Nome: “A Revolta dos Anjos”
Autor: Anatole France
Editor: Cavalo de Ferro
Páginas: 240
Preço: 15,98€

No último romance de Anatole France, escrito em 1914 e agora re-editado pela Cavalo de Ferro, encontramos dois tipos de personagens: franceses e anjos. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, a diferença entre estes dois grupos não se encontra numa qualquer divindade ou virtude suprema dos anjos, por oposição à pecaminosa e fraca condição humana (ou à ainda mais pecaminosa e fraca condição francesa). Arcádio, o anjo da guarda de Maurício d’Esparvieu que procura na biblioteca da família do seu protegido as respostas que o Paraíso não lhe conseguira dar, explica-nos isso mesmo quando corrige Maurício (e o leitor do romance), dizendo-lhe que aquilo que o impede de compreender a realidade de Arcádio “é o facto de não considerares a minha natureza, que é livre, activa e móvel, como a de todos os anjos, e de só levares em conta as graças e as felicidades de que me julgas cumulado” (página 58).

Anatole France representará então os anjos caídos como personagens tão complexas como os homens, como homens eternos que preparam na Terra uma revolução contra Iavé (ou, nos termos do romance, contra o demiurgo Ialdabaoth). Ao fazê-lo, o escritor exporá o ridículo das descrições canónicas que fazem dos anjos seres alados de harpas na mão e que, ao caírem no Inferno, passam automaticamente a falar com uma “voz rouca, que range como uma fechadura enferrujada” (página 91), como sugere o abade Patouille. Pelo contrário, os anjos de France guardarão as asas em armários da cozinha onde vão lentamente perdendo a penugem.

A diferença fundamental entre anjos e homens não está, portanto, na natureza de ambos. O que distingue anjos de franceses, em A Revolta dos Anjos, parece ser exclusivamente a importância que uns e outros dão a Deus. Ao contrário dos anjos, os habitantes da França do início do século passado nunca parecem realmente interessados em compreender a natureza de Deus. Entre os homens, a questão divina nunca merece mais consideração do que aquela que Maurício lhe dá, um católico que mantinha sempre a sua fé “intacta, porque nada o levou a tocar nela. Não se deu ao cuidado de a examinar em qualquer ponto, como também não se preocupou em considerar atentamente as ideias morais que reinavam na sociedade a que pertencia. Aceitava-as tal como lhe tinham sido dadas” (página 11). Maurício, tal como todas as personagens humanas do romance, “não procurava conhecer as causas do que existe e vivia tranquilo no mundo das aparências. Sem negar as verdades eternas, perseguia ao sabor dos seus desejos as formas vãs” (página 43).

Para os homens, a fé não só nunca é levada minimamente a sério como o seu único papel parece o de ser uma máscara que permita aparentar um certo aprumo sem com isso alterar o que quer que seja no comportamento dos crentes. É esta ideia de fé como regra de convivência e de boas maneiras que leva a que encontremos a certa altura Maurício a tentar convencer Arcádio da existência de Deus numa ceia com as amantes de ambos. É, aliás, esta visão da fé que é ridicularizada por Anatole France na cena do primeiro encontro entre Maurício e Arcádio. Maurício está envolvido sexualmente com a mulher do conselheiro de tribunal quando irrompe no quarto Arcádio. Ao ver a figura que Deus lhe atribuíra como anjo da guarda para sua protecção e auxílio na fé, a primeira reacção de Maurício não é nem de espanto diante da presença do divino, nem de arrependimento pelos seus pecados, nem sequer de dúvida quanto à realidade da visão. Ao dirigir-se a Arcádio pela primeira vez e ao ouvir ser anunciada a natureza do visitante, Maurício é apenas capaz de dizer: “É possível (…) Mas o que você não é, com certeza, é um homem bem-educado.”

Assim sendo, serão sempre os anjos o cerne do romance e o ponto de apoio para as ideias principais que France quererá manifestar. Os anjos caídos apresentarão Deus como uma figura violenta que chegou ao poder através de mentiras e manipulação, e que subsiste no cargo apenas através de uma constante opressão exercida sobre os restantes seres divinos, não sendo, portanto, nem omnipotente, nem omnisciente (nem perfeito, como evidentemente decorre do que acima se expõe).

Ao descrever Deus desta maneira, Arcádio irá reflectir acerca da eficácia de uma eventual guerra celeste, uma vez que não é claro se a solução estaria numa simples troca de posição entre Deus e o Diabo. É a esta questão que Arcádio alude ao perguntar-se se “o mal está na natureza das coisas ou na maneira como são dispostas?” (página 169). Esta reflexão de Arcádio levanta um problema político, muito maior do que o religioso que aqui é introduzido. Mais do que a natureza de Deus, Anatole France está a colocar em causa a natureza do poder político, sendo que a verdadeira dúvida não é se Satã se comportaria como Deus caso ocupasse o Seu trono, mas antes se os atritos dos anjos rebeldes com Ialdabaoth resultam exclusivamente da pessoa do governante ou se é a própria natureza do cargo que transforma o governante nesta criatura monstruosa. Assim, e de acordo com esta última hipótese, serão sempre materialmente irrelevantes as revoluções que modifiquem o nome de quem governa. Será precisamente a essa questão que Anatole France procurará dar resposta nas últimas páginas do livro, ao narrar o sonho em que Satã sai vencedor de um duelo com Deus.

João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.