Os apoiantes de Liu Xiaobo estão a a protagonizar uma série de homenagens solenes em memória do ativista que morreu esta semana. As manifestações são feitas essencialmente “no mar” já que é no mar que estão as cinzas de Liu e por não haver outro local de culto. Dizem que o facto de as cinzas do ativista terem sido atiradas ao mar é uma forma de lhe negar um lugar peregrino.

O Partido Comunista pensa que como não há lápide não se pode homenagear Liu Xiobo, mas de facto todo o mar acaba por se tornar num lugar onde podemos estar próximo dele”, diz Hu Jia, ativista e amiga de longa data de Liu, citada pelo The Guardian.

Já Wen Yunchao, outra ativista, conta que o governo de Pequim contava esquecer o assunto ao lançar as cinzas de Liu ao mar, mas que essa intenção acabou por ter o efeito contrário “já que toda a gente pode ir ao mar e lamentar”.

Desde que Liu morreu os ativistas dizem que os protestos junto ao mar já se realizaram um pouco por todo o mundo, incluindo Nova Iorque, Boston, Melbourne, Londres e Hong Kong. “Estamos a fazer isto para manter viva a sua memória”, diz Zhou Fengsuo, um ativista da Califórnia e que chegou a mergulhar no Pacífico como forma de protesto contra a falta de sensibilidade chinesa no tratamento de Liu.

Domingo acenderam-se velas e foi colocada uma cadeira vazia, para simbolizar a ausência de Liu na cerimónia dos prémios Nobel em 2010, em Nova Iorque. No dia seguinte, Yu Jie, um amigo e autor de uma biografia de Liu, entrou nas águas de Taiwan com um cartaz onde se lia “Lamentando Liu Xiaobo: um mártir da democracia chinesa”.

Os movimentos têm sentido a resistência do regime chinês. O governo de Pequim deteve Jiang Jianjun, um ativista que tinha ido até uma praia próxima do sítio onde foram lançadas as cinzas de Liu para lançar uma garrafa com a mensagem “Descanse em paz, Sr. Liu Xiaobo”. A justificação oficial é de que a polícia o deteve por “ter publicado imagens online”, denuncia Zhou. O ativista relata que “na China, há sérias punições para quem se atrever a homenagear a vida de Liu Xiaobo publicamente”.

Zhou diz-se surpreendido com tantos apoios a Liu, já que não houve nenhuma coordenação nesse sentido. O ativista alega ainda que a China recusou deliberadamente que Liu tivesse um local de culto, como forma de impedir que uma sepultura promovesse mais protestos.

O governo não só destruiu o seu corpo fisicamente como quer apagar a sua figura da memória coletiva. Temos de protestar com a maior criatividade que conseguimos”, conclui Zhou.

Morreu Liu Xiaobo, o ativista político chinês Prémio Nobel da Paz