“Uma Viagem Pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier”

Muito antes de se tornar no realizador de filmes como “O Juiz e o Assassino”, “Um Domingo no Campo”, “À Volta da Meia-Noite” ou “A Filha de D’Artagnan”, Bertrand Tavernier foi cinéfilo entusiasta, crítico de cinema exigente, assistente de realização de Jean-Pierre Melville e agente de imprensa de Georges de Beauregard, produtor de filmes de Godard, Chabrol, Varda, Rozier, Schoendorffer, Demy ou Rohmer. Tudo isto lhe dá um conhecimento e uma autoridade especiais para fazer um documentário de pouco mais de três horas sobre o cinema francês, em que foge a arrumações cronológicas e a preocupações de falar de tudo um pouco, puxa a brasa à sardinha das suas preferências (daí várias ausências ou menções apenas “en passant” – a Robert Bresson, por exemplo) e vai pontuando a narrativa com histórias e anedotas de bastidores e de rodagem, muitas das quais testemunhou.

Tavernier, que nasceu em Lyon e tem uma memória de elefante, parte das suas recordações de infância durante a II Guerra Mundial, e do primeiro filme que viu, um policial de Jacques Becker, para nos levar com ele até dos anos 30 aos 80 e ouvi-lo discorrer, sempre acrescentando as respectivas imagens. Lá estão cineastas e actores mais conhecidos e famosos, como os seus queridos Becker e Melville, Marcel Carné, Jean Renoir, Claude Sautet, Jean Vigo, François Truffaut, Julien Duvivier ou Eddie Constantine, mas também nomes como Jean Sacha e Edmond T. Gréville (ambos vindos da crítica como Tavernier) e compositores como o prematuramente desaparecido Henri Jaubert, reflexões sobre a singularidade da música no cinema francês dos anos 30 e 40 ou a história do “flirt” de Renoir com a Itália de Mussolini e o governo de Vichy, depois de ter glorificado a Frente Popular e antes de se expatriar para os EUA. Um documentário magistral, feito de memórias, saber e paixão. Nem damos pelo tempo a passar.

“London Town”

Shay (Daniel Huttlestone) é um adolescente na Inglaterra política e socialmente virada do avesso de finais dos anos 70, quando Margaret Thatcher se preparava para ser eleita e pôr o país em ordem, e a agitação também chegava à música, com o punk na ordem do dia e grupos como os Clash a tentar ajudar a fazer a revolução. A família de Shay não se livrou de ser afectada pelos acontecimentos, já que a mãe fugiu para Londres para viver numa comuna anarquista e ser cantora, deixando o marido, o filho e uma filha mais pequena á nora. Entre os apelos do pai para se portar bem, ajudá-lo no trabalho, tomar conta da irmã e não se meter em assados, e o chamado de uma Londres em polvorosa, da desempoeirada rapariga que conheceu no comboio, das saudades da mãe e da música dos Clash, o coração de Shay hesita. Este “London Town”, de Derrick Borte, é um simpático e convencional filme de iniciação à adolescência em tempos complicados, que tal como o seu jovem herói, tenta armar-se em rebelde mas acaba por entrar nos eixos. Jonathan Rhys Meyers interpreta Joe Strummer, que o argumento transforma em conselheiro e “anjo da guarda” de Shay.

“Baby Driver — Alta Velocidade”

O inglês Edgar Wright (“Zombies Party”, “Esquadrão de Província”, “The World’s End”) realizou nos EUA este “pastiche” muito pop e “cool” dos “heist movies” (ou filmes de assaltos”) com carburante de perseguições automóveis. Ansel Elgort interpreta a personagem do título, o jovem condutor de carros de uma quadrilha de assaltantes de Atlanta chefiada por Doc (Kevin Spacey), ao qual o liga uma dívida que não lhe permite deixar a vida de crime. Baby possui milhentos iPod, um para cada dia ou estado de espírito, e anda quase sempre de fones nos ouvidos, mas tem uma desculpa. Quando era miúdo, esteve envolvido num desastre de automóvel em que os pais morreram e ficou a sofrer de tinido, o que lhe causa um zumbido permanente nos ouvidos, e a música cobre-o. A nota original de “Baby Driver-Alta Velocidade” está no facto da música que Baby ouve ser a própria banda sonora do filme e fornecer-lhe o ritmo. São mais de 40 canções e melodias, que incluem temas de bandas tão esquecidas como os Golden Earring ou tão imorredoiras com os Jon Spencer Blues Explosion. Até o título da fita vem de uma canção de Simon & Garfunkel. “Baby Driver-Alta Velocidade” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.