João Lourenço, o candidato que os resultados provisórios indicam como vencedor das eleições gerais angolanas, recusa ser associado ao soviético Mikhail Gorbachev, que promoveu a implosão da União Soviética ao tentar reformar o sistema comunista, mas assume que vai trabalhar para chegar ao nível de Deng Xiaoping, líder comunista que liderou a China entre 1978 e 1992 e abriu as portas do mercado chinês ao capitalismo.

Nas suas primeiras declarações a um órgão de comunicação internacional, o futuro Presidente de Angola foi claro:

Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas claro Gorbachev não, Deng Xiaoping sim.”

Enquanto José Eduardo dos Santos teve como missão pacificar e reconstruir um país destruído pela guerra civil entre MPLA e Unita, João Lourenço assume que o seu principal trabalho será “consolidar a economia de mercado”. “O passo do marxismo-leninismo em direção a uma democracia multipartidária ou economia de mercado começou em 1991”, afirmou o futuro Presidente de Angola, acrescentando que esse é “um processo que não acontece da noite para o dia. Vamos consolidá-lo e respeitar as bases da economia de mercado”.

Durante uma visita particular a Madrid, João Lourenço afirmou em entrevista à agência espanhola EFE que o novo Governo vai “estudar a privatização das empresas estatais que são pesos mortos para o país”. A aposta do novo Executivo será o “desenvolvimento económico e social” de Angola, diz o antigo militar que quer atrair o investimento estrangeiro para quatro áreas fundamentais: indústria agrícola, indústria mineral, pesca e turismo.

“Vamos trabalhar para criar bom ambiente de negócios e vamos modificar a nossa política de vistos porque até agora foi um impedimento”, concluiu.

João Lourenço explica que Angola ainda “pode sobreviver” à crise económica se fizer uso dos “recursos além do petróleo”.

Lourenço promete ainda combater a corrupção — um dos motivos que, em conjunto com a crise económica, tem sido apontada pelos analistas como a causa da descida do resultado do MPLA face às últimas eleições. “Estamos conscientes que existe. No MPLA reconhecemos, sabemos que é dos maiores males que sofre a nossa sociedade. O que procuramos, sabemos que vai ser difícil, é chegar a níveis não vamos dizer aceitáveis, mas que existem em termos internacionais. E estamos decididos a lutar essa batalha”, afirmou.

Os dados provisórios da Comissão Nacional Eleitoral de Angola dão ao candidato do MPLA uma vitória com 61% dos votos.