Godfrey Khotso Mokoena tinha sido o primeiro, último e único sul-africano a ganhar uma medalha no concurso de salto em comprimento em Campeonatos do Mundo, em 2009. O americano Dwight Phillips dominava por completo a especialidade, mas aos poucos o domínio foi começando a diversificar-se. E agora, de repente, há dois saltadores da África do Sul nas medalhas: Luvo Manyonga, depois da prata nos Jogos de 2016, venceu o ouro, Ruswahl Samaai conseguiu o bronze. Era improvável, mas aconteceu. Tal como a improvável história do novo campeão do mundo.

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Luvo Manyonga cresceu em Mbekweni, na periferia da Cidade do Cabo, e teve uma infância problemática: o pai era camionista e estava longos períodos fora de casa e a mãe, empregada de limpeza, mal ganhava para alimentar os três filhos. O atletismo acabou por ser uma espécie de refúgio das dificuldades, sendo que não demorou até mostrar talento para o salto em comprimento, começando a ser acompanhado pelo técnico Mario Smith.

Conseguiu de forma surpreendente um medalha de bronze nos Campeonatos Africanos de Juniores, a que se seguiu um ouro nos Campeonatos do Mundo de Juniores, em 2010. Alcançaria ainda outra vitória nos Jogos de África antes de fazer a estreia em Mundiais de seniores com uma quinta posição. Estava ali um futuro candidato ao domínio da especialidade e logo de um país que não tinha assim tanta tradição.

No entanto, e quando todos já apontavam Manyonga como possível candidato às medalhas nos Jogos de 2012, perdeu uma outra batalha: o vício em cristais de metanfetamina, muito habitual naquela zona do país e a preços acessíveis. Os prémios monetários que ia ganhando desapareciam com rapidez, o treinador começou a dar dinheiro à família para ele se focar apenas na competição, mas um controlo anti-doping positivo confirmou o que andava a esconder. Tudo começou com consumos recreativos em 2011, mas Manyonga tornou-se mesmo toxicodependente. E assumiu-o, quando inquirido sobre o resultado da análise.

Foi punido com dois anos de suspensão, entretanto atenuados para 18 meses em virtude do contexto especial do caso. Mais importante do que isso, aceitou ir para um programa de reabilitação. Ficou bem, mas voltou a viver um episódio trágico, em 2014: numa altura em que já estava a ser treinado por John McGrath, Mario Smith sofreu um acidente de viação quando ia visitar o ex-pupilo e acabou por morrer. Manyonga vacilou de novo com o desgosto. Ao ponto de receber em casa o presidente do Comité Olímpico da África do Sul.

Gideon Sam ficou chocado com as escassas condições de vida do atleta e comprometeu-se a ajudar o saltador, colocando-o no Centro de Alto Rendimento da Universidade de Pretória, algo que Manyonga aceitou de imediato para “fugir do diabo”. E McGrath deixou o alerta: “só tens duas hipóteses: ou te convertes num mito do atletismo ou vais morrer de overdose antes dos 30”. O tratamento de “choque” acabou por resultar.

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A meio de 2015, começou a trabalhar de novo a sério. No ano passado, conseguiu ficar no segundo lugar dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, apenas a um centímetro do vencedor Jeff Henderson; agora, sagrou-se campeão mundial com 8,48, à frente de Jarrion Lawson (8,44) e Samaai (8,32). O russo Aleksandr Menkov, que esteve em zona de medalhas até ao último salto, ficou na quarta posição (8,27).

Mas não quer ficar por aqui. Ainda tem algo para cumprir, que sempre disse desde que começou nas provas de salto em comprimento: “Nasci em 1991, o ano em que o Mike Powell bateu o recorde mundial. Isso é algo que ainda está à minha espera”.