É certo que estamos a mais de 8.500 quilómetros da Cidade do México, mas é bem percetível pelas imagens e pelos vídeos a reação entusiástica que o FC Porto tem recebido por terras aztecas. E não, não estamos a falar da visita surpresa que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez esta tarde (hora portuguesa) à comitiva azul e branca, no hotel onde estava a estagiar antes do jogo; falamos em toda uma envolvência que tem Iker Casillas como grande símbolo e o clube dos dragões como referência. “Melhor só mesmo o Real Madrid ou o Barcelona”, chegou a dizer Alberto Garcia Aspe, que representou 14 anos a seleção mexicana.

Acaba por ser quase um contrassenso, mas há gostos que parecem não mudar. Literalmente, neste caso: há cerca de um ano e meio, excluindo por razões óbvias Portugal e Brasil, era do México, da Argélia e da Colômbia que se encontravam mais seguidores do FC Porto. Os dragões atravessam o maior jejum de títulos nos 35 anos da era Pinto da Costa à frente do clube, mas o crédito que foram acumulando durante anos a fios com troféus nacionais e boas prestações europeias continua a ser capitalizado além-fronteiras.

Mas se Marcelo está no México para acompanhar os novos investimentos nacionais num país externo, Sérgio Conceição trabalha com os ‘velhos’ investimentos que existem internamente. São as regras do jogo, também porque a UEFA limitou o Monopólio de constantes resultados negativos também nas finanças. “Se acharmos que é preciso ir ao mercado, estou em sintonia com a direção em relação ao que devemos fazer. Estou muito satisfeito com o plantel que tenho à disposição. As grandes contratações são a base que tenho do ano passado, o mais importante é quem cá está. Sei a situação em que o FC Porto está, até financeira, e temos de dar valor a quem está“, assumiu Sérgio Conceição na conferência antes do jogo com o Cruz Azul.

O novo treinador parece aceitar bem. Em vez de apontar aos prováveis problemas que isso pode acartar, prefere começar a procurar possíveis soluções. Até pode admitir, para si, que existem défices em algumas posições (que existem e este jogo do Cruz Azul também conseguiu mostrar isso mesmo), mas o mais importante é potenciar o Produto Interno Bruto dos azuis e brancos. Com a prata da casa, claro. Como se viu no primeiro particular da pré-temporada à porta aberta, a contar para SuperCopa Tecate (antes, no Olival, tinha empatado 2-2 com a Académica e ganho 4-0 frente ao Rio Ave).

Ficha de jogo

Mostrar Esconder

Cruz Azul-FC Porto, 0-0 (3-2, g.p.)

Jogo de preparação (SuperCopa Tecate)

Estádio Azul, na Cidade do México (México)

FC Porto: Casillas (José Sá, 46′); Ricardo Pereira (Maxi Pereira, 46′), Felipe (Jorge Fernandes, 81′), Marcano (Martins Indi, 46′), Alex Telles (Rafa Soares, 62′); Mikel (André André, 46′), Óliver (Sérgio Oliveira, 62′), Otávio (João Carlos Teixeira, 62′); Corona (Hernâni, 46′ e Layún, 81′), Brahimi (Galeno, 46′) e Soares (Aboubakar, 46′)

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: nada a registar

Grandes penalidades: Sérgio Oliveira e Herrera marcaram, João Carlos Teixeira, Rafa Soares e Martins Indi falharam

Ação disciplinar: cartão amarelo a Brahimi (32′)

No Estádio Azul (com parecenças às antigas Antas, de facto) contra o Cruz Azul, o FC Porto jogou de laranja. Foi a primeira aparição do novo equipamento alternativo e com apenas duas caras que não estavam nos dragões no ano passado: Ricardo Pereira, que estava cedido ao Nice e ganhou a titularidade como lateral direito, e Mikel, emprestado ao V. Setúbal na última época e que frente aos mexicanos ocupou o lugar que durante a época será de Danilo. De resto, velhos conhecidos: Casillas, Felipe, Marcano, Alex Telles, Óliver, Otávio, Corona, Brahimi e Soares. Com novas posições, num novo esquema tático, com um novo modelo do jogo.

Foi à dupla Brahimi-Soares que pertenceu o primeiro lance com algum perigo logo aos quatro minutos, mas foi ao reforço do Cruz Azul, Édgar Méndez, que tocou a perdida da noite (madrugada avançada em Portugal): a um metro da baliza, a precisar apenas de encostar para a baliza, conseguiu dar um toque para o lado que nem pela linha de fundo saiu (18′). Acontece aos melhores. E a Méndez, avançado espanhol de 26 anos formado no Real Madrid. E por falar nos merengues, no minuto seguinte foi o ex-número 1 do Bérnabeu a brilhar, com uma grande intervenção na sequência de um canto a manter o nulo na partida.

Aos poucos, o FC Porto começou a ficar mais confortável no jogo, com mais certeza de passe, com mais objetividade nas transições rápidas. E depois de um bom remate de meia-distância de Alex Telles (26′), Corona (35′) e Óliver (37′) tiveram oportunidades soberanas para adiantarem os dragões no marcador.

O jogo não era sempre bem jogado, mas estava vivo. Com sangue na guelra. Até demasiada, como se viu na reação de Francisco Martín, que saltou para cima do quarto árbitro após uma falta de Felipe marcada ao contrário como se estivesse ali em jogo uma Champions (e foi expulso). Nem de propósito: no intervalo, até foguetes houve. E a seguir faltou a luz. Sem problemas, afinal em Portugal eram só 4h05 da manhã, hora boa para se ver futebol…

Como poderemos então descrever este novo FC Porto de Sérgio Conceição? Mantendo a linha defensiva com quatro e sempre que possível subida (para encurtar os espaços de construção do adversário, apostando na velocidade de recuperação sobretudo dos centrai), o técnico aposta depois num triângulo a meio-campo com Óliver como ‘box to box’ e Otávio nas costas do avançado, dois homens nas alas e Soares na frente.

Nem tudo correu bem, mas percebem-se algumas ideias que serão transversais à temporada: a constante subida dos laterais, com os alas a terem muito jogo interior para desposicionarem a defesa; a clara aposta na criatividade de Óliver e Otávio na construção e nos espaços entre linhas para surgirem depois em zonas de finalização; a velocidade dos extremos a tentar fazer a diferença em qualquer situação 1×1; a mobilidade de Soares no ataque, tão depressa a aparecer na área como a recuar para tabelar com os companheiros e abrir espaços; a variação entre pressão alta quando a bola está junto à área contrária e um bloco médio quando entra na primeira fase de construção. Faltou, como seria natural, rapidez de processos sobretudo nas saídas ofensivas e capacidade de contrariar em alguns momentos as transições do Cruz Azul, 11.º no Cláusura que está com outro andamento.

No segundo tempo, os mexicanos voltaram a entrar ligeiramente melhor, com ligeiro domínio territorial, mas o FC Porto conseguiu assumir o encontro com um Hernâni supersónico a dar cabo da cabeça contrária (Galeno também esteve bem, mas a falhar no último passe) e a meia-distância de Otávio e André André a aparecer. No entanto, e após várias quebras devido às substituições, o nulo iria manter-se até final. Houve depois grandes penalidades (para haver um critério de desempate no torneio), com o Cruz Azul a ganhar por 3-2: Sérgio Oliveira e Herrera marcaram, João Carlos Teixeira, Rafa Soares e Martins Indi falharam.