Começaram a tratá-lo por Máquina quando chegou a Portugal, mas a revista Dragões prefere colocá-lo como Hércules de Alicante. Raúl Alarcón era um dos principais favoritos ao segundo lugar da Volta a Portugal, mas aquela vitória logo na primeira etapa com chegada a Setúbal foi o sinal que a Senhora da Graça e a passagem pela Torre viriam a confirmar: o número 2 da W52 FC Porto passou a número 1, sempre com a ajuda do número 3, Amaro Antunes, que esteve com ele em todos os resultados decisivos nesta edição de 2017. Aos 31 anos, o espanhol que está a ter a melhor temporada da carreira conseguiu ganhar a prova onde sonhava apenas participar.

Alarcón chegou muito cedo lá acima, desceu mesmo até ao fundo, mas ressurgiu como um verdadeiro campeão numa modalidade que cresceu consigo: lá em casa, o ciclismo sempre foi levado a sério. Para o menino Raúl, que ainda assim gostava mais de futebol no início, começou por brincadeira por “culpa” do pai e do primo Miguel mas, aos 12 anos, passou a ser algo mais do que isso, quando integrou as escolas da equipa da sua terra, o Club Ciclista de Sax. Ganhou alguns troféus relevantes a nível nacional durante a formação (como a Volta a Madrid ou o segundo lugar nos Campeonatos Nacionais Sub-19), começou como amador nos seniores e, aos 20 anos, entrou no profissionalismo pela porta grande. A maior mesmo. E tendo nessa altura duas grandes referências: Pablo Lastras, pela combatividade e pela pessoa que era, e Johan Museeuw.

Ao serviço da Saunier Duval-Prodir, um projeto espanhol de respeito que entrava em provas do World Tour, teve a oportunidade de participar em provas como a Paris-Roubaix, a Rainha das Clássicas, que já teve vencedores como Eddy Merckx, Bernard Hinault ou, mais recentemente, Tom Boonen ou Fabian Cancellara (acabou no 69.º lugar em 2007 e na 101.ª posição no ano seguinte). Fez ainda a Volta ao Qatar, à Polónia e à Suíça, sendo companheiro de equipa de nomes como David Millar, Riccardo Riccò ou Juan José Cobo. Sonhava ir às principais competições internacionais, como o Tour, a Vuelta ou o Giro, mas a equipa acabou de forma repentina e teve de voltar a baixar um degrau, passando para a Comunidad Valenciana.

Tive muitos momentos delicados na minha carreira, posso dizer que foi um pouco como uma montanha russa. Nunca quis deixar o ciclismo, é a minha vida. Mas a verdade é que, quando estamos numa equipa amadora depois de baixar da profissional, era inevitável pensar noutras soluções. Contei com o apoio de muita gente”, recordou à revista Dragões

Em 2011, é convidado por Carlos Pereira para reforçar a Barbot, que viria a transformar-se na Efapel. Juntou-se a nomes como Rui Sousa, Filipe Cardoso, Sérgio Ribeiro ou César Fonte. Esteve na Volta ao Algarve (61.º), na Volta a Castela e Leão (68.º), na Volta às Astúrias (12.º), na Volta ao Alentejo (67.º) e no GP Internacional de Torres Vedras Joaquim Agostinho (34.º), onde ganhou a última etapa. Terminou nesse ano a Volta a Portugal na 41.ª posição (já tinha participado em algumas etapas da prova em 2007), ajudando às vitórias em etapas de Sérgio Ribeiro e ao terceiro lugar de Rui Sousa, numa edição ganha pelo agora companheiro Ricardo Mestre (então no Clube de Ciclismo de Tavira).

Posted by Raúl Alarcón on Wednesday, July 6, 2011

No ano seguinte, em que a Efapel tinha uma equipa de sonho com David Blanco, o seu atual diretor desportivo Nuno Ribeiro, Filipe Cardoso, Sérgio Ribeiro, Rui Sousa ou César Fonte, teve resultados um pouco mais modestos (o melhor foi o 14.º lugar na classificação da montanha da Volta ao Algarve), não foi à Volta e saiu para o Louletano, onde conseguiria o primeiro grande feito na Volta a Portugal em bicicleta.

Com o antigo companheiro Sérgio Ribeiro e o atual colega (e vencedor da Volta em 2016) Rui Vinhas, passou de forma discreta pela Volta ao Algarve, pela Volta às Astúrias, pela Volta ao Alentejo e pelo GP Internacional de Torres Vedras Joaquim Agostinho para chegar no pico à Volta a Portugal, onde venceu a etapa da Serra da Estrela com um minuto e meio de avanço sobre o grupo perseguidor que tinha, entre outros nomes, Alejandro Marque (que ganharia essa edição) e Gustavo Veloso. Acabou no 54.º lugar da geral, conseguindo ainda a sétima posição na classificação da montanha e a 11.ª na camisola dos pontos.

Posted by Raúl Alarcón on Tuesday, September 3, 2013

No ano seguinte, com os reforços Hernâni Broco e Vicente de Mateos, teve uma prestação mais modesta na Volta a Portugal, acabando no 72.º posto (Sandro Silva, no décimo lugar, e Hernâni Broco, em 12.º, foram os melhores do Louletano) uma edição onde o melhor que a equipa conseguiu foi um terceiro lugar em etapa pelo espanhol de Mateos. No final do ano, não chegou a acordo para renovar contrato com o conjunto algarvio. Como contou ao O Jogo, ficou desempregado e, para ganhar algum dinheiro, voltou a ajudar um amigo na sua oficina a lavar carros. Até que surgiu o projeto da W52 Quinta da Lixa, a partir do ano passado W52 FC Porto (e que chegou a estar acordado ser W52… Sporting).

Apresentação Equipas77ª Volta Portugal Bicicleta – Photo By João Fonseca

Posted by Raúl Alarcón on Wednesday, July 29, 2015

Logo em 2015, depois de um início de temporada para rolar e sem resultados de maior na Volta a Castela e Leão, na Volta a Madrid e no GP Internacional de Torres Vedras Joaquim Agostinho, fechou a Volta a Portugal como o quarto melhor da equipa na 13.ª posição, atrás do vencedor Gustavo Veloso, de Delio Fernández (quarto) e de António Carvalho (sexto). A acabar o ano, conseguiu um quarto lugar no Tour do Rio de Janeiro, que também foi ganho por Veloso.

No último ano, começou a deixar sinais para aquilo que se passaria em 2017: arrebatou a camisola da montanha na Volta a Castela e Leão e na Volta às Astúrias, foi terceiro no GP Internacional de Torres Vedras Joaquim Agostinho ganhando a camisola verde dos pontos (além da etapa entre Palhagueiras e Torres Vedras) e conseguiu a quarta posição na Volta a Portugal (além da quarta na montanha e da oitava nos pontos), atrás do surpreendente vencedor Rui Vinhas e de Gustavo Veloso (segundo). Concluiu também três etapas entre o top-5: foi segundo no contrarrelógio entre Vila Franca de Xira e Lisboa, terceiro na subida da Guarda e quarto na Senhora da Graça.

Agora, aos 31 anos feitos em março, teve o melhor ano da carreira: depois das presenças na Volta à Comunidade de Valência e na Volta ao Algarve, conseguiu um desempenho fantástico na Volta às Astúrias, com dois segundos lugares e uma vitória em etapas que lhe conferiu a camisola amarela no final (além do triunfo na dos pontos e da vice-liderança na montanha). Tão ou mais relevante, bateu alguns dos nomes mais consagrados do pelotão internacional como Nairo Quintana, colombiano que já venceu o Giro e a Vuelta e fez duas vezes segundo lugar no Tour. Mas não ficou por aqui: na Volta a Madrid, onde também ganhou uma etapa, terminou na segunda posição com o mesmo tempo do vencedor Óscar Sevilha. Antes da Volta, ganhou o GP Jornal de Notícias e foi quarto no GP das Beiras e Serra da Estrela.

Ainda penso nisso. Trabalhei muito para chegar à Volta às Astúrias nas melhores condições e não falhar com todos os que me apoiam. Apostaram em mim para tentar ganhar uma volta internacional tão importante como esta e não lhes podia falhar. Era algo que procurava há muito tempo. Tive esta oportunidade e não podia desaproveitá-la, mesmo sabendo que estava lá o Nairo Quintana. Todos me disseram que podia conseguir e que para isso bastava acreditar nas minhas capacidades”, destacou à revista do clube

Posted by Raúl Alarcón on Wednesday, June 28, 2017

A 79.ª Volta a Portugal teve o melhor Alarcón de sempre, com o espanhol, que se não fosse ciclista gostava de ser professor de educação física, a acabar todas as etapas à exceção do prólogo nos dez primeiros, conseguindo mesmo ganhar na chegada a Setúbal e no alto da Senhora da Graça, antes da segunda posição na Guarda após passagem pela Torre. Terminou mesmo com a amarela, sucedendo ao companheiro de quarto em 2017, Rui Vinhas. E conseguiu um triunfo na prova onde um dos amigos mais próximos, David Blanco, é recordista com cinco vitórias e outro, Gustavo Veloso, ganhou duas vezes.

Agora sim, percebe-se o porquê da alcunha de Máquina quando chegou ao nosso país. Uma máquina que, nem mesmo quando teve de ir lavar carros para ganhar algum dinheiro quando estava desempregado há três anos, abrandou a vontade de brilhar na Volta a Portugal. Cumpriu o sonho de ganhar na Senhora da Graça, cumpriu o sonho de ganhar a Volta. E com uma grande ajuda de Amaro Antunes, o único corredor da W52 FC Porto com quem nunca tinha partilhado equipa.