Foi um dos momentos mais estranhos do terceiro dia de Mundiais: na terceira série dos 800 metros do heptatlo, Claudia Salman-Rath teve uma reta final fantástica para a vitória, a britânica Katarina Johnson-Thompson ganhou no sprint à cubana Yorgelis Rodríguez e só depois, uns dez segundos depois, apareceu Nafissatou Thiam. Foi a última da série e a 24.ª entre 28 participantes. E sorriu, sorriu. Para quem estava a acompanhar o percurso da belga e não tivesse ligado apenas naquele momento, era fácil de perceber: o avanço era tal que bastava terminar essa prova para se sagrar campeã mundial, depois do título olímpico do ano passado.

Com apenas 22 anos, a atleta com pai senegalês e mãe belga assumiu-se em definitivo como a supermulher. Depois da era Carolina Kluft, a sueca que dominou o heptatlo durante várias épocas (um ouro nos Jogos, três nos Mundiais e dois em Europeus), surgiu a britânica Jessica Ennis-Hill, que somava três títulos mundiais (o último após a exclusão por doping de Tatyana Chernova, sendo atribuído em 2016) e um olímpico, em 2012. No Rio de Janeiro, ‘Nafi’ conseguiu vencer a grande opositora, que em março deste ano interrompeu de novo a carreira de uma gravidez. Agora, no território sagrado de Ennis, confirmou um domínio que tem tudo para ser maior do que o de Kluft, a sua referência de sempre.

Com um pai ligado às artes (pintor e escultor) e uma mãe professora, Thiam virou-se para a geografia e está a tirar uma licenciatura na Universidade de Liège. O atletismo, fruto da estatura alta, começou antes, aos sete anos. E a partir do momento em que começou a competir a sério, teve o treinador que ainda agora mantém: Roger Lespagnard. Ganhou o heptatlo no Europeu de Juniores de 2013, fez bronze no Europeu de seniores de 2014, conseguiu a prata no pentatlo nos Europeus de Pista Coberta de 2015. O topo estava já ali e somou agora o terceiro ouro seguido, depois dos Jogos de 2016 e do pentatlo dos Europeus de Pista Coberta em 2017. Mas a única coisa que realmente gostava era poder continuar a passar despercebida na rua.

Em apenas dois dias, no Rio de Janeiro, passou de atleta ainda em ascensão com relativo destaque para a heroína que recebeu uma chamada do rei da Bélgica, Filipe, a dar os parabéns pela medalha de ouro. “A seguir ao Rio, toda a gente me disse que a minha vida ia mudar. Fiquei um pouco assustada, porque não queria que mudasse. Sou tímida, não gosto de ter os holofotes sobre mim. As pessoas abordam-me na rua e às vezes sinto-me desconfortável. Aquilo que mais aprecio é a minha privacidade. A minha vida privada, a minha família, o meu namorado. As pessoas querem conhecer-me, eu percebi isso, mas são coisas que quero guardar apenas para mim”, contou ao Telegraph.

A terceira de quatro irmãos (Mandela, Fama e Ibrahim) mantém-se fiel aos velhos hábitos e ainda continua a deslocar-se de comboio para a pista onde treina e para a Universidade onde estuda, apesar de já ter ganho um Audi A1. E continua a mostrar uma enorme capacidade de superação, como a que revelou quando, mesmo com dois ligamentos do ombro por um fio, conseguiu o terceiro lugar no lançamento do dardo nos Jogos. Mas ainda pensa como quando começou no atletismo e delirava por receber um pote de marmelada por vitória.

Agora, regressam os estudos. “Quero ter algo além do atletismo, até porque na Bélgica não é um desporto como o futebol, não existe tanto investimento. Gosto de estudar o clima, gosto da geomorfologia, de perceber como a terra é moldada pelos rios. Dentro da geografia, gosto de variados temas. É como o heptatlo, talvez por isso goste tanto”, explica. Mas já se começa a falar de Thiam como a atleta que será capaz de bater o recorde mundial de Jackie Joyner-Kersee (7.291), que já vem desde 1988, seis anos antes do nascimento da belga.

Em Londres, Thiam conseguiu 1.044 pontos nos 100 metros barreiras (11.º lugar), 1.171 no salto em altura (1.º lugar), 872 no peso (1.º lugar), 927 nos 200 metros (14.º lugar), 1.030 no salto em comprimento (1.º lugar), 936 no dardo (2.º lugar) e 804 nos 800 metros (24.º lugar), terminando com um total de 6.784 pontos, à frente da alemã Carolina Schäfer (6.696) e da holandesa Anouk Vetter (6.636). E recebeu através das redes sociais de inúmeras personalidades belgas, como Éden Hazard, incluindo também a Família Real.

Lecabela Quaresma também participou no concurso de heptatlo, acabando na 22.ª posição com 5.788 pontos e os seguintes resultados: 987 pontos nos 100 metros barreiras (21.º lugar), 867 no salto em altura (27.º lugar), 759 no lançamento do peso (15.º lugar), 852 nos 200 metros (26.º lugar), 813 no salto em comprimento (22.º lugar), 604 no lançamento do dardo (26.º lugar) e 906 nos 800 metros (11.º lugar).