Para Inês de Oliveira, aquele momento em que se abdica de um salário certo ao fim do mês para apostar num projeto próprio chegou cedo. Aos 28 anos e depois de ter passado pelos ateliers de várias marcas e designers portugueses, quis dar largas a um conceito muito pessoal de moda feminina. Nasceu a Imauve, no final de 2016, cujo nome — uma junção da sua inicial com a cor e a flor malva — nem sempre é pronunciado da maneira mais correta (“imôve”). “Curiosamente, os ingleses e os franceses dizem logo bem à primeira. Os portugueses, nem tanto”, conta a criadora.

A primavera de 2017 foi a grande estreia. A leveza das peças percebia-se à distância, mesmo vendo só através das fotografias, e a paleta, escolhida a dedo, elevou o guarda-roupa a um estado zen. Na primeira coleção, Inês concentrou-se nos básicos: camisas de corte irrepreensível, tops de alças, vestidos fluidos e escorreitos e blazers com os detalhes certos. Um investimento pessoal que foi muito além da carta de demissão. “Não nasci com um saco de dinheiro debaixo da cama, nem com um patrocinador que me ‘bancasse'”, confessa. Alugou a casa onde morava, no Bairro Alto, mudou-se para longe do centro e começou a fazer trabalhos de design gráfico só para garantir o arranque da Imauve. Afinal, ter uma marca própria era um sonho que já vinha dos tempos de aluna, na Faculdade de Arquitetura de Lisboa.

Um dos vestidos da primeira coleção. © Rui P. R. de Oliveira/Divulgação

“Acho que os designers não são ditadores”, defende. Inês prova que o trabalho criativo tem pernas para andar sem nunca deixar de ter os pés bem assentes na terra. Nunca se imaginou a desenhar roupa pouco vestível e sempre idealizou peças minimais, com sérias pretensões à intemporalidade. “Quero estar atenta ao que quer quem compra as minhas peças, tal como às necessidades reais do meu próprio guarda-roupa. Gosto, por exemplo, de olhar para as pessoas no metro e ver as combinações de cores que fazem”, completa. A principal fonte de inspiração está longe de ser as passerelles. As criações da Imauve não são alheias a tendências, mas preferem privilegiar o minimalismo e qualidade dos materiais.

Só a seda vem de fora. De Inglaterra, mais precisamente. Tudo o resto é português: o algodão, o linho, o cupro, uma fibra feita a partir de desperdícios de algodão, e a viscose. Na hora de escolher as matérias-primas, todos os cuidados são poucos. Desde pequena que Inês se depara com a dificuldade em encontrar bons tecidos para vestir. Um problema de pele impede-a de usar alguns materiais, critério que fez questão de trazer para a Imauve. A produção é feita em Portugal e está distribuída por quatro pequenos núcleos de confeção. Quem costura estas peças sabe o que faz e nenhum pormenor é deixado ao acaso. “As peças são bem feitas, por quem põe carinho naquilo que faz, e quem as compras está a levar isso também”, afirma.

Inês de Oliveira, fundadora e designer da Imauve. © Carmo

A segunda coleção já está aí e, embora tenha o mesmo número de peças, o caminho da marca parece estar a ser feito no sentido ascendente. A Imauve vai continuar à venda na Feeting Room, em Lisboa e no Porto, mas em Setembro, a coleção Lotus chega à Loja das Meias, conquista que, até há uns meses, parecia impossível. A paleta moldou-se ligeiramente à estação fria, ao mesmo tempo que surgem peças ornamentadas com bordados e atilhos. A leveza e o estilo effortless continuam lá, bem ao estilo dos ícones franceses que inspiraram Inês desde o primeiro dia. Caroline de Maigret e Clémence Poésy são das tais que “fazem as peças e não o contrário”.

Lotus, a coleção outono-inverno da Imauve, ainda no papel. © Divulgação

A loja online tem estado a vender para toda a Europa e Inês já pensa naquele que será o primeiro desfile da marca. De repente, a cabeça já está no verão de 2018. Ainda falta, mas a coleção já está pronta e tem o dobro do tamanho.

Nome: Imauve
Data: 2017
Pontos de venda: The Feeting Room (Lisboa e Porto)
Preços: 140€ a 455€

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