Os bilhetes não eram propriamente baratos, mas o Estádio Olímpico de Londres, também batizado de Queen Elizabeth Olympic Park, tem qualquer coisa de mítico que parece servir de íman mesmo para aqueles que não liguem muito ao atletismo. Recuemos até 2012 e expliquemos o porquê dessa ligação. Exemplos: uma hora e meia antes do início da sessão vespertina nos Jogos Olímpicos, o recinto já estava cheio mesmo sabendo-se que era apenas para alinhar nas brincadeiras do speaker e ver nos ecrãs gigantes o aquecimento dos principais corredores. Só quem gosta entra mais cedo, mas cinco anos depois, no primeiro dia dos Campeonatos do Mundo, foi igual. E com os dois atletas favoritos: Usain Bolt e Mo Farah.

Se o jamaicano fez a primeira aparição para garantir a qualificação para as meias-finais dos 100 metros (todos os favoritos passaram, com o jamaicano Julien Forte a fazer o melhor tempo), o inglês começou com o peso de correr a primeira final da competição, dos 10.000 metros. E não desiludiu: com o público a apoiar como se fosse um jogo de futebol (e o West Ham agora joga neste recinto), o corredor de fundo ganhou mais uma medalha de ouro e deixou o Estádio em completo delírio.

Farah nunca quis assumir a frente da corrida, que teve um tempo rápido e o trio de quenianos a puxar para tentar ir desgastando aos poucos o britânico, mas bastou esticar duas vezes, aos 10.45 e perto dos 22 minutos, para deixar o aviso e puxar pelos 60.000 espetadores presentes neste primeiro dia dos Mundiais. Mais ou menos a 1.000 metros do final, como é normal, o britânico veio para a frente e foi o completo delírio em Londres na última volta, que tropeçou duas vezes, pisou fora na curva no meio da confusão mas conseguiu ser melhor na reta final. Acabou com o tempo de 26.49,51, conseguindo a décima vitória seguida entre 5.000 e 10.000 metros em Mundiais e Jogos. Impressionante!

Joshua Kiprui Cheptegei, do Uganda, ficou com a medalha de prata (26.49,94), ao passo que o queniano Paul Kipngetich Tanui garantiu o bronze (26.50,60). Uma última nota para os três etíopes, que conseguiram bater recordes do ano e melhores marcas pessoais mas ficaram longe do pódio: Jemal Yimer foi quinto com 26.56,11, Abadi Hadis ficou em sétimo com 26.59,19 e Andamlak Belihu quedou-se pela décima posição com 27.08,94.

Ainda assim, e vistas as repetições, a verdade é que Mo Farah, quando pisou fora da pista no meio da confusão da última volta, acabou por tropeçar nele próprio. E isso podia dar desqualificação…

Nascido na Somália, Mo Farah é a grande referência da Team GB que conseguiu resultados fantásticos nos Jogos de 2012 e não mais saiu do trilho dos bons resultados. Começou a dar nas vistas nas aulas de Educação Física, já em território inglês (emigrou aos oito anos), mas aquilo que mais queria era seguir a carreira de mecânico ou ser extremo da equipa de sempre, o Arsenal. Acabou por ficar no atletismo, tendo ganho o Campeonato da Europa de Juniores nos 5.000 metros em 2001 antes de começar a trabalhar com o australiano Craig Mottram. “Não quero ser o melhor britânico, quero ser o melhor dos melhores e o melhor do mundo”, explicou na altura.

Foi no corta-mato que se começou a destacar, foi na pista que iria consolidar o seu domínio. Vejamos o que tem feito nos 5.000 e 10.000 metros: nos Europeus de Barcelona em 2010, ganhou dois ouros; nos Mundiais de Daegu em 2011, ganhou um ouro e uma prata; nos Europeus de Helsínquia em 2012, ganhou um ouro; nos Jogos de Londres em 2012, ganhou dois ouros; nos Mundiais de Moscovo em 2013, ganhou dois ouros; nos Europeus de Zurique em 2014, ganhou dois outros; nos Mundiais de 2015 em Pequim, ganhou dois ouros; nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016, ganhou dois ouros. Contas feitas, Ibrahim Jeilan ganhou-lhe em 2011 nos 10.000 metros e abdicou dos 10.000 metros nos Europeus de 2012; o resto, foi tudo dele. No fundo, ele é o Bolt. Literalmente.

E este ano é um ano especial para o pequeno atleta que tem andado a usar chapéus que dizem “One Mo Mile”. Mo Farah já constitui há muito o melhor atleta britânico da atualidade. E, em paralelo, tem uma história de vida que caiu no goto dos britânicos, que simplesmente o idolatram. Exemplo? A onda de solidariedade que se criou no país quando o atleta foi uma vez confundido com um terrorista no aeroporto por ter o nome de Mohamed, algo que nem o facto de mostrar as medalhas de ouro ganhas nos Jogos Olímpicos conseguiu atenuar aos olhos dos seguranças (foi um dos principais críticos das medidas de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a esse respeito). E a recente onda de apoio às suspeitas lançadas sobre o fundista, no seguimento das acusações de doping atribuídas ao técnico Alberto Salazar. Ele correu mais “One Mo Mile” e ganhou mais uma medalha de ouro para delírio dos britânicos que encherem o recinto.

Mo Farah tem uma outra curiosidade de vida: conseguiu ganhar o jackpot máximo no programa televisivo The Cube. Mas não há nada como os feitos que conseguiu nas pistas, mesmo superando contrariedades como a queda durante a final dos 10.000 metros dos Jogos do Rio de Janeiro. E este tricampeonato mundial da distância. Sendo que pode ainda fazer nesta competição o tetracampeonato dos 5.000 metros…

O dia 1 dos portugueses nos Mundiais

Marta Pen foi a primeira atleta a participar nos Campeonatos do Mundo de Londres, mas acabou por falhar o apuramento para as meias-finais dos 1.500 metros, concluindo as eliminatórias só com o 32.º melhor tempo.

A atleta do Benfica que estuda fisioterapia e treina nos Estados Unidos ficou na oitava posição da segunda das três séries, com o tempo de 4.10,22, longe dos mínimos que tinha conseguido na Asics Furman Elite, na Universidade de Furman (4.05,71). O facto de ter competido na série mais lenta acabou por prejudicar a portuguesa de 24 anos, que quebrou apenas na última volta, depois de ter estado alguns momentos na frente.

A etíope Genzebe Dibaba terminou as eliminatórias com o melhor tempo (4.02,67), seguida da sul-africana Caster Semenya, que também correu na primeira série. A campeã olímpica Faith Chepngetich Kipyegon terminou com a terceira marca, vencendo a última série. A holandesa Sifan Hassan foi a melhor da série de Marta Pen, ficando com o 23.º registo à frente da medalha de bronze nos Jogos, a americana Jennifer Simpson.

Já David Lima terminou a segunda série das eliminatórias dos 100 metros no sétimo lugar com o tempo de 10,44, bem longe dos 10,05 que tinha feito em Madrid há três semanas. Dessa forma, o português falhou o apuramento para as meias-finais, ficando com o 37.º melhor registo em termos globais. A qualificação fechou nos 10,24 e integrou os principais favoritos ao triunfo final, casos de Usain Bolt, Yohan Blake, Justin Gatlin ou Christian Coleman. O melhor tempo foi para o jamaicano Julian Forte, que bateu o recorde pessoal (9.99).