Histórica, histórica e histórica. Esta foi mesmo uma noite histórica.

Histórica porque, dez anos depois, Justin Gatlin conseguiu vencer Usain Bolt numa final de Mundial ou de Jogos Olímpicos: depois de Tyson Gay ter ganho ao jamaicano na final do Campeonato do Mundo de 2007, em Osaka, só por uma vez o homem mais rápido de sempre não ganhou mas porque fez uma falsa partida (Daegu, 2011).

Histórica porque, 16 anos depois, os Estados Unidos voltaram a ganhar ouro e prata na final dos 100 metros com Justin Gatlin e Christian Coleman, repetindo o feito de Maurice Green e Bernard Williams.

Histórica porque, 24 anos depois, Justin Gatlin conseguiu quebrar um recorde que perdurava desde 1993 no currículo de Lindford Christie, do atleta mais velho de sempre a ganhar uma final dos 100 metros em Campeonatos do Mundo: o britânico tinha então 33 anos e 135 dias, o americano fez 35 em fevereiro.

Foi uma noite histórica mas, em paralelo, a vitória do vilão sobre o herói que impediu um final de sonho para aquele que foi, é e será o maior velocista de sempre. E as imagens antes e depois da prova disseram tudo: na apresentação dos oito finalistas, Gatlin foi vaiado e Bolt ovacionado; no final, o americano colocou o dedo na boca e mandou calar o público antes de se ajoelhar perante o jamaicano, que o abraçou e deu os parabéns. O recordista mundial deu mais um exemplo de elevação, daqueles troféus sem medalha que fazem dele uma lenda. Mas nem todos tiveram esse espírito de fair-play desportivo. Longe disso.

Durante alguns momentos, a página de Justin Gatlin na Wikipedia foi alvo de um ataque que alterou algumas das coisas. “Canalha mentiroso dopado” e “batoteiro dopado que devia ter sido banido para sempre” foram duas das frases que durante uns minutos estiveram online, sendo depois corrigidas. A coisa foi de tal forma à pressa que, em primeira instância, a ordem das medalhas (ouro-prata-bronze) nem estava a ser respeitada. Meia hora depois, tudo corrigido e devidamente arrumado. Mas percebeu-se que o passado de Gatlin não foi esquecido.

Em 2001, acusou anfetaminas num controlo anti-doping e foi castigado por dois anos, entretanto reduzidos para apenas um, apesar da justificação de um medicamente que tomava desde miúdos para o défice de atenção com hiperatividade; mais tarde, em 2006, teve mais um teste positivo, a par de oito atletas treinados por Trevor Graham. Desta vez, as culpas recaíram num produto aplicado pelo massagista que teria testosterona sem que o atleta soubesse. Apanhou oito anos de castigo, reduzidos para quatro, e voltou em 2010. E nunca mais teve problemas.

Apanha-me se puderes: alguém agarra o Relâmpago Bolt antes da despedida?

Mas há mais uma curiosidade sobre a noite de hoje: Christian Coleman, medalha de prata nos 100 metros, é o discípulo do mestre Gatlin numa ligação que começou pelo facto de ambos estarem ligados à Universidade de Tennessee. “Ele veio das corridas universitárias e passou pelo mesmo tipo de coisas que estou agora a viver, em relação ao que devo fazer com a minha carreira e à pressão de ser um dos melhores velocistas da universidade. Tem-me dado muitos conselhos”, admitiu. Hoje ganharam os dois.

Histórica, histórica e histórica. Esta foi mesmo uma noite histórica.