Antes de vir para o Milhões de Festa e ao longo dos quatro dias do festival, tornou-se recorrente ouvir histórias sobre o ano passado, principalmente sobre o último dia. De como aconteceu isto ou aquilo, de como foi incrível, irrepetível, de que deveria guardar energias para o último dia porque é quando o inesperado do fim de festa acontece. Fiquei à espera. Guardar energias é que me parece um mito porque a maior parte da malta no Palco Piscina parecia estar a ressacar.

A tarde foi quase toda passada na piscina. Sem ressaca mas a fazer a digestão do arroz de pato que comi ao almoço. O som do palco estava a funcionar como uma espécie de música de elevador para mim enquanto apanhava sol: foi mais ou menos assim que experienciei Sarathy Korwar, Shame e uns trinta minutos de Hieroglyphic Being. Quem se amontoava junto das colunas parecia estar a divertir-se.

Chúpame El Dedo

Por volta das sete movimentei-me para o Palco Taina, onde apanhei os dez minutos finais dos britânicos Italia 90. Foi o primeiro concerto fora de portas e para aí o décimo das suas carreiras. Não parecia. Rock bem oleado, com um espírito entre os The Fall e os Beat Happening. Seguiu-se diola e o Palco Taina acabou a sua edição de 2017 com um DJ set de Suave Geração, as pessoas que mais investiram em merchandising para este Milhões (meias, autocolantes, uma bandeira e T-shirts). E o maior investimento na história da indústria musical, partindo da relação entre o dinheiro investido e o tempo de atuação (30 minutos).

O palco principal abriu com os Pop Dell’Arte às 21h00. Serviu para confirmar aquilo que tinha presenciado há uma semana em Viseu, nos Jardins Efémeros: estão a tocar melhor do que as últimas vezes que os vi. O alinhamento foi muito semelhante, surgem alguns temas novos entre os clássicos e Ricardo Martins, o novo baterista, encaixa que nem uma luva. A sua presença faz-se sentir. Acabou com as inevitáveis “My Funny Ana Lana” e “Querelle”.

Salto para o Palco Lovers (onde mais tarde aconteceria o momento da noite, do festival e provavelmente de todas as edições) para ver os Meatbodies. O Palco Lovers tem um cenário incrível: de um lado e nas traseiras é fechado pelas paredes do parque, e do outro lado há vista para o rio e para a outra margem. Cria uma sensação de paraíso congestionado e o som é particularmente alto, o que bate certo com a maior parte das bandas que ali tocam. Foi ideal para ouvir os Meatbodies. Os meus ouvidos ainda acusam a proximidade com as colunas.

A partir daqui a minha noite tornou-se inesperada, entre jantar cabidela (o Palco Taina fechou cedíssimo no último dia, porque os donos estavam de ressaca da noite anterior), ouvir concertos ao fundo (Pixvae e Bad Breeding), participar em festas de anos (a do DJ Quesadilla, um dos programadores do Palco Taina) e fazer parte da equipa vencedora do último jogo de matraquilhos jogado no Milhões 2017. 5-4 para o Benfica.

Meatbodies

Foi então que o Milhões de Festa fez jus ao nome. Powell cancelou a sua atuação das 02h40 no Palco Lovers. Hieroglyphic Being ia substituí-lo mas – aparentemente – também tinha cancelado. Entre DJ Fitz receber uma chamada (no cartaz ele só tocaria mais tarde) para ir já para o palco e tocar foram menos de dez minutos. Eram duas e qualquer coisa, o domingo foi o dia com menos afluência no festival e àquela hora o público que ainda estava por ali andava disperso e pronto para morrer na cama. Fitz pede a DJ Quesadilla para o anunciar e começar a chamar o pessoal que ainda está no recinto. Daí a DJ Quesadilla se transformar em MC Quesadilla e tornar a actuação de DJ Fitz na sua festa de anos foram segundos.

E do nada acontece a festa. Toda a gente recupera energia, toda a gente que está no Lovers está histérica com o que está a acontecer. MC Quesadilla não deixa ninguém parar e muito menos alguém esquecer-se de que faz anos. É a festa dele, mas também é a festa de todos os que estão ali e viveram o Milhões. Foi uma celebração daquilo que é o Milhões, um festival onde um tatuador em Macau vem todos os anos cozinhar para o Palco Taina, onde o inesperado e o improviso fazem acontecer os melhores concertos e onde a melhor festa de anos de sempre ocorreu sem qualquer organização. Ah, Hieroglyphic Being ainda apareceu para tocar (às quatro) e por mais que adore o seu trabalho e os seus sets, já não dava. Fitz e Quesadilla fecharam oficiosamente a noite.