A sala de controlo de missão perdeu todas as comunicações com o maior veículo espacial a ser enviado para o espaço, mas o último sinal chegou à Terra 83 minutos depois. É oficial: a sonda Cassini morreu. Vinte anos depois de ter sido enviada para Saturno na maior e mais cara missão espacial de sempre, a exploração do gigante gasoso terminou com Cassini, quase sem combustível, a ser deliberadamente deixada à mercê da severa atmosfera de Saturno. Durante um minuto, a sonda continuou a recolher amostras da atmosfera de Saturno e enviar para a Terra informações sobre ela. Agora perdeu sinal com a Terra.

A sonda espacial Cassini fez a última aproximação a Saturno antes de ceder à força gravítica do gigante gasoso. A sonda passou o anel F do gigante gasoso, o mais exterior de todos, pela última vez e preparou as máquinas concebidas para recolher amostras da atmosfera de Saturno e enviar para a Terra informações sobre ela. Às 12h54 entrou nas camadas mais exteriores da atmosfera do gigante gasoso, desligando-se ao fim de um minuto. O último sinal, com dados acerca desse curto período de tempo, foi recebido por uma rede de antenas em Camberra, na Austrália.

Daqui a pouco, às 14h30 de Lisboa (pouco depois de o último sinal da sonda chegar à Terra), a agência espacial norte-americana vai dar uma conferência de imprensa para fazer um balanço da última fase da missão Cassini.

Nos últimos 13 anos, a sonda Cassini vagueou entre as luas e os anéis de Saturno com a intenção de descobrir mais sobre o planeta que está a 1,3 mil milhões de quilómetros da Terra. Quase 2,5 milhões de ordens executadas depois, a sonda vai ser propositadamente deixada à mercê da força gravítica de Saturno para que as luas não fiquem contaminadas — porque podem ter condições para suportar vida no futuro — e para que continuem viáveis para exploração no futuro. É assim que a NASA e a ESA, também ela muito envolvida neste projeto, garantem que nenhum elemento terrestre que possivelmente esteja a bordo da Cassini (um vírus ou uma bactéria, por exemplo) contamine os satélites naturais de Saturno.

Desde abril que a Cassini se prepara morrer: no final desse mês, a sonda começou a fazer 22 mergulhos semanais entre a atmosfera do planeta e os anéis mais interiores. Nunca antes uma máquina concebida pelo ser humano se havia aproximado tanto de Saturno, que anteriormente já tinha sido fotografado pela missão Voyager. O mergulho fatídico aconteceu às 12h54 de Lisboa a 1915 quilómetros de altitude em relação às camadas mais exteriores de Saturno, onde se prevê que a pressão atmosférica seja semelhante à que sentimos na superfície da Terra. No entanto, a sonda só deixará de enviar sinal para a Terra um minuto depois disso. Durante esse curto período de tempo, a Cassini vai viajar a 113 mil quilómetros por hora e colocar a postos uma série de 12 máquinas. Entre elas estão instrumentos para o estudo do plasma e da magnetosfera, um sistema de rádio e espectómetros de radiação infravermelha e ultravioleta. É graças a eles que a Cassini continuou a mandar informações inéditas sobre a natureza e composição da atmosfera de Saturno.

Essas informações não vão chegar imediatamente à Terra: o sinal de rádio enviado pela sonda Cassini demora 83 minutos a viajar entre Saturno e a Terra, portanto o que quer que o veículo espacial captou às 12h54 só chegou até nós às 14h17. Earl Maize, gestor do projeto Cassini a partir do Jet Propulsion Laboratory da NASA (Pasadena, Califórnia) explica que este sinal vai ser recebido pelo complexo Deep Space Network, uma rede de antenas de longo alcance montado em Camberra (Austrália) e vai “soar como um eco”. Esta será a última vez que a Cassini fala com a equipa que lhe deu vida: quando estiver a 1500 quilómetros de altitude, as comunicações começarão a ser “degradadas permanentemente” porque a sonda vai começar “a arder como se fosse um meteoro” e a desintegrar-se completamente em dois minutos. A atmosfera de Saturno é tão agreste que todos os detritos da sonda serão consumidos sem deixar rasto.