A administração do grupo Impresa comunicou esta quarta-feira a intenção de encerrar a revista Visão, avança o jornal Público. Isso, sabe o Observador, acontecerá caso não seja possível vender o título até ao final do ano.

À exceção da SIC e do semanário Expresso, todas as outras publicações detidas pelo grupo estão em risco: a Caras, a Caras Decoração, a Activa, a Visão Júnior, a Visão História, a Exame, a Exame Informática, a Telenovelas, a TV Mais, a Blitz, o Courier Internacional e o Jornal de Letras.

Foi referida a possibilidade da revista ser vendida fora do pacote, considerando que existem potenciais interessados. De acordo com o Dinheiro Vivo haverá três potenciais compradores para os títulos da Impresa na área das revistas.

A redação da revista Visão esteve esta quarta-feira reunida em plenário, onde foi informada dos planos da administração. O conselho de redação da revista lamentou a “profunda alteração estratégica” da Impresa numa altura de “recuperação assinalável” e solidarizou-se com a direção editorial da revista para “procurar soluções que viabilizem o futuro da publicação”. Numa nota enviada à redacção da Visão a que a Lusa teve acesso, o CR lamentou “as incertezas” que esta decisão da administração da Impresa “acarreta sobre o futuro quase imediato das revistas do grupo”.

Neste sentido, “os membros eleitos do CR entendem ser seu dever solidarizar-se com a direcção editorial da Visão na sua tentativa de procurar soluções que viabilizem o futuro da publicação”, que conta já com 24 anos de existência e que “é líder no seu segmento de mercado”. O órgão que representa os jornalistas da Visão disse ainda acreditar que “esta equipa editorial continuará a dar provas da qualidade e profissionalismo”.

Um comunicado enviado pelo presidente executivo Francisco Pedro Pinto Balsemão, filho do presidente e fundador do grupo, esclarece que a Impresa “procederá a um reposicionamento estratégico da sua atividade” que irá focar-se nas “componentes do audiovisual e do digital”, em detrimento do “setor das revistas”.

A prioridade passa por continuar a melhorar a situação financeira do Grupo, assegurando a sua sustentabilidade económica, e logo a sua independência editorial”, pode ler-se ainda.

Os diretores das revistas afetadas foram informados da decisão esta quarta-feira, numa reunião com a administração do grupo Impresa, presidido por Francisco Balsemão. Na reunião, ficou também a saber-se que o Expresso e a SIC se mantêm no grupo Impresa.

Emissão de dívida cancelada pressiona

Este anúncio surge semanas depois de a Impresa ter cancelado uma emissão obrigacionista de 35 milhões de euros depois de ter adiado por duas vezes o prazo da operação. Estes títulos destinavam-se a investidores institucionais, mas não houve procura suficiente para avançar com a emissão cujo valor inicialmente previsto era até mais elevado.

Na altura, a empresa justificou o cancelamento, “atendendo às alterações recentes no sector dos media e ao impacto resultante no sentimento da comunidade de investidores”. Era uma referência ao negócio de compra da Media Capital pela Altice, anunciado nessa semana, que levou até a uma valorização das ações no setor dos media. Na altura, a Impresa valorizou à boleia da expetativa de qual poderia ser a resposta da NOS à Altice. Alguns analistas admitiram uma aproximação da operadora de telecomunicações da Sonae e de Isabel dos Santos à Impresa, mas sublinhando que o apetite pelos conteúdos estaria focado no setor audiovisual, ou seja, na SIC.

O principal objetivo da nova emissão de obrigações a realizar este ano era reembolsar os títulos que vencem já em 2018, pelo que a sua não concretização veio trazer mais pressão à liquidez da Impresa que avança agora com uma reestruturação da área das revistas, aquela que tem perdido mais receitas.

O grupo Impresa teve uma diminuição de cerca de 7,6% das receitas, no segundo trimestre deste ano, em relação ao período homólogo de 2016. As receitas de publicidade tiveram também uma queda de cerca de 11,9% — o que contribuiu para a diminuição das receitas. No primeiro semestre o cenário tinha sido semelhante. Num comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, a Impresa revelou que as receitas consolidadas caíram 5,5% nesse período.

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) já reagiu e manifestou “preocupação com a agitação no grupo Impresa”. A Direção do SJ solicitou uma reunião urgente com o presidente do Conselho de Administração do grupo “para que sejam prestados esclarecimentos”.

O SJ lamenta que, neste quadro, o Conselho de Administração não tenha em conta a situação laboral de cerca de duas centenas de trabalhadores”, pode ler-se no comunicado publicado no site.

Francisco Pedro Pinto Balsemão, filho do presidente e fundador do grupo, foi nomeado presidente executivo, no início do ano passado, substituindo Pedro Norton.

A Impresa tinha no final do ano um passivo bancário de cerca de 160 milhões de euros. O maior credor era o BPI, agora liderado pelo espanhol CaixaBank, com financiamentos correntes e não correntes de 85,3 milhões de euros, seguido do Novo Banco e Haitong (ex-BESI), via uma empréstimo obrigacionista. O BPI detinha no final de 2016 uma participação qualificada de 4% na holding de Pinto Balsemão.