Josep Lluís Trapero tem sido o rosto da polícia catalã depois do atentado em Barcelona. Mas, esta quinta-feira, viu-se envolvido numa polémica com a comunicação social.

Tudo aconteceu esta segunda-feira, durante uma conferência de imprensa em que o major respondia a uma pergunta em catalão. Perante o desagrado de um jornalista, Trapero interrompeu o que estava a dizer para explicar, de forma seca e em castelhano: “Se me fazem uma pergunta em catalão, eu respondo em catalão. Se me fazem [a pergunta] em castelhano, eu respondo em castelhano”, afirmou.

O jornalista não gostou da resposta e levantou-se para abandonar a conferência de imprensa. Atitude que não incomodou o responsável da polícia catalã, que reagiu metade em catalão, metade em castelhano: “Bueno pues molt bé, pues adiós” (“Bem então tudo bem, adeus”).

A polémica rapidamente se tornou viral nas redes sociais, com várias pessoas a defenderem Trapero. Tanto que a frase se torno trending topic no Twitter em Espanha, com direito a hashtag (#BuenoPuesMoltBéPuesAdiós) e a vários mêmes com a cara do major e a (já) mítica frase.

https://twitter.com/CristianTZR/status/899707061390499841?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=http%3A%2F%2Fwww.lavanguardia.com%2Fvida%2F20170821%2F43730477206%2Fbueno-pues-molt-be-pos-adios-josep-lluis-trapero-major-mossos-atentado-barcelona.html

https://twitter.com/AitorMayo_com/status/899838950369624065?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=http%3A%2F%2Fwww.elperiodico.com%2Fes%2Fpolitica%2F20170822%2Fbuenopuesmoltbepuesadios-frase-viral-trapero-6237271

Houve mesmo que tivesse feito a seguinte sugestão para o referendo na Catalunha: em vez do clássico “sim” e “não”, pôr “Bueno pues molt bé, pues adiós” e “não”.

E houve quem já arranjasse ideias originais para t-shirts.

https://twitter.com/txusfermo/status/899713721915891712?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=http%3A%2F%2Fwww.lavanguardia.com%2Fvida%2F20170821%2F43730477206%2Fbueno-pues-molt-be-pos-adios-josep-lluis-trapero-major-mossos-atentado-barcelona.html

Josep Lluís Trapero, o major austero…

Trapero foi o homem escolhido para comunicar as principais informações relativamente aos atentados da semana passada em Barcelona e Cambrils e que fizeram até ao momento 15 mortos.

Nas conferências de imprensa surge sempre de rosto fechado, com voz firme a seca, e sem grandes rodeios. O El País e o La Vanguardia, aliás, descrevem-no como sendo teimoso, seguro de si mesmo, duro, mas sempre disponível para qualquer agente, trabalhador, ambicioso e desconfiado. Mas há mais neste ex-fumador, que adora cozinhar e que não liga nada a futebol.

Filho de um taxista de Valladolid, cresceu na cidade catalã de Santa Coloma de Gramanet e é o mais velho de três filhos. Ser polícia não era um dos seus sonhos de infância. Preferia a biologia e os animais e chegou estudar biologia. Mas a verdade é que desde cedo mostrou alguma aptidão para as funções policiais, tendo mesmo feito parte um grupo de jovens do seu bairro no qual estava encarregue de vigiar tudo o que lá acontecia.

A entrada para a polícia catalã, refere o La Vanguardia, deu-se depois de conhecer um agente — um Mosso — em 1989. Nem um ano depois de entrar na academia já estava no departamento de denúncias em Gerona e depois Vielha. Foi o início de uma carreira que conta já com 26 anos. Segundo o site do Governo da Catalunha, passou ainda pelo Centro Penitencario Quatre Camins e foi responsável pelo Grupo de Investigação na região de Gerona e de Barcelona. Foi aqui que criou as suas maiores amizades, que mantém até aos dias de hoje, refere o La Vanguardia.

Em 2008, tornou-se chefe da Divisão de Investigação Criminal (División de Investigación Criminal) e um depois chega a subchefe da Comissão Geral de Investigação Criminal (Comisaría General de Investigación Criminal). Três anos mais tarde, passa a ocupar o cargo de chefe. Foi enquanto subchefe que tentou mudar a imagem que os catalães tinham da postura da polícia perante os manifestantes. Sob o seu comando, os agentes passaram a investir menos sobre a multidão e começaram a investigar e recolher provas, lê-se no El País.

… que não resiste a canções de amor

Trapero, atualmente com 51 anos, formou-se em Direito na Universitat Oberta de Barcelona em 2006 e tem ainda uma pós-graduação em Direção e Gestão da Segurança Pública. Especialista em criminalidade informática, branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, foi professor na Universidade Autónoma de Barcelona e na Universidade de Barcelona. Em 2011, coordenou o primeiro seminário de Crime Organizado no Instituto de Segurança Pública da Catalunha.

Chegou ao topo da carreira em abril deste ano, ao ser nomeado para o cargo de major da polícia catalã pelo Presidente do governo regional da Catalunha, Carles Puigdemont — nomeação criticada por alguns sindicatos por falta de independência. A verdade é que Trapero, que nunca esteve associado a qualquer partido político, já era responsável dos Mossos desde 2013, altura em que o cargo de major não existia — o cargo foi extinto há dez anos e foi retomado este ano por Puigdemont para dar um novo alento aos Mossos enquanto polícia da Catalunha.

Mas o seu mau feitio não se sobrepõe totalmente ao lado mais relaxado e carismático deste major — sim, pode não parecer, mas ele existe. Prova disso foi o episódio no jantar de gala dos Mossos em abril de 2015. Nessa noite, o major, fardado, pegou na guitarra e cantou “Paraules d’Amor”, de Joan Manuel Serrat, à frente de tudo e todos, lê-se no El País.

Cerca de um ano mais tarde, a situação volta a repetir-se, mas num contexto ainda mais descontraído. Desta vez, o major estava de férias em Cadaqués e surge de chapéu, com uma camisa de estilo havaiano e acompanhado de diversas personalidades da sociedade catalã, nomeadamente Carles Puigdemont. A escritora e jornalista Pilar Rahola partilhou o momento na sua conta de Twitter.

Ninguém diria que o homem dos briefings sobre os atentados na Catalunha é o mesmo do vídeo, mas é. O mesmo que se tornou viral por causa de um “Bueno pues molt bé, pues adiós”.