Algum havia de ser o último. Neste caso, o último corpo a ser encontrado seria por imposição oficial e ocultação da verdade, porque houve muitos mais cadáveres a enlutar a tragédia. Nunca se soube ao certo quantos, talvez 700: mas a partir do morto número 441, a Censura proibiu os jornalistas de contabilizarem as mortes que chocaram o país durante as violentas cheias de 25 de novembro de 1967. A frase da Censura enviada para jornais e rádios a ordenar o fim da contagem de mortos havia de tornar-se num símbolo patético do regime: “A partir deste momento não morreu mais ninguém.”

Marcelo Rebelo de Sousa e a geração de jovens católicos e burgueses que naquela época estavam na universidade ficaram chocados com o que viram. Acudiram à tragédia, foram para os bairros de lata na periferia de Lisboa e descobriram um país miserável e que para eles estava oculto. O facto de ter vivido de perto esta experiência de uma catástrofe em ditadura — que aconteceu exatamente há 50 anos — explica em parte as palavras do Presidente da República esta semana, quando disse:

Em ditadura, lembro-me há 50 anos, era possível haver tragédias e nunca ninguém percebia bem qual eram os contornos das tragédias porque não havia um Ministério Público autónomo, juízes independentes e comunicação social livre. Em democracia há tudo isto”.

O Presidente da República fez estas declarações a propósito da discussão sobre a contagem dos mortos em Pedrógão Grande, sabendo bem como o regime e a Censura tinham procurado ocultar as mortes nas cheias de 1967. O jovem Marcelo esteve lá. E viveu o drama com intensidade. Diria depois numa entrevista ao Diário de Notícias que será publicada durante o fim-de-semana que “em democracia não há desaparecimento de vítimas, não há, como se contava de algumas ditaduras estrangeiras, aviões a lançar corpos no mar. Isso não existe”. Sobre a polémica do número de vítimas, o Presidente disse ainda ao DN que não lhe “passa pela cabeça que, quem quer que seja, a pretexto de desdramatizar, possa minimizar o apuramento cabal dos factos e das responsabilidades”. Se tal acontecesse seria “grave”.

Um jovem que ficou chocado com uma tragédia há 50 anos

Há 100 anos que não chovia tanto em tão pouco tempo. A periferia de Lisboa tinha crescido ao ritmo da construção sem regras dos novos “patos-bravos”. O país estava numa fase de grande crescimento económico, mas o desenvolvimento social era nulo. Havia bairros inteiros construídos em leito de cheia, gente miserável a viver em barracas nos bairros de lata, entretanto arrasadas pela força das águas. Havia famílias inteiras mortas na enxurrada. Muitos estudantes universitários mobilizaram-se então na ajuda às vítimas e alguns descobriram um país de miséria que desconheciam. Muitos deles fariam aqui uma inflexão à esquerda. O dilúvio conduziu os jovens indignados à política. Para Marcelo, foi apenas mais um passo.

Uma geração de dirigentes associativos estudantis e membros da Juventude Universitário Católica, como Pedro Roseta e a namorada Helena Salema (mais tarde Helena Roseta), trabalharam nos esforços de ajuda às famílias atingidas. O estudante de engenharia António Guterres, do Centro de Ação Social Universitária (CASU) era outro ativista.

Só as Associações de Estudantes e a Juventude Universitária Católica é que estavam no terreno a ajudar as pessoas a tirar a lama, a salvar-lhes os pertences, juntamente com alguns raros corpos de bombeiros e militares. Talvez isso tenha sido um dos primeiros momentos de mobilização política da minha geração“, testemunharia décadas depois Mariano Gago, futuro ministro do Ensino Superior do PS.

Isto aconteceu quando Marcelo Rebelo de Sousa e colegas, que também participaram na mobilização, estavam a iniciar o segundo ano da faculdade, um dos mais pesados e difíceis do curso de Direito. “Nesses dias vimos coisas terríveis”, contaria Pedro Roseta. Não que Marcelo desconhecesse a realidade dos miseráveis, mas a amplitude da desgraça mostrava a generalização da pobreza extrema nos subúrbios de Lisboa. O jovem Rebelo de Sousa foi com um grupo de voluntários católicos para a zona de Loures e de Odivelas e voltou impressionado com o somatório da pobreza suburbana, com o caos urbanístico e a falta dramática de infraestruturas básicas.

Mas o trabalho nas inundações acabaria por ter consequências no estudo. Na cadeira de Direito Administrativo, Marcello Caetano tinha distribuído temas para os estudantes apresentarem numa aula. A Marcelo Nuno coube a Legalidade e Mérito no Direito Administrativo, assunto sobre o qual devia dissertar nas primeiras aulas após as cheias. Tinha quase tudo preparado, mas abrandara o trabalho para acudir os desalojados. O melhor aluno da faculdade nunca tinha chegado a um dia decisivo tão pouco preparado e aflito. Quando Caetano chama Marcelo para fazer a apresentação, Braga de Macedo — o outro melhor aluno da turma — está sentado à direita do assistente Robin de Andrade, também à espera para apresentar o seu trabalho. Pede, então, a palavra para solicitar um adiamento da sua exposição, invocando não ter tido tempo para se preparar, pois estivera também a ajudar os desalojados, como tantos outros estudantes.

Marcello Caetano responde:

– Pois, provavelmente estiveram todos… – e ao ouvir a resposta do professor a Braga de Macedo, Marcelo Nuno encaminha-se de volta ao seu lugar, até a voz de Caetano voltar a ouvir-se.

– O senhor Rebelo de Sousa pensa que vai fazer o quê?

– Eu ia sentar-me…

– Não! O Sr. Rebelo de Sousa fala de pé.

Marcelo acaba por ser o único a fazer a exposição sem estar sentado. Fica a pensar que aquela é mais uma demonstração ostensiva de distanciamento do professor em relação a si. As cheias haviam de o marcar. Não as esqueceria. E seria mais um elemento a contribuir para o lento afastamento do jovem do regime, que havia de se manifestar de forma mais aguda uns anos depois.

Vítor Matos é autor da biografia “Marcelo Rebelo de Sousa” e este texto reproduz ou adapta parte do livro.