Pedro Passos Coelho, líder da oposição, afirmou esta quarta-feira que “o PSD não tem nada a opor, antes pelo contrário, a que haja um esclarecimento cabal destas situações“. Passos — que reagia após a Microsoft ser também envolvida num caso de estadia paga a políticos, à qual se somam os casos Oracle e Huawei — considera que escrutinar a “forma como estas empresas muitas vezes atuam” é um “debate que é importante fazer em Portugal”.

O líder do PSD enaltece a “evolução que se fez ao longo das últimas dezenas de anos é muito positiva para o país”. Para o social-democrata, “basta o facto de haver consciência de escrutinar estas situações para se perceber que há uma exigência muito maior da sociedade em querer apurar com transparência as práticas que essas empresas têm.” Mas, “sobretudo”, destaca Passos Coelho, analisar “a prática que pessoas que estão ligadas a instituições públicas seguem. E isso deve ser feito com toda a transparência também.”

Os presidentes de câmara Ricardo Rio (Braga; do PSD), Paulo Cunha (Famalicão; do PSD) e João Neves (Figueira da Foz; do PS), bem como o vice-presidente da câmara de Sintra, Rui Pereira (Sintra; do PS), viajaram a convite da Microsoft entre 18 a 21 de janeiro de 2014, com as autarquias a pagarem “apenas” os voos. Pela estadia, a ida a um museu e refeições a empresa pagou cerca de 900 dólares (750 euros) por pessoa.

As viagens a convite da Microsoft já tinham na manhã desta quarta-feira sido noticiadas pelo jornal i que avançava que estas viagens eram realizadas desde 2011 e que tinham envolvido autarquias como Cascais, Braga, Sousel, Torres Novas e Abrantes, mas o diário avançava apenas com um nome: o de António Rodrigues, presidente da câmara de Torres Novas. Dizia ainda que os presidentes destas autarquias tinham ido a Seattle, mas não especificava se no mandato 2009-2013 ou no que se iniciou em 2013.

No caso da viagem de janeiro de 2014 — o que aconteceu também nas restantes — foi enviada uma carta com essas questões assinadas por Pedro Duarte, antigo líder da JSD e antigo diretor de campanha de Marcelo Rebelo de Sousa.

O post de Pedro Duarte na sua página do Facebook, é uma reação à notícia do i publicada na manhã desta quarta-feira que falava num “polvo laranja” controlado por figuras do PSD como Pedro Duarte e o ex-líder da distrital do PSD/Lisboa, Mauro Xavier. Pedro Duarte, diz que lamenta que “determinados interesses político-partidários sejam misturados” com a sua “vida profissional”.

Também Mauro Xavier reagiu no Facebook, dizendo que, no artigo do i, a “fonte utilizada é um PSD desagradado” com a decisão que tomou de “não mais apoiar a atual liderança”. O antigo líder do PSD/Lisboa acrescenta ainda que “há muita gente nervosa com o futuro do PSD” e com o que pensa e quer para o partido.

Passos optou, no entanto, por não dar qualquer resposta direta à acusação de Mauro Xavier. Sobre o envolvimento de pessoas do PSD nas viagens, Passos disse apenas: “Não tenho nenhuma ideia de que na maioria sejam social-democratas. É verdade que há grandes empresas, nomeadamente multinacionais, que têm essa abordagem de natureza comercial”. Quando o Observador fez o primeiro trabalho sobre a Huawei, Passos Coelho pressionou o vice-presidente da bancada do PSD, Sérgio Azevedo, a dar mais justificações.

Após o Galpgate em 2016, o caso das viagens de políticos e altos cargos do Estado voltou a marcar a atualidade política com uma investigação do Observador a viagens feitas à China à sede da Huawei. Entretanto, na sequência das notícias do Observador, o Ministério Público abriu um inquérito, que decorre no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa (DIAP).

O caso chegou a fazer uma baixa nos gabinetes do Governo, com um adjunto do Ministério dos Negócios Estrangeiros a ser afastado na sequência de uma notícia do Observador sobre a ida à China.

Até agora o Observador apurou que viajaram à sede da Huawei, na China, o vice-presidente da bancada do PSD, Sérgio Azevedo, o presidente da junta de freguesia da Estrela, Luís Newton, o presidente do PSD/Oeiras, Ângelo Pereira, o vice-presidente do PSD/Oeiras, Nuno Custódio, o presidente da câmara municipal de Oeiras, Paulo Vistas, o vice-presidente do PSD/Lisboa, Rodrigo Gonçalves, e um ex-diretor do Instituto de Informática da Segurança Social, João Mota Lopes.

Alguns dos nomes envolvidos admitiram em declarações ao Observador (como se pode verificar nos vários artigos sobre o caso publicados no Observador) que foi a Huawei a pagar os voos e a estadia. A empresa vai insistindo que “nunca pagou viagens”, numa alusão aos voos. Isto sem esclarecer se pagou a estadia no local, nem em que moldes o fez.

Depois da Huawei, houve também o caso Oracle — igualmente noticiado pelo Observador — com altos quadros do Estado a viajarem a São Francisco ao evento anual da empresa.