Aos 28 minutos, Jonathan Silva avançou com a bola pelo flanco esquerdo, encostou para ao lado em Mattheus Oliveira mas o passe saiu um pouco para trás e o filho de Bebeto, meio atrapalhado, deixou a bola sair pela linha lateral. O argentino ficou louco, aos berros, de cabeça perdida a protestar. Pouco depois, o árbitro enviava as equipas para os bancos, para uma pausa técnica que já estava previamente combinada entre os dois conjuntos. Terminava aí meia hora de terror onde o Sporting perdia por 2-0 com o V. Guimarães e jogava com dez.

Ficha de jogo

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Sporting-V. Guimarães, 0-3

Jogo particular

Estádio Municipal de Rio Maior

Sporting: Beto (Rui Patrício, 46′); Coates, Petrovic (Palhinha, 30′), Tobias Figueiredo; Bruno César (Podence, 60′), William Carvalho (Battaglia, 46′), Adrien (Bruno Fernandes, 46′), Jonathan Silva; Iuri Medeiros (Gelson Martins, 46′), Mattheus Oliveira (Acuña, 46′) e Doumbia (Gelson Dala, 74′)

Treinador: Jorge Jesus

V. Guimarães: Miguel Silva; João Aurélio, Marcos Valente, Moreno, Vigário; Celis, Zungu (Rafael Miranda, 46′); Hélder Ferreira, Hurtado (Sturgeon, 61′), Raphinha (Domingo, 86′) e Estupiñan (Raphael Martins, 61′)

Treinador: Pedro Martins

Golos: Estupiñan (14′), Hurtado (22′) e Raphinha (85′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Raphinha (45′) e Moreno (60′); cartão vermelho a Coates (24′)

Ao contrário do que andava a ser avançado, Jorge Jesus não colocou em Rio Maior uma equipa próxima daquela que irá iniciar a temporada frente ao Desp. Aves. Longe disso. Nem jogadores, nem sistema tático. Foi aquilo que antes do encontro se apelida de “experiências” mas que, quando acaba, se descreve como “invenções”. Porque, pura e simplesmente, não funcionou. E até tirou brilho às principais estrelas que foram opções iniciais. Mais uma vez, Jorge Jesus testou o esquema de três centrais. Mais uma vez, a coisa deu para o torto. A última?

A evolução da equipa verde e branca ao longo da pré-temporada diz que sim. Claramente que sim. E não, o problema não foi o canhoto Bruno César ter sido a unidade que fazia todo o corredor direito (embora não tenha ajudado). E não, o problema não foi Petrovic ter funcionado como defesa na zona mais central, encostando Coates à direita e Tobias Figueiredo à esquerda (embora não tenha ajudado). O problema é que os jogadores do Sporting não estão formatados para esta ideia. Uma questão de tempo, de trabalho? Eventualmente, sim. Mas o tempo é uma coisa que não volta para trás. Até porque, de forma indireta, todos ficam a perder.

William Carvalho e Adrien Silva perdem protagonismo a meio-campo com este sistema. Têm menos bola, menos influência, menos capacidade de controlar ritmos de jogo e fases de construção. Depois houve Mattheus Oliveira, que às vezes se perdeu tanto em campo que não se percebia qual era a ideia tática do Sporting nos últimos 30 metros. Sobraram Iuri Medeiros, à direita ou ao meio, e Doumbia, que mesmo com escassez de apoios ia tentando dar largura e profundidade ao ataque leonino. Mas pouco ou nada correu bem.

O primeiro lance com relativo perigo junto a cada uma das áreas até pertenceu ao conjunto verde e branco, com Doumbia a ver bem a diagonal de Iuri Medeiros mas Miguel Silva, guarda-redes dos vimaranenses que seria o melhor em campo, a conseguir esticar bem a mão para tocar na bola na altura em que o internacional Sub-21 se preparava para fazer a finta fatal. No entanto, apenas dois minutos depois, aos 14′, os minhotos não ameaçaram e marcaram mesmo: colocação desastrada da defesa do Sporting, a cair nas diagonais de outros adversários, e espaço para Estupiñan disparar forte para um grande golo.

Sporting sofre segunda derrota seguida com o Basileia num jogo onde sofreu golos para esquecer (ou não)

Pouco depois, o mesmo filme com as mesmas consequências: aos 20′, num lance na área, Petrovic ameaçou o empate (tendo chocado com o guarda-redes Miguel Silva e saindo mesmo lesionado); aos 22′, no seguimento de uma bola que cruzou a defesa sem ninguém conseguir fazer o corte, Hurtado aumentou para 2-0. E como um mal (neste caso, bem mais do que um) nunca vem só, Coates foi expulso após derrubar Estupiñan em mais um lance onde um erro individual acabou por comprometer toda a equipa (24′). Só faltava mesmo o jovem reforço colombiano ter mais uns centímetros para chegar a tempo a um cruzamento de Raphinha que poderia ter dado o 3-0 aos 30’…

Houve a interrupção e o Sporting acalmou. Tal como no ano passado, bastou uma paragem técnica (neste caso para beber água) para os jogadores leoninos recuperarem o controlo emocional e, antes do intervalo, Mattheus Oliveira (de pé esquerdo, 37′) e Doumbia (de cabeça, 39′) obrigaram Miguel Silva a duas grandes defesas.

Mesmo reduzido a dez unidades, Jorge Jesus colocou a equipa num 4x4x1, lançou unidades como Gelson Martins ou Bruno Fernandes e subiu em termos qualitativos. Ao ponto de nem se perceber que estava a jogar com menos um, o maior elogio que se pode fazer a uma equipa nessa condição. E prosseguindo a onda de adaptações, que chegou mesmo à colocação de Gelson como um falso ala direito (já depois da utilização de Bruno César nesse lugar, maior mensagem de que é necessária uma alternativa a Piccini não poderia haver…).

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Logo aos 48 minutos, ‘El Huevo’ Acuña obrigou o guardião minhoto a nova intervenção de grande nível, após um bom cabeceamento a cruzamento de Gelson Martins da direita; aos 58′, Doumbia, já pressionado pelos defesas contrários, atirou ao lado; aos 63′, o marfinense teve a oportunidade mais clara do encontro, fintando mesmo Miguel Silva mas demorando demasiado tempo e rematando depois às malhas laterais. O V. Guimarães, que estava mais confortável com o desconforto do Sporting a jogar com três centrais, caiu mesmo estando com mais um. O facto de Pedro Martins ter mexido pouca na equipa também pode explicar isso.

A partida entrou depois numa fase mais morna, com o perigo a rondar as balizar apenas como consequência de bolas paradas: Acuña, aos 74′, tentou surpreender num livre lateral direto mas a bola saiu por cima da trave; Hélder Ferreira, aos 80′, quase aumentou a vantagem de cabeça fora da área, numa recarga após canto dos vimaranenses. Quando parecia que a loja já estava fechada, Rapinha, a encostar ao segundo poste um cruzamento rasteiro de João Aurélio da direita, encerrou as contas em 3-0 no penúltimo jogo particular dos leões na pré-época.

No caso do V. Guimarães, que terá feito o último encontro antes da Supertaça (e Josué lesionou-se no aquecimento, não se conhecendo em concreto o tipo de problema), notou-se uma evolução comparando com o encontro particular de domingo com o FC Porto, sobretudo na primeira parte. Mas, ainda assim, Pedro Martins salientou no final que “ainda há muitas coisas para melhorar” até esse jogo com o Benfica.

A lei de Murphy voltou a explicar a Jesus o problema dos três centrais e tudo o que podia correr mal, correu pior ainda. O futebol não é uma ciência exata, as palavras “nunca” e “sempre” estão completamente proibidas no dicionário do desporto, mas, com a época oficial à porta, a sistematização de um esquema tático que mexe tanto com todas as dinâmicas da equipa não consegue ganhar a corrida contra o tempo. E esse mesmo tempo deu razão: mesmo privado de um elemento na frente, por força da expulsão de Coates, o Sporting conseguiu ser melhor do que o V. Guimarães voltando ao seu habitat natural tático. Sendo que ter Gelson Martins, Bruno Fernandes e Podence em campo também ajuda, claro. E ter Mathieu, Coentrão e Bas Dost, que nem foram a Rio Maior, ainda mais.