Antes da final dos 100 metros, a IAAF colocou uma imagem curiosa que resumia aquilo que se passaria em dez segundos: a jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce era a campeã mundial em título e depois apareceu Elaine Thompson, a melhor do ano e a melhor das qualificações em 2017. Conclusão óbvia? Estava encontrada a vencedora. Mas se a queda de Usain Bolt perante Justin Gatlin e Christian Coleman foi grande, a de velocista foi ainda maior. Maior do que a queda que marcou, literalmente, do que a final feminina dos 100 metros.

Em 1987, Raymond Stewart conseguiu uma medalha de prata em Roma, apenas atrás de Carl Lewis; depois, foi preciso esperar até 2005 para ver um jamaicano no pódio dos 100 metros em Mundiais: Michael Frater, que perdeu para… Justin Gatlin. A exceção passou a regra e, daí para cá, houve sempre pelo menos um velocista do país no pódio: Asafa Powell em 2007; Bolt e Powell em 2009; Yohan Blake em 2011; Bolt e Nesta Carter em 2013; Bolt em 2015. Agora, a surpresa foi Bolt não ganhar, mas foi a sétima edição seguida com a Jamaica no pódio.

No setor feminino, e depois do fenómeno Merlene Ottey (duas pratas e dois bronzes em Mundiais), a prata de Veronica Campbell em 2005, onde perdeu para a americana Lauryn Williams, marcou uma trajetória idêntica aos homens: Campbell-Brown ganhou em 2007; Shelly-Ann Fraser-Pryce e Kerron Stewart destacaram-se em 2011; Campbell-Brown foi prata em 2011; Fraser-Pryce ganhou em 2013 e 2015. Agora, e pela primeira vez desde 2005, as jamaicanas não estiveram no pódio. Mesmo partido com Thompson como grande favorita.

Numa disputa ao milímetro e que terminou com uma queda de Tori Bowie no seguimento da última passada antes da meta, a americana venceu com 10.85, contra 10.86 da marfinense Marie-Josée Ta Lou (Dafne Schippers ganhou o bronze com 10.96, mas falaremos daqui a uns dias nela após a final dos 200 metros). As duas primeiras classificadas conseguiram os melhores tempos do ano, mas esta não foi uma final para recordar em comparação com as últimas: Shelly-Ann Fraser-Pryce fez 10.76 em 2015, 10.71 em 2013 e 10.73 em 2009, mais rápido do que agora. Também no setor masculino, Gatlin ganhou a final com o pior tempo em Mundiais desde 2003 (em 2005 tinha ganho com um tempo melhor).

Aqui entronca um dos pontos de análise mais frequente nos comentários aos Mundiais de Londres: a equipa americana, com Gatlin, Coleman e Bowie à cabeça, teve mérito na forma como conseguiu quebrar o domínio jamaicano na velocidade, mas a maior diferença foi o rendimento de nomes como Bolt e Thompson, que falharam claramente os objetivos. E daqui sai a maior dúvida para os próximos Mundiais de Doha, em 2019: como conseguirá a Jamaica renovar os seus quadros para recuperar o domínio dos 100 metros?

O rei Bolt abdica sem coroa mas deixa um legado: Gatlin vence final dos 100 metros dos Mundiais

A grande vencedora: Tori Bowie

Aos 26 anos, Frentorish Bowie conseguiu a maior vitória individual da carreira, depois do bronze nos Mundiais de 2015 e da prata nos Jogos de 2016 (onde ganhou ainda o ouro nos 4×100 metros e o bronze nos 200 metros). Antiga aluna da Universidade de Mississippi do Sul, pela qual foi campeã universitária ao Ar Livre e em Pista Coberta em 2011, começou a correr como profissional em 2013 e tem vindo a subir degrau até ao atual topo mundial, com a particularidade de ter colocado de lado o salto em comprimento há menos de cinco anos, uma especialidade onde também se destacava. “Precisava de uma mudança e pensei que seria uma boa ideia focar-me na corrida”, explicou.

“Sabia que tinha de dar o máximo na linha de meta. O mergulho não sabe tão bem agora, mas já me tinha salvo noutras provas no passado. Por alguma razão, perdi o controlo do meu corpo. Pensava que tinha ganho uma medalha, mas não fazia ideia que tinha mesmo ganho. Foi uma das melhores noites da minha vida”, comentou Bowie, que também jogou muitos anos basquetebol, no final de uma prova que lhe valeu algumas feridas no corpo pela queda.

A grande derrotada: Elaine Thompson

Para Elaine Thompson, a frustração foi grande. Muito grande mesmo, tendo em conta que tinha sido a primeira mulher a ganhar a medalha de ouro nos 100 e nos 200 metros dos Jogos Olímpicos e que, teoricamente, não tinha a concorrência da principal rival, a compatriota Shelly-Ann Fraser-Pryce, o ‘Rocket de Bolso’ (alcunha por causa da altura, 1.52m) que está fora de competição em 2017 porque vai ser mãe.

A jamaicana terminou na quinta posição a final e, apesar de alguns problemas físicos (tendão de Aquiles) que afetaram a preparação para os Mundiais de Londres, assumiu a derrota sem desculpas com a garantia que quer recuperar o estatuto de número 1: “Tenho de dar muito crédito a estas três raparigas, parabéns para elas. Não sei o que aconteceu, mesmo. Só queria ter uma boa partida, mas elas correram bem. Não existem desculpas para a minha corrida, que foi uma pena, mas ao menos estou bem. Sinto-me muito desapontada mas não é o fim do mundo”, destacou.