A relação entre José Mourinho e Cristiano Ronaldo teve genericamente quatro fases: admiração, quando o técnico estava no Chelsea e o avançado era referência no Manchester United; respeito, quando conviveram durante três anos no balneário do Real Madrid; picardia, a partir dos últimos meses juntos no Santiago Bernabéu e nos anos seguintes; e acalmia, a partir do último verão. O treinador elogiou o profissionalismo e a capacidade de trabalho do campeão europeu, o jogador admitiu um dia voltar a trabalhar com o Special One. “Tivemos problemas, como tens com a tua mulher e com o teu filho. Faz parte da vida, mas há que saber perdoar”, resumiu o madeirense, numa espécie de ponto final a tudo o que se tinha escrito sobre ambos.

Mourinho e Ronaldo encontram-se hoje numa fase diferente das carreiras. Dizia-se que o técnico tinha perdido o seu ‘mojo’, que não ganhava como antigamente, mas sacou três títulos na primeira temporada em Old Trafford: Supertaça, Taça da Liga e Liga Europa. Dizia-se que o avançado já não tinha as mesmas faculdades de antigamente, mas continua a sacar Bolas de Ouro (a quinta está a caminho), Ligas dos Campeões e Campeonatos. Hoje, às 19h45, medem forças como adversários (ainda não está confirmado que Ronaldo jogue, mas Zidane deixou pelo menos o aviso nesse sentido). E contra clubes marcantes nas suas carreiras.

Mou e uma história de 15 anos que nunca teve Reais vitórias

A ligação do treinador português com o Real Madrid começou há 15 anos, quando os merengues foram uma espécie de batismo de fogo no primeiro encontro europeu no comando do FC Porto: contra uma equipa orientada por Vicente del Bosque que tinha nomes como Figo, Zidane, Roberto Carlos, Morientes ou McManaman, foi Santiago Solari que decidiu o encontro com um golo a Vítor Baía no Santiago Bernabéu a oito minutos do final. Uma semana depois, novo triunfo dos espanhóis no Dragão por 2-1, na segunda fase da Liga dos Campeões, com golos na primeira meia hora de Solari (outra vez), Helguera e Capucho.

José Mourinho na Europa. 15 anos, 4 títulos. É bom? Não, é Special para One

Dois anos depois, em 2003/04, após o triunfo do FC Porto na Taça UEFA, Mourinho voltou a reencontrar o Real Madrid na fase de grupos da Champions: derrota por 3-1 em casa (Costinha; Solari, Helguera e Zidane), empate a uma bola em Espanha (Solari e Derlei). Os merengues passaram no primeiro lugar, mas seriam os dragões a ganhar a competição ao vencer na final o Mónaco, que eliminara os espanhóis nos quartos-de-final. O sucesso europeu acabou por ser um trampolim para a primeira aventura do português no estrangeiro, no comando do Chelsea. Chegaria depois ao Inter, onde ganhou a Champions em 2010. Até aqui, não mais voltou a defrontar o Real Madrid, mas cruzou-se com Ronaldo nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões em 2009, quando os italianos perderam com o Manchester United por 2-0 em Old Trafford… com um golo do português.

Mourinho assinou então pelo Real Madrid, explicando que “qualquer treinador que não treinasse o clube teria sempre uma falha na carreira”. Em três temporadas, onde esteve também com Zinedine Zidane, então conselheiro de Florentino Pérez, ganhou um Campeonato, uma Taça e uma Supertaça, chegando por três vezes às meias-finais da Liga dos Campeões. “Quando cheguei, o Real, uma equipa com aquela história incrível, nem era cabeça-de-série. Quando saí, tinha sido campeão de Espanha e foi a três meias-finais seguidas. Saí com a tranquilidade de ter dado tudo e de não ter mais para dar. Saí tranquilo, sem vontade de lavar roupa suja. Saí com paz de espírito, para uma vida nova”, comentou antes da Supertaça Europeia. No Chelsea e no Manchester United, o português não voltou a encontrar o Real. Até hoje.

Marcar ao antigo clube? Um clássico, by Cristiano Ronaldo

Quando José Mourinho defrontou pela primeira vez o Real Madrid, em 2002, Cristiano Ronaldo andava ainda pela equipa B do Sporting. Na temporada seguinte, de 2002/03, fez a estreia com Laszlo Bölöni, e em agosto de 2003, brilhou tanto na inauguração do novo Estádio José Alvalade que rumou poucos dias depois para Manchester, onde teve na figura de Alex Ferguson uma espécie de segundo pai a quem deve muito na carreira.

(Mais um) recorde de Cristiano Ronaldo ao pormenor

Nos anos em Old Trafford, o avançado transformou-se no melhor jogador do Mundo e não teve piedade nas ocasiões em que defrontou a antiga equipa: em 2007/08, marcou o golo da vitória dos red devils em Alvalade e, no jogo em Inglaterra, marcou de livre direto o 2-1 em cima do final da partida da fase de grupos da Liga dos Campeões (na última temporada, pelo Real Madrid, marcou um golo no Bernabéu ao Sporting).

Ronaldo saiu para o Real Madrid em 2009, naquela que foi na altura a maior transferência de sempre no futebol. Daí para cá, encontrou uma vez em termos oficiais o Manchester United e, claro, não perdoou: nos 16-avos-de-final da Liga dos Campeões de 2012/13, marcou no empate a um em Espanha na primeira mão e no triunfo dos merengues por 2-1 em Old Trafford. Aqui, como em Alvalade pedindo desculpa aos adeptos. Que aplaudiram. Foi a única vez que se cruzaram. E, desde esse momento, Ronaldo foi campeão europeu de clubes, algo que só tinha acontecido uma vez no Manchester United, em 2014, 2016 e 2017. Ainda não se sabe ao certo de Ronaldo será opção esta noite, porque começou a treinar há poucos dias com o restante grupo, mas Zidane deixou a ameaça… e trata-se de Ronaldo, que não se cansa de ganhar títulos.