Na semana passada, o presidente da Assembleia da República fez a direita vir a público falar de violação da separação de poderes, ao desvalorizar o caso de viagens pagas a ex-governantes pela Galp. Eduardo Ferro Rodrigues mantém tudo o que disse, mas não adianta mais nada por não querer “dar mais terreno para haver quatro ou cinco dias de espasmos da direita ou da extrema-direita”.

Em entrevista à Antena 1, Ferro Rodrigues confirmou que existe “pelo menos um deputado” (trata-se do social-democrata Cristóvão Norte) sobre quem foi pedido o levantamento da imunidade parlamentar “para ser constituído arguido” no inquérito às viagens ao Euro2016 pagas pela Galp — mas evita falar mais no caso para não provocar (provocando) a “direita e extrema-direita”. Mas existe extrema-direita no Parlamento? “A extrema-direita existe ideologicamente, partidariamente e culturalmente. Há pessoas que, quando algumas coisas mais graves acontecem, mostram que o seu conceito de democracia não é o mesmo do que o da maioria dos portugueses”.

O socialista, que é a segunda figura de Estado, tem sido muito criticado de parcialidade pela direita, por isso tenta evitar “fazer a defesa do Governo”, mas aponta “o maior crescimento económico” e os “melhores indicadores de confiança”: “Penso que, olhando para os resultados, muitas vezes o que é excitante para comentadores e classe política não tem relevância para a população portuguesa, que acha que, no balanço entre o deve e o haver, o resultado é tirado de outra maneira”.

Na entrevista, também fala sobre a atual solução governativa — a maioria de esquerda — para dizer que há um maior “capital de confiança” entre os quatro partidos (PS, PCP, BE e PEV) e diz mesmo estar “otimista” quanto à capacidade de negociação das várias partes. E mostra-se convicto que o Presidente da República não criará problemas à solução que hoje existe no Parlamento. “Nunca será por ele que haverá uma crise política”, acredita o antigo líder do PS, que diz que “a única coisa” que o Presidente deve fazer “é exigir que os grupos parlamentares se entendam”.

Ferro Rodrigues admite ver valor na oposição, elogiando o líder parlamentar cessante do PSD, Luís Montenegro, e também o novo. Sobre Hugo Soares, eleito na quarta-feira, o socialista fala da sua própria experiência: “Aos 34 anos eu dizia coisas muito piores, muito mais radicais. Quando as pessoas estão numa determinada trajetória de afirmação muitas vezes têm de radicalizar o discurso”. Ao novo líder da bancada social-democrata, o socialista reconhece “o sentido de humor”.