O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse esta quarta-feira que “falar não é a solução” para resolução do conflito com a Coreia do Norte, e que os Estados Unidos têm vindo a dialogar e a pagar pela “extorsão” norte-coreana há 25 anos.

A escalada da tensão entre os Estados Unidos, os seus aliados no Pacífico e a Coreia do Norte continua. Depois do lançamento de um míssil que sobrevoou o Japão pela Coreia do Norte, da resposta indignada dos Estados Unidos e da comunidade internacional, e da resposta da Coreia do Norte avisando que este míssil era só o começo, Trump respondeu com uma mensagem forte para o regime de Pyongyang.

Segundo o presidente dos Estados Unidos, o diálogo de nada tem servido nos últimos 25 anos e o país que lidera tem vindo a pagar em dinheiro pelo que considera ser “extorsão” do regime norte-coreano.

A posição de Donald Trump não é, mais uma vez, a dos seus aliados. Japão e Coreia do Sul pediram uma resposta forte à comunidade internacional, através do endurecimento das sanções, mas como forma de obrigar a Coreia do Norte a sentar-se à mesa das negociações.

Donald Trump dá indicações que não está disposto a negociar, o que pode levar à subida dos níveis de alerta na Península da Coreia.

Guerra já esteve iminente

A referência temporal de Donald Trump faz recuar à governação de Bill Clinton e à transição para o poder de Kim Jong-il, quando os Estados Unidos e a Coreia do Norte estiveram muito perto de entrar em guerra.

Bill Clinton ameaçou a Coreia do Norte com um ataque preventivo caso o regime estivesse a desenvolver armamento nuclear, e chegou a pedir ao Pentágono para desenvolver um plano para este ataque, plano esse que tem sido revisto todos os anos para que as forças norte-americanas estejam preparadas para tal eventualidade.

No entanto, o plano, que previa um ataque preventivo contra o reator experimental de Yongbyon, estimava que a perda de vidas fosse superior a 100 mil só no ataque inicial. Este número subiria para pelo menos um milhão no confronto imediatamente seguinte. Isto numa altura em que a Coreia do Norte ainda não dispunha de armamento nuclear.

O acordo, que viria a ser assinado em outubro de 1994, só foi desbloqueado depois de uma visita do ex-presidente Jimmy Carter a Pyongyang para negociar diretamente com o líder e fundador do regime Kim il-sung.

Kim il-sung acabaria por morrer de ataque cardíaco na véspera da assinatura do protocolo. As negociações ficariam a cargo do sucessor já escolhido, o seu filho Kim Jong-il.

Vergada pela maior crise alimentar da sua história, que começou precisamente nesse ano fruto das más decisões económicas e de condições climatéricas especialmente adversas, a Coreia do Norte aceitou renunciar ao seu programa nuclear e aceitou a ajuda norte-americana, o grande arqui-inimigo do regime.

O acordo previa que a Coreia do Norte recebesse ajuda humanitária dos Estados Unidos e apoio para a reconversão dos seus reatores para a produção de energia limpa.

No entanto, muito do apoio de que Donald Trump fala agora, e que ficou acordado em 1994, acabou por não chegar à Coreia do Norte. O Congresso norte-americano, especialmente do lado republicano, bloqueou a maior parte do financiamento necessário para o cumprimento das promessas americanas.

Em simultâneo, Pyongyang foi desenvolvimento o seu programa nuclear em segredo e aumentou os obstáculos às inspeções dos inspetores da Agência Internacional de Energia, até os expulsar em definitivo.

O acordo acabaria por cair em definitivo poucos meses depois do famoso discurso de George W. Bush em outubro de 2002, já na presidência dos EUA, no qual a Coreia do Norte foi colocada no grupo de países acusados de financiar o terrorismo internacional, o “eixo do mal”. Pyongyang acabou por abandonar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.