Quando eram quase três da manhã e percebemos que a decisão de Adrien ficaria mesmo adiada mais um par de horas, começámos a fazer um exercício sobre a última vez em que um jogador do Sporting tinha ficado “pendurado” no último dia de mercado. Não era a melhor hora para puxar pela cabeça, mas a ajuda dos livrinhos de apontamentos deu um precioso contributo nessa missão. E aquilo que nos veio à memória não eram propriamente boas notícias para Adrien: ainda se lembra do que se passou com Yannick Djaló em 2011?

No último dia de mercado, o avançado esteve a ser negociado com os franceses do Nice. Muito tempo. Demasiado tempo. E entretanto os ponteiros do relógio não pararam e a Federação Francesa de Futebol não aceitou o registo da transferência internacional. Seguiu-se um recurso para a FIFA, recusado. E o apelo ao Tribunal Arbitral de Desporto, recusado. Ou seja, chegámos ao início de outubro e Yannick ia ficar sem jogar pelo menos até janeiro de 2012.

Aqui o leitor deverá estar a pensar o óbvio: ‘Ok, ficou aquele tempo todo sem jogar mas depois foi integrado pelo Nice’. Errado. E também não voltou ao Sporting. Ou seja, o internacional português ficou sem clube enquanto a ex-equipa e a futura-ex-equipa partiram para uma luta em tribunal: os leões argumentavam que a venda tinha ficado fechada, pelo que deviam receber os quatro milhões de euros; os gauleses contrapunham que, como o jogador não foi inscrito, teriam de pagar nada. A decisão final chegaria em 2015: 800 mil euros para Alvalade. E entretanto Yannick já tinha passado por Benfica, Toulouse, San José Earthquakes (Estados Unidos) e Mordovia Saransk (Rússia). Agora, após uma aventura com sucesso na Tailândia (Ratchaburi Mitr Phol), assinou pelo V. Setúbal.

Agora, a venda de Adrien foi confirmada pelo Sporting e pelo Leicester mas está dependente da FIFA e o médio aguarda por uma decisão positiva para se transferir para a Premier League. Vamos então resumir a novela, destacando em primeiro lugar a primeira posição oficial dos leões sobre o negócio enviada à CMVM.

“A Sporting Clube de Portugal Futebol, SAD vem, nos termos e para efeitos do cumprimento da obrigação de informação que decorre do disposto no artigo 248º, nº1 al. a) do Código dos Valores Mobiliários, informar o mercado que chegou a acordo com o Leicester City Football Club para a cedência a título definitivo dos direitos desportivos e económicos do jogador profissional de futebol Adrien Silva, estando o registo da mesma a aguardar confirmação da FIFA.”

Os ingleses, cientes que a venda de Drinkwater para o Chelsea no último dia de transferências era mesmo uma questão de tempo, terão feito uma primeira proposta ao Sporting de 15 milhões de euros, a que acresceram depois mais cinco por objetivos. Os leões, perante essa oferta, nem quiseram muitas conversas: foi simplesmente ‘não’. Mas enquanto as verbas do médio inglês iam aumentando (os blues entraram numa espiral de fuga para a frente depois de terem falhado Lukaku, Llorente, Oxlade-Chamberlain e sobretudo Ross Barkley), os leões iam esticando com sucesso a corda. No final, houve mesmo acordo. Mas os documentos deram entrada demasiado tarde.

Existe uma regra na Premier League que permite a possibilidade de, desde que seja entregue uma folha dando conta do jogador e dos clubes envolvidos, exista um prolongamento de duas horas para fecho da parte burocrática da transferência. Às onze da noite, houve seis pedidos desses, entre os quais Drinkwater e Adrien. Mas se o reforço do Chelsea já apareceu na última atualização divulgada pela Federação Inglesa de Futebol, já perto das duas da manhã, o de Adrien continuou de fora e por causa desse tal atraso na entrega de toda a documentação.

A título de curiosidade, fomos recuperar o que aconteceu nesses seis casos que ficaram pendentes: Oumar Niasse, que iria do Everton para o Crystal Palace, não foi; Vincent Janssen, que iria do Tottenham para o Brighton, não foi; Mamadou Sakho, que iria do Liverpool para o Crystal Palace, foi mesmo (e fala-se num negócio de 28 milhões de euros); Adeniran, que iria do Fulham para o Everton, foi mesmo; Drinkwater, que iria do Leicester para o Chelsea, foi mesmo e por quase 40 milhões de euros. Só falta mesmo saber Adrien, até que a FIFA se pronuncie.

Entretanto, o jogador regressou a Portugal e voltou a integrar os treinos da Seleção Nacional, tendo em vista a deslocação dos campeões europeus à Hungria no próximo domingo. Mas ainda sem saber nada do seu futuro. Nem os próprios clubes, que não sabem se a transferência se vai concretizar ou não. Nem o próprio universo futebolístico que, saída à parte, desconhece o valor da transação (fala-se de um intervalo entre 22 e 29 milhões de euros).