Acordar cedo ao sábado de manhã, correr para o sofá, ligar a TV, ficar a olhar para a mira técnica até que ela desse lugar à emissão, eram algo comum às crianças portuguesas nos anos 80 e 90, uma tradição matinal que se estendia por quase todo o mundo ocidental. Tudo em nome das gloriosas horas quase ininterruptas de desenhos animados.

A lógica das séries com as quais crescemos como Thundercats, MASK, My Little Pony e He-Man and the Masters of the Universe tinham, geralmente, um ponto comum: uma visão pueril e maniqueísta entre o bem e o mal, onde cada um dos lados surgia quase sempre injustificado e como estereótipos bem demarcados.

Agents of Mayhem, desenvolvido pelo estúdio norte-americano Volition, quis adaptar estas memórias a um videojogo, com uma linguagem e violência “para adultos”. À partida parecia uma ideia perfeita para apelar à nostalgia das nossas gerações, mas o resultado acabou por ficar manchado pela necessidade de se afastarem das suas próprias criações anteriores. Mas já lá vamos.

Volition é sinónimo de Saints Row, a série de videojogos com um tom adulto que ao longo dos seus quatro títulos se tornou num sucesso comercial estrondoso. No ritmo crescente de se tornarem progressivamente um GTA mais violento mas mais humorístico, Saints Row tem como protagonistas um gangue urbano que na quarta iteração da série chega à Casa Branca, onde o seu Presidente-ex-gangster é um herói de ação que combate as invasões alienígenas com canhões e com armas tão ridículas e exageradas como a espingarda de dubstep que coloca os inimigos a dançar.

Foi com este misto entre testosterona, violência, exagero e algum surrealismo que Saints Row foi conquistando mercado. O anúncio de Agents of Mayhem, passado no mesmo universo de Saints Row criou expectativas em torno da aplicação da fórmula algo louca a um jogo sobre uma equipa de agentes especiais ao estilo de G.I. Joe.

Esta expectativa foi aumentada pela excelente direção artística de Agents of Mayhem, que mistura sequências de vídeo em cel-shading com traço negro bem carregado, aproximando-o da animação tradicional, e as próprias sequências de jogo com personagens e ambientes mais cartoonizados.

A ideia de termos até 12 agentes disponíveis, todos com capacidades e personalidades distintas, levar três de cada vez para as missões e ir trocando entre eles reformulava a tónica de Saints Row, mantendo na mesma o mundo aberto e a abordagem à ação-aventura.

Mas então o que falhou? A excessiva necessidade da Volition de criar uma charneira entre Saints Row e Agents of Mayhem, deixando pelo caminho o humor bem conseguido e surrealmente exagerado, substituído por uma abordagem mais pueril e vazia.

A esterilidade do ambiente e das missões com uma fórmula repetida até à exaustão leva-nos rapidamente ao enfado, e nem a espetacularidade dos momentos de ação conseguem compensar o clima monótono em que Agents of Mayhem rapidamente cai, ficando a milhas dos seus antecessores que conseguiam manter um bom ritmo e um conteúdo coeso ao longo de todo o jogo. Nesse aspeto, o objetivo da Volition de cortar com Saints Row foi perfeitamente conseguido. Mas sacrificou tudo o que faziam de forma exímia para o conseguir.

Agents of Mayhem tem um elenco interessante e divertido, uma construção visual e narrativa que nos leva para as nossas séries de animação favoritas, mas pouco mais do que isso. A diversão dos momentos de ação esgotam-se na sua própria repetição e deixam-nos saudades do quão divertidos e loucos eram os jogos de Saints Row, com a Volition a tentar fazer-nos esquecer do seu passado recente e a lembrar-nos constantemente que não é nada disso que queremos.

Ricardo Correia, Rubber Chicken