O aviso à comunicação social chegou logo assim que, terminado o jantar, lhe foi passado o microfone: “Pedia-lhes que resistissem à tentação de retirar da minha intervenção críticas mais ou menos subliminares ao meu partido [PS], ou ao partido que, não sendo o meu, tão amavelmente me convidou para estar aqui [PSD]”. É que criticar o PS, partido no qual milita desde novo e do qual foi líder da JS, seria “deslealdade”, e criticar o PSD seria “tremenda grosseria”, explicou. Afinal, foi o convidado de um dos jantares da Universidade de Verão do PSD, que decorre até domingo em Castelo de Vide.

Mas Sérgio Sousa Pinto, deputado e dirigente socialista que se demitiu do secretariado nacional depois da formação da “geringonça”, não resistiu a a criticar, perante uma plateia de aspirantes a políticos, o discurso anti-partidos e, nomeadamente, a abertura dos partidos ao exterior, nomeadamente através de diretas e primárias, método através do qual António Costa foi eleito secretário-geral do PS e candidato a primeiro-ministro. Segundo Sérgio Sousa Pinto esses modelos não são mais do que uma “confissão da nulidade dos partidos”.

“Se os partidos são nulos para escolher dirigentes e candidatos, então para quê militar neles?”, perguntou a uma plateia de jovens sociais-democratas.

Defendendo que “sem partidos não há democracia”, o deputado e ex-líder da JS também não resistiu a ironizar sobre as “companhias exóticas” que hoje em dia rodeiam o PS, leia-se PCP e Bloco de Esquerda, ou até a criticar os modelos de sociedade que “estão a conduzir países a situações chocantes do ponto de vista dos direitos e liberdades”. No jantar desta quinta-feira na Universidade de Verão do PSD, o convidado socialista deixou passar críticas históricas aos comunistas, por um lado, e, por outro, elogios, igualmente históricos, aos sociais-democratas, partido com o qual o PS “fez um esforço de consensos” que tornou possível a constituição de uma democracia do tipo ocidental no pós-25 de abril.

Numa intervenção curta e ao seu estilo literário-filosófico, Sérgio Sousa Pinto fez as delícias dos “alunos” da Universidade de Verão do PSD ao falar sobre o futuro dos partidos, defendendo o papel das juventudes partidárias — que são “a esperança” — e a importância da liberdade e da independência na política. Porque, disse na despedida, “um deputado não é um cano que liga o eleitor à instituição, é um homem livre que obedece à sua consciência, e essa liberdade é que é o segredo do exercício democrático”.

Críticas às primárias e diretas. “Um partido que não consegue escolher os seus próprios dirigentes faz confissão de nulidade”

Foi assim, através de primárias (abertura do partido a simpatizantes) que António Costa foi eleito como candidato do PS a primeiro-ministro, primeiro passo para aquilo que viria a servir de base para a constituição da inédita aliança entre os partidos da esquerda. Para o deputado socialista, esses mecanismos de abertura dos partidos ao exterior, o alargamento a simpatizantes, evidenciam a “nulidade” de um partido que não consegue “escolher os seus próprios dirigentes”.

Os partidos “são os pilares da única forma de democracia conhecida, e não podem podem sacrificar tudo ao democratismo interno, ao basismo, nem ao democratismo externo, como primárias, diretas e formas de abertura ao exterior que não contribuem para a regeneração institucional dos partidos, antes representam uma rendição, uma confissão da sua nulidade”, disse na sua intervenção inicial, que levou preparada num texto escrito.

Ou seja, resumiu, questionando: “Se são nulos para escolher dirigentes e candidatos, então para quê militar neles?”. Atualmente PS e PSD elegem os respetivos líderes através de eleições diretas (entre militantes, da base ao topo), mas o PS optou por recorrer a primárias (abertas a simpatizantes) para escolher o seu candidato a primeiro-ministro, tendo aí António Costa destronado António José Seguro.

Para Sérgio Sousa Pinto esse modelo de escolha dos candidatos e dirigentes não só é uma reforma que “enfraquece os partidos”, tal como enfraquece a ideia de que “as personalidades não filiadas num partido são especialmente independentes”. Segundo o deputado socialista, a independência tem de estar no exercício político-partidário.

E foi por isso que deixou um conselho aos jovens aspirantes a políticos: “Um dos fenómenos que vos deve inquietar é o PC — e não, não é o Partido Comunista, é o Politicamente Correto — um temível adversário da liberdade”, disse. E explicou depois como não existe qualquer “tensão” no facto de ter ido, na qualidade de socialista, a uma iniciativa do PSD. “Quando vou a uma reunião do meu partido, ou quando venho aqui a uma reunião do vosso partido, somos todos cidadãos que estamos numa organização de cidadãos a que se dá o nome de partido político, portanto não existe qualquer tensão”, disse, sublinhando que a “tensão do politicamente correto é que deve ser uma causa” da geração mais nova.

Apelo aos consensos e à humildade democrática

“Sá Carneiro e Mário Soares foram heróis da democracia”, disse, como interlúdio para uma das perguntas mais difíceis da noite. Questionado por um jovem “aluno” sobre o porquê de não ser “do PSD”, Sérgio Sousa Pinto verbalizou a atrapalhação: “Como é que respondo sem ser desagradável para com o meu anfitrião? Bem, vamos lá fazer mais um exercício”. E arrancou para uma retrospetiva histórica que realçou a importância dos “consensos” ao centro e do governo do bloco central que permitiu, disse, “converter Portugal numa democracia do tipo ocidental” numa altura em que os níveis de analfabetismo da população eram enormes.

Naquela altura, no início da década de 1970, havia, disse, a ideia de que “os bolcheviques vencem sempre”, mas a verdade é que isso acabou por não acontecer no pós-revolução de Abril, numa altura em que “éramos um país muito atrasado e com 20% de analfabetismo”. E porquê? “Conseguimos afirmar uma democracia do tipo ocidental por causa do esforço dos consensos que foi possível estabelecer e das regras de jogo que foi possível respeitar entre os dois grandes pilares desta II República”, afirmou, referindo-se a PS e PSD.

Com mais ou menos “avanços e recuos”, mais ou menos “perturbações” ou “chagas” sobre o funcionamento do sistema, foi graças a estes dois partidos que Portugal tem hoje uma “paz política, paz social e um convívio são e democrático”, disse, já depois de ter sublinhado que o PCP “acabou por se converter num partido do sistema que joga lealmente o jogo democrático como os demais”. Ainda assim, “foi o PSD e o PS que puseram de pé uma democracia viável onde estamos todos em paz uns com os outros”.

E recordando algumas histórias do seu próprio passado — quando achava que o governo do bloco central era “muito conservador” — Sérgio Sousa Pinto assumiu que é preciso “amadurecer”, e até “governar”, para ganhar “humildade democrática”.

“Não há nada como governar para ter uma certa humildade perante as dificuldades, porque é fácil dizer que todos os problemas foram feitos pelos adversários. Mas lidar com eles sem insultar os nossos adversários políticos é uma grande lição de humildade democrática”, disse.

No final, depois de já ter lamentado que a política dos dias de hoje prioriza qualidades que diz serem secundárias — “como a astúcia, a manha, a imagem ou as competências de comunicação” –, Sérgio Sousa Pinto não resistiu a mais um conselho aos jovens sociais-democratas, com cheiro a consensos ao centro: “Os vossos adversários não são vossos inimigos, e nunca percam uma boa ocasião de discutir com um socialista”, disse, entre fortes aplausos.