Pelo menos 547 crianças terão sido alvo de violência corporal e 67 abusadas sexualmente entre os anos de 1945 e 1992, no coro da Igreja de Ratisbona, o mais famoso da Alemanha e que foi liderado durante trinta anos pelo irmão do Papa Bento XVI, de acordo com o relatório final da investigação ao caso, liderada pelo advogado alemão Ulrich Weber.

O caso, que foi revelado em 2010 pelo compositor alemão Franz Wittenbrick, teve esta terça-feira desenvolvimentos, quando, numa conferência de imprensa, Ulrich Weber apresentou as conclusões da investigação ao caso: 547 crianças vítimas de violência, mais do dobro das 231 vítimas conhecidas num relatório intermédio datado de janeiro do ano passado.

Em fevereiro de 2015, as autoridades católicas locais só reconheciam 72 crianças como vítimas de abuso, segundo a agência noticiosa francesa AFP.

Para além das agressões físicas, o relatório identificou ainda outras 67 como tendo sido abusadas sexualmente ao longo destas cinco décadas.

Segundo o advogado, as crianças que faziam parte deste coro descreveram a sua vida nele como “uma prisão, um inferno e um campo de concentração”, como a pior “época das suas vidas” e um período marcado pela “violência e o medo”.

Irmão de Bento VI sabia da violência mas não dos abusos sexuais

Quando o caso ficou conhecido, de acordo com a imprensa espanhola e italiana, Gerhard-Ludwig Müller, então bispo de Ratisbona, minimizou o caso alegando que apenas quatro ou cinco crianças tinham sido maltratadas.

No entanto, a tentativa de minimizar o caso não resultou. Müller, que foi convocado por Bento XVI para liderar a Congregação da Doutrina da Fé no Vaticano em 2012, foi destituído pelo Papa Francisco no início deste mês.

O advogado responsável pela investigação disse que Müller teve um papel determinante para evitar que o caso fosse conhecido a fundo e que praticamente todas as pessoas que tiveram responsabilidades neste coro sabiam dos casos de violência. “Todos eles mostraram pouco interesse no caso. Para eles, o mais importante era proteger a instituição. Ignoraram as vítimas e protegeram os responsáveis”, disse o advogado na conferência de imprensa.

A investigação identificou quase 50 pessoas responsáveis por estes abusos – de diretores a empregados –, mas muitos destes crimes já terão prescrito.

Neste caso, há ainda outro homem apontado como responsável. Durante trinta destes quase cinquenta anos, o coro foi dirigido por Georg Raztinger, irmão do Papa Bento XVI. Georg Raztinger admitiu ter dado bofetadas em várias ocasiões a crianças que não eram disciplinadas, mas garantiu não ter conhecimento de abusos sexuais.

Numa entrevista em 2010, o irmão do Papa Bento XVI disse que nunca ouviu falar de abusos sexuais, nem sequer de violência exagerada. “Se tivesse tido conhecimento de violência exagerada que teve lugar, teria dito alguma coisa. Peço perdão às vítimas”, disse.

O advogado, no entanto, não poupou Georg Ratzinger. Admitindo que este não teve conhecimento dos abusos sexuais, afirmou que este sabia das agressões e preferiu não fazer nada.