Os republicanos no Senado não conseguiram entender-se para aprovar uma lei para substituir uma das mais emblemáticas leis da era de Barack Obama, as mudanças no sistema de saúde conhecidas como Obamacare, por falta de acordo dentro do próprio partido. A liderança no Senado insiste, e quer revogar o Obamacare, mesmo sem legislação pronta para o substituir. O plano, contudo, deve morrer à nascença.

Durante a última década, não houve lei que melhor definisse os republicanos no Congresso dos Estados Unidos que o Obamacare. Era para revogar assim que houvesse oportunidade — ou seja, assim que houvesse maioria. Foi isso que Trump prometeu em campanha e depois de ganhar. Mas quando chegou o momento da verdade, as coisas não correram da melhor forma aos republicanos.

A primeira proposta na Câmara dos Representantes já tinha sido muito criticada pelos próprios senadores republicanos, que prometeram mudanças antes de esta chegar a ser votada. Mas mesmos estas mudanças antecipavam problemas. A análise do Congressional Budget Office, um departamento independente do Congresso que analisa o impacto das propostas de lei, dizia que a nova lei deixava 22 milhões de pessoas, atualmente cobertas ao abrigo do Obamacare, sem proteção na saúde. Mais à direita, os senadores mais conservadores e libertários ameaçavam não aprovar a nova versão da lei sem mais cortes — entre estes estão Ted Cruz, do Texas, e Rand Paul, do Kentucky, ambos candidatos nas primárias republicanas.

A falta de acordo entre os vários republicanos que permitiria alcançar os 50 senadores necessários para fazer passar a lei que revogava o Obamacare e que colocava novos mecanismos para preencher o vazio legal, deixou Donald Trump e a liderança no Congresso numa posição complicada. Ambos, contudo, pensaram numa nova estratégia: na ausência de uma nova lei, sem acordo dos republicanos e sem qualquer apoio democrata, a lei deve ser simplesmente revogada, com uma moratória de dois anos, durante os quais as partes têm de encontrar um acordo.

“Isso é o que eu acho que a maior parte dos nossos membros quer fazer agora e que iremos fazer no futuro próximo”, disse esta terça-feira Mitch McConnel, líder da maioria republicana no Senado, e um dos maiores críticos de Barack Obama e desta lei.

McConnel admitiu que nesta altura “é muito óbvio” que os republicanos não têm os 50 senadores necessários para aprovar a substituição, mas que esta votação obrigaria as partes a conversar. Até lá, os republicanos pretendem começar a discutir também a reforma fiscal e o plano de infraestruturas que têm andado a prometer.

O problema, para os republicanos, é que este plano pode morrer à nascença. Já há três senadores republicanos contra esta eliminação do Obamacare sem qualquer substituto. Um deles, Susan Collins, do Maine, é uma das republicanas do Congresso que mais tem apoiado Donald Trump.

“Não podemos simplesmente contar que iremos aprovar um substituto nos próximos dois anos. Revogar, sem um substituto, criaria uma incerteza muito grande nas pessoas que dependem do ACA [Affordable Care Act, o nome oficial da lei] e causar turbulência nos mercados seguradores”, disse.

Shelley Moore Capito, do Estado da Virginia Ocidental, deixou palavras mais duras: “Não vim para Washington para prejudicar pessoas. Só irei votar na revogação da lei se existir um substituto que responda às minhas preocupações”, disse.

Donald Trump, na Casa Branca, culpou os democratas e “alguns republicanos” pelo objetivo falhado – um dos principais objetivos que elegeu para os primeiros meses como Presidente -, e sugeriu mesmo deixar a lei falhar, algo que acha que irá fazer com os democratas voltem à mesa: “deixem o Obamacare falhar. Será muito mais fácil. (…) Penso que estamos nessa posição onde iremos simplesmente deixar o Obamacare falhar”.

“Vamos deixar o Obamacare falhar, e depois os democratas virão falar connosco”, disse.

O partido percebeu apenas na noite de segunda-feira a dimensão da deserção dos republicanos face à proposta para substituir o Obamacare, quando Mike Lee, do Utah, decidiu juntar-se a Jerry Moran, do Kansas, na falta de apoio à proposta. Rand Paul e Susan Collins já tinham dito que iriam votar contra a proposta. John McCain ainda se encontra no hospital a recuperar de uma cirurgia. Estas baixas deixam o Partido Republicano sem a maioria necessária no Congresso para aprovar.

Os republicanos têm 52 lugares no Senado, e precisam de 50 para aprovar esta lei (Mike Pence, vice-presidente, pode votar como presidente do Senado). Sem estes cinco senadores, os 46 democratas e dois independentes no Senado, que se espera que votem contra esta proposta, teriam capacidade para deitar abaixo as intenções dos republicanos.