A violência da catástrofe que atingiu o estado do Texas, nos Estados Unidos, está a ser comparada à tragédia que se abateu sobre a região de New Orleans, durante a passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005, naquele que foi um dos maiores desastres naturais em território norte-americano.

Ainda que tenham algumas semelhanças, os dois monstros — e o impacto que estão a causar — são essencialmente diferentes. Na verdade, os Estados Unidos nunca enfrentaram um fenómeno como este: nenhuma tempestade atingiu o território norte-americano com a força do Harvey. Mais: nunca um fenómeno desta natureza permaneceu tanto tempo estacionado na mesma região. Os ventos chegaram a atingir os 130 quilómetros por hora e, em algumas zonas da região, já caíram mais de 76 centímetros de chuva. Nos próximos dias, são esperados mais 60 centímetros de chuva — mais do que Houston recebe durante todo o ano. Os especialistas são perentórios: “Este é um evento sem precedentes na história dos Estados Unidos“.

Comparativamente, a tempestade que se seguiu ao Katrina trouxe 15 a 23 centímetros de chuva num período de 48 horas — um valor muito inferior ao do Harvey.

Mas neste ponto o tecido socioeconómico das regiões, a natureza do território, as infraestruturas existentes e os meios de resposta disponíveis desempenham um papel fundamental: dificilmente o Harvey poderá provocar tantos danos e vítimas mortais como o Katrina.

Centro de abrigo durante o Katrina (MANDEL NGAN/AFP/Getty Images)

As diferenças entre New Orleans e Houston

Como nota detalhadamente o The New York Times, que se propõe a comparar os dois fenómenos, a pequena cidade de New Orleans, com pouco mais de 455 mil habitantes, encontra-se, em grande parte, abaixo do nível da água do mar e está protegida por um sistema de diques. Foram precisamente as falhas deste sistema e o surpreendente aumento do nível da água do mar que precipitaram a calamidade.

Houston, em contrapartida, é uma cidade de maiores dimensões, com cerca de 2 milhões de habitantes. Está localizada a baixa altitude, mas, ainda assim, acima do nível do mar. Também tem um sistema de diques mas, aparentemente, está equipada com infraestruturas capazes de dar resposta a cenários de cheias intensas.

A estratégia de evacuação

Uma das falhas mais apontadas às autoridades norte-americanas durante o Katrina — e foram várias — prendia-se com a estratégia de evacuação definida. As ordens para a evacuação de New Orleans e da região circundante foram dadas dias antes de o furacão atingir a região, como lembra a BBC, num artigo cujo título é sugestivo: “Harvey vs. Katrina: As lições de New Orleans foram aprendidas?”.

Com ordem para deixarem as suas casas, centenas de milhares de pessoas procuraram fugir rapidamente. Muitos dos residentes mais pobres, e sem meios próprios para se deslocarem, foram encaminhados para o estádio Superdome, que não estava preparado para receber — e manter — essas pessoas. Alguns ficaram mesmo retidos em casa. O fluxo de pessoas em toda a região, o pânico natural que se gerou, os tumultos e a violência que se registaram numa região afetada pela pobreza e pelos problemas de segregação racial, provocaram o caos e o congestionamento nos acessos a cidade.

Em Houston, no entanto, a decisão foi diferente: os responsáveis políticos não recomendaram a evacuação da cidade e recomendaram às pessoas que permanecessem nas suas habitações. O objetivo foi evitar o mesmo caos que se registou em New Orleans, mas, com o agravar da situação, a estratégia pode mudar drasticamente. Por exemplo, as autoridades do condado de Brazoria, na zona sul de Houston, pediram aos habitantes para que abandonassem depois de o dique de Columbia Lakes ter cedido. Os próximos dias serão decisivos.

Centro de abrigo durante o Harvey (Joe Raedle/Getty Images)

As respostas deficientes

Como recorda o mesmo The New York Times, a tempestade Katrina deslocou mais de 1 milhão de pessoas e danificou ou destruiu 275 mil casas. A BBC acrescenta outro detalhe: o estádio Superdom foi escolhido como o centro de abrigo de último recurso para os muito que não conseguiram deixar a cidade. O vento destruiu o telhado e o campo ficou rapidamente inundado.

Além disso, os mantimentos foram mal calculados e desapareceram rapidamente. Registaram-se vários episódios de violência e um caso de suicídio no interior do abrigo. Os relatos davam contam de situações de desespero total, à medida que as condições se deterioravam. Para a história ficaram as fotografias de milhares de cidadãos afro-americanos entregues, praticamente, à sua própria sorte.

Os responsáveis políticos não escaparam naturalmente às críticas, com acusações de falta de capacidade para gerir a crise e má preparação à mistura. O então Presidente norte-americano, George W. Bush, foi um dos principais visados, depois de, num momento inicial, se ter limitado a sobrevoar a área afetada.

Em Houston, as autoridades locais parecem, aparentemente, melhor preparadas. Há dezenas de abrigos por todo o Estado do Texas, água e comida suficientes e milhares de funcionários deslocados para o local, como dão conta as reportagens que vão sendo produzidas a partir do local. Donald Trump, por sua vez, fez questão de se deslocar até à região, embora a forma como se apresentou já tenha motivado críticas.

Os números

O furacão Katrina provocou cerca de 100 mil milhões de dólares e causou 1833 mortes, como lembra a CNN, numa investigação onde compila vários dados sobre a catástrofe. A região New Orleans nunca mais recuperou o número de habitantes que registava antes da catástrofe que se abateu.

Em Houston, as autoridades registaram até ao momento 15 vítimas mortais a lamentar, embora assumam que o número de mortos registados pode aumentar nos próximos dias. Alguns especialistas acreditam que o Harvey que assola o Texas poderá resultar em danos superiores a 100 mil milhões de dólares.