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A dois dias das eleições para a Assembleia Constituinte na Venezuela, marcadas pelo presidente Nicolás Maduro, acusa a oposição, com o intuito de reescrever a Constituição para se manter indefinidamente no poder em vez de sair em janeiro de 2019, data de término do seu mandato, sobe para 111 o número de mortos registados em confrontos no país desde abril.

Só nas últimas 48 horas, desde o início da greve geral convocada pela oposição, já morreram pelo menos sete manifestantes e um polícia. O mais novo foi um rapaz de 16 anos que estava hospitalizado desde que foi atingido a tiro na cabeça na passada quarta-feira. Diz o El País, o adolescente não estaria a participar nos protestos — proibidos entretanto por Maduro, sob ameaças de penas de prisão entre os 5 e os 10 anos –, mas terá sido apanhado no meio da confusão, por um grupo que atacou os manifestantes.

Entretanto, esta quinta-feira Washington deu ordem aos familiares dos funcionários da embaixada norte-americana em Caracas para abandonarem o país e aconselhou os cidadãos a não viajarem para o país sul-americano, destino a evitar “devido a distúrbios sociais, crimes violentos e à falta generalizada de alimentos e medicamentos”.

Venezuela: entre a polarização e o vazio de poder

Apesar da forte contestação popular, a oposição teme que a afluência às urnas no próximo domingo seja elevada e já denunciou, escreve o El Mundo, as alegadas pressões de que estão a ser alvo funcionários públicos e beneficiários de apoios sociais, para alimentação ou habitação: ou vão votar ou perdem tudo aquilo a que têm tido direito.

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De acordo com o jornal espanhol está montada “uma gigantesca operação de ameaça e chantagem” que, contabilizou a organização não-governamental Control Ciudadano, vai afetar (e levar a votar) 8 milhões de pessoas. “O medo funciona como política de Estado. Gente com fome e gente que pode perder o emprego, aí está um cenário que a oposição não previu”, comentou Rocío San Miguel, diretora da ONG.

“Quem não votar pode ter a certeza que está despedido. Não estamos a brincar”, terá dito durante esta semana, perante os trabalhadores, um dos responsáveis pela Petróleos de Venezuela, a maior empresa pública do país. Há dezenas de relatos do género, no trabalho e não só: há quem conte que foi visitado em casa por membros afetos ao governo que registam as identidades dos moradores, os instigam a votar e garantem até transporte no próximo domingo. Ao diário espanhol, uma mulher que por medo não quis ser identificada resumiu a situação assim: “Estamos a passar muita fome, eu quero que o Maduro se vá embora, mas…”.

Venezuela. Oposição inicia “tomada” do país durante três dias em protesto