Os residentes e sobreviventes do incêndio da Torre Grenfell, em Londres, reuniram esta quarta-feira, em assembleia pública, com os representantes do governo e das equipas de investigação criminal, no mesmo dia em que se assinala um mês desde a tragédia que vitimou, pelo menos, 80 pessoas.

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A reunião, que teve lugar na Igreja de St. Clements, em Kensington, foi marcada pelos discursos enfurecidos e devastados dos residentes, em resposta à aparente apatia do governo e das autoridades.

Poucos minutos passavam desde o início da reunião quando os presentes começaram a repreender a líder do conselho, Elizabeth Campbell, e a acusá-la de se esconder dos sobreviventes. Também o líder da equipa de investigação, Matt Bonner, foi alvo de críticas por ainda não ter avançado com novas informações sobre a investigação criminal.

Elizabeth Campbell perdeu os primeiros minutos a abordar “questões menores”, como disse, que passam nomeadamente pela “limpeza das ruas e das janelas”.

Porque é que esta reunião decorre, afinal? Estamos aqui para falar de andaimes e de janelas que têm de ser limpas e ninguém fala das pessoas naquele edifício que morreram?”, questionou uma sobrevivente, em lágrimas.

Campbell, que admitiu na terça-feira nunca ter entrado na torre residencial, diz que “é muito difícil” responder a “este nível de desespero e luto”, mas prometeu encontrar-se com a mulher que a interrompeu.

A resposta surgiu de imediato, com outra voz furiosa: “Você tem que conhecer todos os sobreviventes, todos nós! Não é só ela, há mais, somos muitos e você não mexeu um dedo para nos conhecer. Se os burlões nos encontram com facilidade, como é que você ainda não nos encontrou?”

A reunião prosseguiu com a intervenção de Bonner, responsável pela investigação à tragédia, que apesar de não poder partilhar detalhes específicos sobre o caso adiantou que pelo menos 60 empresas foram identificadas como estando envolvidas nas obras feitas na torre, em 2016. “Não vos posso falar mais do caso, porque pode colocar a investigação em risco”, disse enquanto que os residentes gritavam: “Prendam alguém”.

O objetivo da minha investigação é ser bem feita, e não ser feita à pressa. Infelizmente, uma investigação desta escala não vai ser breve, mas vai ser profunda e vamos chegar às respostas sobre o que quer que foi que aconteceu e vamos apontar dedos – os dedos que tiverem que ser apontados. Vamos fazer tudo isso, mas não o vamos fazer amanhã“, respondeu Bonner.

Um residente ainda tentou manter a calma, numa altura em que se ouviam gritos de “terrorismo de estado” e “homicídio em massa”: “Eles querem-nos pintar como selvagens, por isso a nossa prioridade é manter a calma”.

O painel da assembleia tinha vários elementos da Equipa de Resposta de Grenfell, criada depois da tragédia, entre eles Hilary Patel e a chefe da polícia metropolitana, Robyn Williams.

Deborah Turbitt, diretora da Direção de Saúde Pública inglesa, tranquilizou os residentes preocupados com a qualidade do ar e da água, mas admitiu que o incêndio libertou amianto e que a qualidade do ar ainda está a ser monitorizada por um órgão independente.

A reunião aconteceu no dia em que se assinalou um mês desde que um incêndio na Torre Grenfell vitimou, pelo menos, 80 pessoas. Mas os residentes negam este número e dizem: “Sabemos que morreram 300 pessoas”. A polícia garante que mais de 250 pessoas sobreviveram. 80 pessoas ainda estão dadas como desaparecidas, presumivelmente mortas, admitem as autoridades.

Até à data, foram concluídas 55 autópsias, com apenas 32 vítimas identificadas.