O segundo dia do EDP Cool Jazz tem um nome de peso. The Pretenders voltam finalmente a Portugal, com primeira parte de Rita Redshoes, para apresentar um novo álbum, Alone, editado em finais do ano passado. Na conversa com Chrissie Hynde, a cantora, guitarrista e compositora deixa bem claro que Alone não é um regresso dos Pretenders, eles nunca deixaram de existir, e a ideia de uma carreira a solo não passou de um stunt publicitário.

Assim seja. Em palco, Chrissie Hynde continua em forma, o alinhamento é uma boa junção entre os clássicos da banda e canções mais recentes. Em Glastonbury, há três semanas, não faltaram “I’ll Stand By You” ou “Don’t Get Me Wrong”. Está tudo seguro no departamento dos singles que não saem da cabeça do público rock FM — e quem apenas vai por isso não se vai arrepender. A banda que toca com Hynde é nova e traz o melhor de si em palco. Vai acontecer um bom concerto rock no Parque dos Poetas a 19 de Julho.

[“Holy Commotion”, do último “Alone”:]

Alone é o vosso primeiro álbum em oito anos…
Não, editámos dois álbuns entretanto.

Mas esses [Fidelity! e Stockholm] não são álbuns dos Pretenders, certo?
É a mesma coisa, é tudo a mesma coisa, só tinham um nome diferente. Não me pergunte porquê, nem eu sei a razão.

Mas o que andam a tocar agora?
Vamos tocar algumas coisas antigas, vai ser um misto… não tocamos em Portugal há muito tempo. Mal posso esperar, gostava de passar aí algum tempo. Ainda não pensei bem nisso, creio que as pessoas esperam as canções que conhecem, talvez algumas do álbum novo, pelo menos aquelas que ouvem na rádio. Vou tentar saber o que as pessoas querem. Você vive aí, o que deveria tocar?

Acho que está no caminho certo, tocar as canções antigas mas focar-se mais no novo álbum. Sabe melhor do que eu.
Esse é o plano. Eu não quero aborrecer as pessoas com “este é o meu novo álbum”. Eu sei, passei grande parte da minha vida junto do público, sei o que o público quer. Não é uma grande ciência, eu vou dar o que eles querem.

E sabe o que eles querem?
[Risos] Não faço ideia. Claro que sei, sei o que é estar no outro lado, queres dançar, queres divertir-te, queres ser surpreendido, queres ver um ótimo guitarrista em palco, que não vou ser eu. Só te queres divertir e sentir que estás a ter direito ao que pagaste. Sejam as canções que ouviste enquanto crescias, que ouvias na rádio…

E quem vai ser esse guitarrista?
O James Wallbourne, que é o meu guitarrista. Fiz um festival para motoqueiros, em França, há umas semanas, um festival da Harley-Davidson. Alguém no festival veio falar connosco e disse: “A vossa canção ‘Don’t Get Me Wrong’, beijei a minha primeira namorada quando estávamos a ouvir essa canção”. É isso que eu preciso. Algo assim, para ter uma ideia do que ando a fazer.

É difícil encontrar um equilíbrio entre as canções novas e os singles antigos?
Claro que não, isto não é como trabalhar num escritório. Estou só a divertir-me. Vais ver a banda, temos de tirar algum pó das canções antigas, fazê-las funcionar. Há alguma arte e trabalho aí, de mudar a forma como as canções começam e acabam. Mas é o que fazemos e o que gostamos de fazer. E é divertido. Não é como trabalhar numa fábrica.

https://www.youtube.com/watch?v=GFCxKxzsUek

Considera a sua carreira a solo como parte dos Pretenders. Este álbum chama-se Alone, é porque é o único membro original da banda neste álbum?
Não, é só uma referência à canção, que é sobre estar sozinha muito tempo.

Mas tem-se sentido muito sozinha?
Nunca tive uma carreira a solo. Esse álbum editado em nome próprio, não faço ideia quem teve essa ideia. Eu não tenho uma carreira a solo, não trabalho sozinha, trabalho sempre com outras pessoas, numa banda. Sou alguém que só consegue trabalhar numa banda.

É curioso, porque lembro-me de ser promovido como um álbum a solo.
Isso foi uma ideia de publicitários. Usei o meu nome porque estava farta de defender que os Pretenders são uma banda, ao longo dos anos, e ter de falar sobre isso. Mas nunca ninguém me viu sozinha em palco, porque não sou uma artista a solo, trabalho sempre com uma banda.

Decidiu gravar este disco em Nashville e escolheu Dan Auerbach [dos Black Keys] para o produzir. O que a levou a tomar essas decisões?
Ele tem um estúdio em Nashville. Quando gravei Stockholm, o Björn Yttling tem um estúdio em Estocolmo e fui para lá. O próximo álbum provavelmente vou gravar em Londres com a banda que vai ver em palco. O Dan pareceu-me a pessoa certa para trabalhar, já o tinha visto em palco com os Black Keys. Gosto da onda dele.

Qual é a onda dele?
É um gajo do rock & roll. Sabe o que está a fazer. O Dan é muito old fashioned, mas da forma correta. Ele gosta de vinil, ele vê um álbum como um lado A e lado B, e não é porque esteja deslocado da sua época, ele está em sintonia com o presente, mas há certas coisas acerca do rock & roll, tradições que se deveriam manter, porque eram coisas boas. A tecnologia mudou, mas ele percebe o rock e a ideia de uma banda.

E os músicos com quem trabalhou no álbum.
Isso também foi uma escolha do Dan. Trabalhamos umas demos e depois acabámos tudo no estúdio.

Teve alguma influência para Alone?
Não, só me quero exprimir. Algumas canções são antigas, já as tinha na cabeça há alguns anos. Não tenho planos para os álbuns. Faço álbuns para poder andar com a banda em digressão.

Como tem sido a reação do público às novas canções?
Surpreendentemente boas. O segredo é meter as canções a tocar na rádio. Mas a rádio agora não é a mesma coisa, por causa da internet. Mas para mim ainda é importante, porque pode ser ouvida em qualquer lado. E as pessoas são mais recetivas à rádio, ouvir música na rádio torna-as parte do presente. O meu é objetivo é esse, fazer com que as canções toquem na rádio e que as pessoas percebam que são canções novas.

E as canções novas ainda tocam na rádio? Tem essa ideia? Ou os tempos mudaram.
Eu não leio críticas, não presto atenção ao que é escrito sobre mim. Só pergunto ao meu manager como é que as coisas estão a correr. Segundo ele, tivemos imenso airplay com este álbum. E pessoas que conheço disseram-me que ouviram na rádio.

Como foi fazer as primeiras partes da digressão da Stevie Nicks nos Estados Unidos?
Foi ótimo. Somos muito compatíveis. Nós entrávamos, era um concerto rock durante uma hora. Depois ela entra e é mais soft rock. Ela tocava só canções da sua carreira a solo, falava durante as canções, explicava como tinham sido escritas. E o público adorava. Fiquei surpreendida o quão compatíveis éramos. O público norte-americano adora estes concertos rock. Vamos voltar a estar em digressão juntas, vamos fazer uma na Austrália. Funcionou mesmo bem.

E gosta de Fleetwood Mac?
Nem por isso. Eu gostava de rock & roll, sou mais Iggy Pop. Quando estava em Inglaterra… gostava dos New York Dolls e bandas mais punk. Fleetwood Mac era mais calmo, simpático… consigo apreciar isso agora, há imensa coisa que gosto agora que na altura me passava ao lado. Não estou a dizer que não gostava, simplesmente não estavam no meu radar. Não fui uma dos milhões de pessoas que comprou o Rumours, nunca tive nenhum dos álbuns deles. Tinha álbuns do Syd Barrett…

Os Pretenders atuam esta quarta feira no Parque dos Poetas, em Oeiras. O EDP Cool Jazz Fest arranca esta terça, com Rodrigo Y Gabriela no Jardins Marquês de Pombal, e continua até dia 29 (Encerra com o concerto de Jamie Cullum). Todas as informações sobre o cartaz e os bilhetes aqui.