Em 1873, a montanhosa Buda junta-se à plana Peste e aí está Budapeste, a capital da Hungria e uma das mais belas cidades do mundo. No meio, o Danúbio corre sereno como quem chama por nós. Turistas, claro. E quem são eles? Os jogadores húngaros. Acredite se quiser.

A Hungria joga em casa e só incomoda Rui Patrício aos 90’+4. Até lá, é Portugal a única equipa balanceada para o ataque, com o pensamento na vitória. Verdade, o jogo sai assim-assim à equipa de Fernando Santos. Quer dizer, a entrada é boa. A Hungria nem sai do meio-campo. Prova disso é a sucessão de faltas nos primeiros 60 segundos, a primeira sobre João Mário e a outra sobre Ronaldo. Aí está uma amostra de uma primeira parte digna de um filme do faroeste. Série B, atenção. Eles batem como gente grande. E depois ainda discutem com o árbitro. Esbracejam, refilam, amuam. É um ver-se-te-avias memorável. Portugal nem reage (e ainda bem), só quer a bola e essa, teimosa, foge-nos constantemente. Ora por falta de jeito, ora por falta de atrevimento, sobretudo Gelson. O extremo passa ao lado do jogo e só saca o primeiro drible bem sucedido aos 47 minutos.

Antes, o festival de pancadaria da Hungria, devidamente apoiado pelo apoio frenético do público da casa, faz uma vítima. Priskin, de seu nome. O homem salta a uma bola e dá uma cotovelada em Pepe (a fazer dupla com Bruno Alves pela primeira vez na qualificação para o Mundial-2018). O central português cai desamparado e começa automaticamente a sangrar. Nem é preciso muito tempo para o árbitro holandês Makkelie mostrar-lhe o cartão vermelho. Rua, malandro. Dez contra onze. Curiosamente, no quadradinho anterior, a lesão muscular de Coentrão até nada tem a ver com a ferocidade dos húngaros a cada bola. O lateral lesiona-se sozinho, num salto para atmosfera, naquele que é o único lance de perigo criado pela Hungria, sem Patrício metido ao barulho. O alívio de qualquer jeito é de Danilo, na marca do penálti. Sai Coentrão, entra Eliseu. E nada, Portugal continua apagado, sem soluções para atacar a baliza húngara. De remates à baliza, só um de Ronaldo, aos 5′. Enquanto isso, na Letónia, a Suíça já ganha com um golo do benfiquista Seferovic.

Ao intervalo, 0-0. Calma rapazes, é o 15.º nulo de Fernando Santos em 41 jogos pela seleção. Sem stress. A conversa no balneário resulta. Para Gelson, óbvio. A atitude é outra, mais destemido. Faz uma finta e ganha ânimo. Tal como Portugal. Aos 49′, os Joões divertem-se com a bola entre uma muralha de húngaros. Moutinho, Mário, Moutinho. O passe para Ronaldo é primoroso e o cruzamento sai-lhe bem. A bola sobrevoa o primeiro poste para desespero de outra muralha defensiva da Hungria e vai cair junto à linha de golo, onde está o plácido André Silva a carimbar a vitória, de cabeça. É o seu sétimo golo rumo ao Mundial contra 14 do capitão Ronaldo, a zeros pela primeira vez em sete jogos desta qualificação.

A defesa dessa magra vantagem é tranquila, sem sobressaltos nem sustos por aí além. Um remate de Patkai ao lado (50′) e um cabeceamento de Fiola defendido por Patrício (90’+3) é a fraca receita da Hungria e, no fundo no fundo, é também a imagem do selecionador Storck, cuja primeira substituição, já em desvantagem no marcador, é trocar um avançado por outro. Baaaaah. No outro lado, Ronaldo e André Silva até têm oportunidade para ampliar a vantagem, só que há sempre um dedo mindinho ou uma costela saída do adversário a desviar a bola da rota inicial.

Quando acaba, Portugal celebra a vitória e respira de alívio. É o teste mais exigente para chegar ao último jogo do grupo, com a Suíça, na Luz, a 10 Outubro, com a obrigação de ganhar mais uma vez e selar o apuramento direto, sem necessidade de play-off.

Groupama Arena, em Budapeste
Árbitro Danny Makkelie (Holanda)
HUNGRIA Gulacsi; Fiola, Guzmics, Kadar e Korhut; Lovrencsics (Varga, 78′), Patkai, Elek (Pinter, 67′) e Dzsudzsak; Eppel (Böde, 60′) e Priskin
Selecionador Bernd Storck (alemão)
PORTUGAL Rui Patrício; Cédric, Pepe, Bruno Alves e Coentrão (Eliseu, 28′); Gelson (Bernardo, 63′), Danilo, Moutinho e João Mário; André Silva (Quaresma, 88′) e Ronaldo
Selecionador Fernando Santos (português)
Marcador 0-1, André Silva (49′)
Indisciplina expulsão do húngaro Priskin (30′, vermelho directo)