As Nações Unidas acusaram esta quarta-feira as forças de segurança da Venezuela de violarem, de forma extensa e deliberada, os direitos humanos dos seus cidadãos na resposta aos protestos contra o governo, ações que indicam “uma política para reprimir a divergência política e instigar o medo”. “A democracia está quase morta” na Venezuela, diz o responsável do relatório.

Num relatório devastador para a atuação do governo venezuelano, a ONU diz que há relatos credíveis e consistentes de vítimas e testemunhas que confirmam que as forças armadas terão respondido aos protestos com violência excessiva, com o intuito de acabar com as manifestações e com a oposição à atuação do governo e para instigar o medo.

A ONU instou Nicolás Maduro a libertar os manifestantes, que considera terem sido detidos de forma arbitrária, e que as autoridades estão a julgar, ilegalmente, em tribunais militares.

De acordo com as Nações Unidas, mais de mil pessoas ainda se encontravam sob custódia das forças de segurança venezuelanas no final do mês passado, de um total de mais de 5.000 que terão sido detidos durante os protestos.

Os detidos estarão ainda a ser alvo de maus tratos na prisão e, em alguns casos, até mesmo a serem torturados.

Mais de 120 pessoas morreram desde abril, nas contas das Nações Unidas, das quais 73 terão sido mortas pela polícia. A responsabilidade pelas restantes 51 ainda não foi apurada.

Parte destas mortes terão sido provocadas pela forma especialmente violenta como as forças de segurança tentaram fazer dispersar os manifestantes, usando gás lacrimogéneo e gás pimenta, motociclos, canhões de água e até munições reais.

“O uso excessivo da força, de forma sistemática e generalizada, durante as manifestações e a detenção arbitrária de manifestantes e alegados opositores políticos indica que estes não foram atos ilegais ou cometidos à revelia individualmente por responsáveis” do governo e das forças de segurança, diz o relatório.

Na apresentação do relatório, esta quarta-feira em Genebra, o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein, foi ainda mais longe e diz que existe um “grande risco de a situação na Venezuela piorar ainda mais” e diz que a democracia no país está praticamente morta.

“Ao longo do tempo temos assistido a uma erosão da vida democrática na Venezuela. (…) Deve estar praticamente morta, se é que ainda está viva, é a forma como olharia para a situação”, disse.