hayes recusou-se a divulgar a identidade da pessoa ou das pessoas que colocaram as bombas nos locais, expressando-se “no ponto de vista de alguém que participou no ato”. Em paralelo, confirmou que existiu um atraso de oito minutos em relação ao momento em que deveriam ter sido feitas as chamadas de aviso que acabaram por ser fatais, “porque não foi intenção matar quem quer que fosse”. “Após saber das mortes que as primeiras duas bombas causaram, desativei o terceiro engenho na Birmingham’s Hagley Road”, acrescentou.

Colocou ou não os engenhos? “Não comento. Não comento. Fui acusado de muitas coisas sem uma única prova forense, sem um único testemunho, sem uma única pessoa a acusar-me. As bombas tinham nitroglicerina e foram colocadas por duas pessoas. Se eu fui uma delas? Isso não digo”, escudou-se Michael Hayes

O trabalho da BBC recorda também uma reportagem feita em 1990 que apontava Michael Hayes como um dos homens que tinha colocado as bombas nos pubs. Admitindo que foi detido e questionado pela West Midlands Police logo em 1974, foi sempre fugindo a uma pergunta: colocou ou não os engenhos? “Não comento. Não comento. Fui acusado de muitas coisas sem uma única prova forense, sem um único testemunho, sem uma única pessoa a acusar-me. As bombas tinham nitroglicerina e foram colocadas por duas pessoas. Se eu fui uma delas? Isso não digo”, escudou-se.

“Ficámos horrorizados quando soubemos das mortes. Nunca foi intenção do IRA matar pessoas inocentes. Se tenho a consciência tranquila? Sim. Consigo dormir à noite porque não sou um assassino”, destacou. “Queria que eu fosse à polícia e dissesse o nome dos homens, tornando-me um informador? Mais depressa morria em frente a si do que me tornava num informador”, concluiu perante a pergunta sobre a inação face à condenação de seis pessoas que não tinham estado ligadas ao ataque.