II Guerra Mundial

Como a história esqueceu o passado nazi da França (mas Macron não)

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Em 1942 mais de 13 mil judeus foram deportados de França para campos de concentração. É dos episódios mais esquecidos do Holocausto mas que Emmanuel Macron fez questão de não esquecer.

Dos 13 mil judeus deportados pelo regime de Vichy, estima-se que um terço tenham sido crianças

WIKIMEDIA COMMONS

É talvez um dos acontecimentos de que menos se fala quando o tópico é o Holocausto, mas é inegável. Foi um dos crimes de guerra mais graves cometidos pela França durante a II Guerra Mundial e, graças a ele, o general Philippe Pétain foi julgado no fim do conflito. A Rusga do Velódromo de Inverno de Paris deu-se a 16 e 17 de julho de 1942, em plena II Guerra Mundial. Nestes dias, mais de 13 mil judeus residentes em França (mas principalmente em Paris) foram presos e confinados no Velódromo da capital francesa. O destino da grande maioria foi um: Auschwitz, o campo da morte.

Destas 13.152 pessoas, 4115 eram crianças. É a face mais amarga da colaboração francesa com as tropas nazis e, apesar da fama de “resistentes”, este acontecimento foi o culminar desastroso de uma série de políticas anti-semitas postas em prática pelo governo francês quando Paris foi invadida pelas tropas de Hitler.

Paris, 1940: Tropas nazi marcham sobre a cidade

A história da França na II Guerra começou em meados de maio de 1940, quando as forças nazi conquistaram o país. A invasão prolongou-se pouco mais de um mês mas, ainda assim e nesse período, os franceses da “liberdade, igualdade e fraternidade” saudaram a suástica.

A 25 de junho do mesmo ano, Hitler dividia “la France” em duas: o norte, rico e mais produtivo, para os alemães e o sul para um governo que acabou por colaborar com o Führer que ficou conhecido como o regime de Vichy, comandado por Philippe Pétain. O marechal prometeu que a ocupação seria fogo de pouca dura e que a França seria recuperada no fim da guerra. Essa promessa, aliada ao medo de perder as colónias para a Espanha de Franco, justificaram a estranha amizade com Hitler: inimigo dos meus inimigos, meu amigo é! Pétain tinha todo o interesse em colaborar com Hitler.

Hitler e Pétain

Nesse momento, a França de Vichy assistia a uma coisa que não era vista desde que os revolucionários de 1789 subiram ao poder: a imposição de uma série de ideias ultraconservadoras. Isso mesmo foi confirmado pelo historiador Jorge Kirszenbaum em 2006, então presidente da Delegação Argentina de Associações Judaicas:

A partir de outubro de 1940, todos os judeus tinham de se registar junto das autoridades, onde a palavra «judeu» era acrescentada ao bilhete de identidade.”

Sabe-se também que de maio a agosto do mesmo ano, os judeus foram obrigados a utilizar a estrela de David, perderam o direito a possuir rádios e foram obrigados a circular apenas na última carruagem do metro de Paris.

Todas essas leis, da primeira à última, foram introduzidas pelo regime francês, em simbiose com a ocupação nazi: “A verdade é gritante! O governo francês apoiou a loucura nazi! Organizou ataques e deportações. Um quarto de franceses judeus morreram em carruagens e campos de concentração”, garante Francis Lott, o embaixador francês em Buenos Aires.

Em muitos casos, os franceses foram mais extremistas que os nazis. Tudo porque o sentimento de anti-semitismo já estava enraizado no país: a ascensão da comunidade provocou muitas mudanças no paradigma da empregabilidade. É preciso ter em mente que, em duas gerações, os judeus franceses já enviavam os filhos para a faculdade, numa progressão social assinalável que promovia o ressentimento

Mas “A Rusga” não aconteceu do dia para a noite. Durante semanas, tanto as forças nazis como as francesas levaram a cabo centenas, se não milhares, de ataques a judeus que eram por sua vez detidos e reencaminhados para Paris – um destino provisório.

Assim se iniciou “A Rusga”, uma deportação massiva que foi planeada no verão de 1942 e foi denominada de “Operação Vento Primaveral”. Organizada por Darquier de Pellepoix, o comissário geral dos assuntos judeus, a operação levou à mobilização de 9000 funcionários e polícias de todo o país para perpetuar um acontecimento que ainda hoje envergonha muitos franceses.

A partir das 4h00, o exército retirou das suas casas homens, mulheres e, na maioria, crianças entre os dois e os doze anos.

Crianças judaicas fotografadas num liceu francês

A maioria destes judeus eram estrangeiros que tinham fugido para a França quando Hitler subiu ao poder em 1933 e começou a pôr em prática algumas das suas medidas anti-semitas. O resultado: a 17 de julho foram detidos 12.884 judeus, desses 4.051 eram crianças, 5.802 eram mulheres e 3.031 eram homens. No dia 20, os registos já passavam os 13.000. Não foi a primeira rodada, mas foi a mais numerosa.

A frieza com que tudo foi feito pode entender-se numa mensagem enviada pela câmara de Paris a 16 de julho: “A operação contra os judeus começou às 4h00. (…) Muitos homens abandonaram ontem as casas. Ficaram as mulheres com algumas crianças pequenas. Outros negaram-se a abrir as portas, é preciso chamar o serralheiro“.

Do Velódromo à vergonha

Depois de detidos, o governo dividiu em dois grupos: uma parte (homens solteiros e sem família) foi levada para campos no norte do país, como Drancy; a outra (mulheres e crianças) foram colocados em autocarros a partir do Velódromo. Foi algo um tanto quanto simbólico: um edifício tipicamente usado para fins desportivos e de entretenimento era agora uma prisão. Recebiam água e alguma comida e os que tentassem escapar eram fuzilados. A França abandonava todas as leis da República para abrir, mesmo que por breves tempos, a ideologia nazi.

A 18 de julho começaram as deportações para a Alemanha e partiam comboios carregados de judeus em direção a Auschwitz. Esta situação terá sido excecionalmente traumática para os mais pequenos. Primeiro porque tiveram que despedir-se dos pais quando estes foram deportados e, segundo, porque foram imediatamente transladados para Auschwitz num comboio, tendo feito a viagem sem ninguém que cuidasse deles, com fome e com sede.

Os relatos e os registos não deixam dúvidas mas a indiferença e o silêncio dominaram gerações de franceses. O exemplo mais recente será provavelmente o de Marine Le Pen que, na corrida presidencial, negou qualquer envolvimento dos franceses no Holocausto.

Contudo, e contra todas as expetativas, o presidente francês Emmanuel Macron, nas cerimónias de aniversário d’A Rusga, que decorreram nos últimos dias, confirmou o envolvimento francês: “Foi a França que organizou e tratou da deportação de milhares de crianças a campos de concentração”.

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