O braço de ferro entre a Catalunha e o Governo espanhol tem esta segunda-feira (a apenas a três semanas da realização do referendo de independência da região) um importante “barómetro” nas ruas de Barcelona.

O “Diada” (como é conhecido o dia que assinala a conquista de Barcelona pelo rei de Espanha Filipe V em 1714 depois de um cerco de 14 meses) contará com uma grande manifestação e os movimentos separatistas esperam perto de um milhão de pessoas. A palavra de ordem em Barcelona é “A Diada do Sim”, numa alusão clara ao sentido de voto em 1 de outubro — e à posterior criação de um estado independente e soberano.

O problema é que este referendo independentista não é vinculativo. Na semana passada, a lei que aprovou esta consulta popular no parlamento regional (os partidos separatistas têm maioria de deputados no parlamento regional da Catalunha desde setembro de 2015) foi logo no dia seguinte suspensa como medida cautelar pelo Tribunal Constitucional espanhol.

O primeiro-ministro espanhol classificou na altura a convocação do referendo pelos dirigentes catalães como “um ato intolerável de desobediência às instituições democráticas”. Apesar de felicitar esta segunda-feira a Catalunha pelo “Diada”, Mariano Rajoy voltou a ser crítico e pediu “liberdade, convivência e respeito” para todos os catalães. “Por uma ‘Diada’ em liberdade, convivência e respeito para todos os catalães. Feliz dia”, escreveu Rajoy na sua conta na rede social Twitter.

Enquanto Madrid se apoia na Constituição do país para defender que uma decisão sobre a independência da Catalunha terá de ser tomada pela totalidade dos espanhóis, os independentistas defendem que cabe apenas aos catalães a decisão sobre a permanência da região em Espanha. Este domingo à noite, na véspera do “Diada”, o presidente regional Carles Puigdemont afirmou que o Parlamento catalão é “a sede da soberania popular”, estando acima do Governo espanhol e do Tribunal Constitucional. No cargo desde janeiro do último ano, Puigdemont vê na manifestação desta segunda-feira uma forma de “transbordar civicamente o Estado”. E acrescentou: “As urnas unem, não dividem. O que degrada a democracia é não deixar [os catalães] votar no referendo”.

Em 2014, os independentistas organizaram um referendo não vinculativo na Catalunha. Nesta “consulta simbólica” participaram 2,3 milhões de pessoas; 80% pronunciaram pela independência da região.

Qual o impacto da independência da Catalunha na economia espanhola?

A Catalunha é a região mais rica de Espanha e tem cerca de 7,5 milhões de habitantes — um terço da área de Portugal. Desde o início da sua história, como enclave cultural e comercial, que os catalães têm contribuído com a sua capacidade empreendedora para a economia espanhola. A região contribui com quase 20% para o PIB espanhol o que quer dizer que uma separação deixaria Espanha sem um quinto da sua economia.

De acordo com a OCDE, caso a Catalunha se tornasse um país independente, poderia ter um PIB avaliado em perto de 314 mil milhões de euros — maior do que o de Portugal ou de Hong Kong e equivalente ao de Israel, por exemplo.

Comparemos com a Escócia, que “apenas” representa 9,5% do PIB britânico. O governo central perderia muita da sua elasticidade para se sustentar e para, assim, financiar outras regiões que necessitem de apoio. Além disso, a Catalunha é o centro do comércio externo espanhol: 70% das mercadorias chegam aqui e só depois seguem para Espanha. O custo das tarifas, se a Catalunha se tornasse independente, seriam insuportáveis para Espanha. E mesmo que se chegasse a acordo para que estas não existissem, Espanha ainda teria de suportar os custos da movimentação de mercadoria.

Há um terceiro “problema”. É na Catalunha que se produzem 45% das exportações de tecnologia de ponta do país, como automóveis, chips, telemóveis, aparelhos de precisão médica, entre dezenas de outros produtos. A perda de uma tal “incubadora” significaria um enorme rombo no nível de confiança na economia espanhola, que ainda está a lutar para voltar à mesa dos grandes.

O impacto na dívida também seria grande: sem os 20% da Catalunha, a relação entre a dívida e o PIB seria de 115% e não, como atualmente, de 100%.