O Milhões de Festa tem as suas tendências? Há quem lhe chame simplesmente de hipster, algo despojado de sentido na atualidade (quando até uma sandes de manteiga é hipster), há quem não consiga discernir um verdadeiro estilo porque a amostra para analisar não é tão grande como noutros festivais em Portugal: é um evento que acolhe apenas cerca de 2.500 pessoas diariamente (uns dias mais, outros dias menos). Além disso, o recinto do festival predispõe-se a que não pareça que esteja assim tanta gente, faz parte do seu lado acolhedor, as pessoas dispersam-se pelas poucas mas boas atividades, pelos concertos, pela comida, porque se perdem ou porque vão fazer chichi e buscar bebida. Raramente há filas para qualquer coisa no Milhões. E se há, costuma ser para comida. É uma boa razão. É sinal de que a comida é boa.

Ao fim de dois dias em Barcelos, creio que já estou à vontade para falar em tendências. Não há grande coisa. As fotografias que se veem por aí enganam muito. Há malta que se esforça para parecer diferente na piscina, há muito casaco de ganga (sou em parte responsável por isso), alguns coletes e coisas normais para quem costuma sair de casa em Lisboa. Ao longo do dia começo a pensar se a indumentária de segurança não poderia tornar-se numa cena.

Preto da cabeça aos pés, com aquele jeitinho militar. Botas pretas, t-shirt justa preta, boina preta, calças multibolsos pretas, porque é altura de se voltar a perceber que bolsos são mais casuais e práticos do que uma mochila, um bornal ou saquinho de pano. Nos bolsos cabem lá tabaco, isqueiro, carteira, telemóvel, powerbank, carregador de telemóvel e lenços de papel. Material essencial para a sobrevivência num festival em 2017. O cabelo rapado seria ineficaz no headbanging, um sacrifício maior, mas indispensável, para se entrar nesta onda. O walkie-talkie faria o throwback aos 1980s e assumia-se como um reflexo do alvoroço causado por “Stranger Things” no ano passado. O colete amarelo como toque final, um sinal de que se está ciente das boas práticas rodoviárias.

O dia começou pela piscina. Um clássico do Milhões. O Palco Piscina e a respetiva são colados ao recinto do festival, mas a entrada faz-se por outro sítio. É importante apanhar algum sol e queimar as calorias do costeletão de novilho do almoço. Esta área do Milhões, com curadoria da Red Bull Music Academy, tem uma novidade nesta edição. Na piscina principal há colunas debaixo de água, um adereço engraçado à disposição geral de quem passa a tarde na piscina. Ouve-se música em banhos, com o palco mesmo em frente à piscina, e quando se dá um mergulho a música continua para não se perder nada (ok, perdem-se os graves). É uma daquelas coisas desnecessárias mas que acrescentam qualquer coisa de engraçado à experiência de estar ali. Porque não há grande cena em ouvir música debaixo de água, a não ser uma sensação de que isto é tão brutal como ver Jesus Cristo numa tosta de queijo. Seja como for, foi ideal para ouvir Orchestra Of Spheres com a cabeça fora e dentro de água.

Começou a bater um ventinho e foi altura de vestir e ir para o recinto. No Palco Taina havia atividades desde as 16h45 e cheguei a tempo para ver Systemik Violence, que começaram por volta das 19h. Quarteto punk com aquela raiva para demolir tudo e todos, inclusive as próprias guitarras. É qualquer coisa ver um guitarrista a atirar a guitarra ao chão quando ainda bate o sol. E é aí que me bate que o Palco Taina, neste ano situado ao lado do palco principal, numa zona mais elevada do recinto, é o terraço (vá, rooftop) dos sunsets do Milhões de Festa.

Os cocktails são substituídos por vinho verde, há pessoas a cortarem e a distribuírem salpicão, há bifanas, sandes de rojões e waffles, tudo coisa boa para manter o estômago em andamento para o jantar servido no Taina após as 20 horas. Ontem foi chili com carne, hoje será rancho. Mal posso esperar para comer um rancho por 2,50 euros. Provavelmente irei repetir. Por isso, 5 euros. O sol vai caindo progressivamente, o ambiente sunset bate ainda mais quando os VAI-TE FODER sobem ao palco, banda do hardcore de Braga, mítica pelos seus concertos e persistência: demoraram dez anos para dar um concerto fora de Braga, estão em atividade há 15. E, de certa forma, a presença de dois vocalistas em palco foi uma homenagem justa aos Linkin Park e à morte de Chester Bennington. Para terminar o sunset em beleza, Nightman (membro dos VAI-TE FODER) passa umas malhas disco/boogie para o jantar no Taina correr com ritmo. De certa forma, estava-se tainando. Ou #tainando.

© Pedro Roque / Milhões de Festa

O palco principal abre com o Conjunto Cuca Monga às 21h, que reúne músicos dos Capitão Fausto, Bispo, Ganso e El Salvador e que fazem versões das suas bandas – exceto Capitão Fausto – e não só. Começou quase com mais músicos em palco – 11 – do que público mas isso não os desmoralizou para trilharem o seu caminho entre o psicadelismo, tropical e Santana, convencendo mais público a juntar-se ao longo do concerto. Em palco há ali qualquer coisa entre Resistência e The Kelly Family, mas a música é bem melhor. Foi perfeito para arrancar a noite. Confesso que tinha alguma esperança que também fizessem versões de Cuca Roseta. Não sei porquê, isso sempre fez sentido para mim.

A caminho do Palco Lovers houve paragem para jogar matraquilhos. Há duas mesas no Estádio Crocs, bem oleadas para a grande Final do Milhões de Matrecos, torneio organizado em colaboração com a Praça da Alegria Futebol Clube. Os lugares na final já estão ocupados, as pré-eliminatórias aconteceram em Barcelos, Porto e Lisboa há umas semanas. Tentei representar Lisboa num amigável. Derrota, vitória, derrota e pus-me a andar para os Ifriqiyaa Électrique. Boa mistura de percussão, eletricidade, ritmo, ruído e transe. Foi valente durante 15 minutos, depois tornou-se algo cansativo. Tinha que se guardar energia faUSt & Gnod no Palco Milhões.

Encontro de gerações e fazer história a acontecer no Milhões de Festa. Diz-se isto muitas vezes sobre os festivais e o entusiasmo é uma autoestrada para o exagero, mas aqui bate tudo certo. Foi uma proposta da organização juntar estas duas bandas em palco, os britânicos Gnod são regulares no Milhões e o seu som é devedor do krautrock dos Faust, agora faUSt. Apenas dois membros da formação original, Jean-Hervé Péron e Werner Diermaier, mas as ideias fundadoras estão por lá. No palco duas betoneiras, num dos temas uma senhora da limpeza a varrer o chão com um microfone na vassoura, há todo um lado de performance associado ao concerto que se faz sentir ainda mais quando entram bailarinas vestidas com panos pretos e a segurar partes de um manequim.

Foi um espectáculo de rock livre, onde em conjunto interpretaram temas de cada uma das bandas, terminando com um tema que os Gnod fizeram em homenagem aos faUSt. Foi emocionante e poderoso do princípio ao fim, um encontro feliz de linguagens nas margens do rock que se revelou mais intenso a cada minuto que passava. Harmonia sempre a acontecer, loucura q.b. e entendida entre todos os que estavam em palco, com uma vertente cénica que exteriorizava a beleza e a amálgama sónica dos instrumentos.

Difícil de seguir isto. Por isso, uma merecida pausa. Estacionei-me ao lado do Palco Taina, cuja elevação proporciona uma vista bem jeitosa para o palco principal. Há sítio para sentar, há bebidas e comida por perto, e acaba por replicar uma zona VIP dos outros festivais, só que de livre acesso a todos. É por ali que fico para ver Gaslamp Killer, mescla de vários géneros, onde rock, global beats e muita música a puxar pelos graves encontram a mistura perfeita na mesa de Gaslamp Killer. Que não pára quieto, está sempre a puxar pelos limites do que faz e também não pára de despir roupa (não estava assim tanto frio para tantas camadas, houve aí algum exagero na indumentária). É uma celebração em cima da celebração, que eu resolvo celebrar com o maravilhoso arroz de cabidela do Palco Taina (servido entre as duas e três da manhã) para forrar o estômago antes de ir para a caminha.